
“Chorão viveu como quis, e morreu como quis também”. A frase de Graziela (Nanda Marques) representa o filme na totalidade. Entre os diversos ângulos possíveis para retratar o cantor, os diretores Hugo Prata e Felipe Novaes optam pelo recorte de um rebelde, espontâneo, que amou demais, mas também cometeu diversos equívocos em relação aos colegas da banda e à namorada. Ou seja, nem um herói impecável, nem um vilão ou vítima da própria história, apenas um sujeito de classe popular, que buscava ativamente a fama, até ser perder nos privilégios conquistados através da música.
No papel principal, José Loreto se esforça bastante para captar a alma expansiva e sorridente do protagonista. Ele convence tanto na apresentação sobre os palcos quanto nas sequências de skate e no afeto inconsequente com os amigos mais próximos. O ator puxa o “r” para compor sua versão do sotaque paulista, e se entrega sem comedimento nas cenas mais dramáticas. Chega ao exagero eventual — a cena da depressão com barriga de fora e olhos entorpecidos, durante o luto do pai —, porém, em geral, efetua um trabalho competente.
O mesmo pode ser dito de Nanda Marques, encarnando uma personagem sem defeitos (posto que o roteiro deriva do livro Se Não Eu, Quem Vai Fazer Você Feliz?, escrito pela Graziela real), mas tampouco muito bem-sucedida em sua tentativa de manter Chorão nos eixos. Em paralelo, na galeria de coadjuvantes, há grandes acertos, junto a escolhas questionáveis. Georgette Fadel é magnífica em cada papel que abraça, e aqui, transparece um afeto palpável enquanto mãe do artista. Já Pedro Tirolli soa como uma escolha jovem demais para Champignon, especialmente nos momentos de amadurecimento, até a morte.
Os autores se concentram num Chorão trabalhador, capaz de escrever letras sem parar, que ora encantava as plateias, ora se mostrava grosseiro sobre os palcos.
De modo geral, Chorão: Só os Loucos Sabem se esforça para incluir, em pouco menos de duas horas, todas as passagens principais da vida do músico. Isso inclui reviravoltas de enorme impacto emocional, que surgem sem o devido contexto, nem consequências psicológicas visíveis para o personagem central. A montagem de Tiago Feliciano adora efetuar um paralelo entre os ensaios musicais e acontecimentos pessoais entrecortados. Assim, Chorão se encontra no estúdio com a banda enquanto se vê, rapidamente, o falecimento do pai, o despejo do apartamento, uma segunda morte importante na vida do rapaz (em virtude de um acidente de moto) e assim por diante. Na ânsia de não deixar nada de fora, as passagens se apresentam como podem, meio repentinas.
Isso implica no surgimento abrupto de um bebê, posto que o filme nem sequer havia mencionado este relacionamento. Compreende-se a intenção de não envolver a mulher na história (afinal, o foco se encontra na idealização romântica com Graziela), mas a decisão de nem mesmo explicar como o músico teria ficado com a guarda da criança deixa uma aparência de mistério. Embora não ter tempo (nem responsabilidades) em relação a esta história de amor anterior, o roteiro se diverte com a troca de olhar entre os novos amantes no parque, quando se viram e se encaram, em três, quatro, cinco planos diferentes pela direção de fotografia. Qualquer cena de grande impacto emocional envolvendo a dupla é priorizada pelos autores: as brigas, a reconquista imediata na faculdade dela, e assim por diante.
Isso porque o longa-metragem privilegia catarses — uma sucessão de mortes, o anúncio da casa própria da mãe (com uma excelente reação de Fadel), a transição do rock em inglês para composições em português. Tudo o que não for elogioso a Chorão será meramente insinuado, ou suprimido o máximo possível. Isso inclui as traições (resumidas numa sugestão minúscula no camarim) e o uso de drogas. A respeito deste último fator, fundamental para o fim da vida do personagem, o texto esconde a dependência química enquanto pode. Consente em citar pela primeira vez as drogas quando elas já dominam a vida do personagem, e Graziela está chorando, desesperada, porque “não aguenta mais”. Ora, como se chegou até aí? Evidentemente, os criadores preferem poupar a imagem de Chorão, a ponto de ocultar aspectos essenciais de seu percurso. Mesmo a insinuação de que ele teria composto sozinho as canções do Charlie Brown Jr. (incluindo uma estranhíssima cena do músico chorando enquanto escreve) se prova equivocada historicamente.


Mesmo assim, com tantas concessões e supressões (além de exageros evidentes, tais quais diálogos do nível “Você é a prova que Deus existe”), o saldo se mostra positivo. Isso porque a idealização dos autores se concentra na esfera do amor romântico — ele será visto como um eterno apaixonado, além de bom filho e amigo fiel. Entretanto, as brigas, acidentes, comportamentos machistas ou irresponsáveis são igualmente pontuados pela narrativa, que nunca se preocupa em apresentar o músico na condição de maior de sua geração, nem o mais talentoso. As cinebiografias costumam insinuar que seus protagonistas ganharam um filme porque foram tão bom que mereceram esta honraria. Em contrapartida, este projeto ignora este caminho: os únicos elogios ao talento de Chorão decorrem do olhar encantado da namorada, numa fraca narração em off (“Ver um artista de verdade no palco é uma experiência mágica, quase religiosa”, ela afirma).
Já o filme se foca na vida pessoal (priorizada, em relação à profissional) com uma admiração moderada e plausível. Prata e Novais evitam a habitual justificativa meritocrática (segundo a qual ele teria obtido sucesso por ser incrível, talentoso, e por não conseguir ficar sem produzir) em prol de um percurso funcional graças a conjunção de circunstâncias favoráveis (a capacidade de se adaptar musicalmente, o incentivo da namorada, o relativo ineditismo deste tipo de rock em português, etc.). Os autores se concentram num Chorão trabalhador, capaz de escrever letras sem parar, que ora encantava as plateias, ora se mostrava desagradável e grosseiro sobre os palcos. Enfim, um personagem complexo que, mesmo com tantas falhas, Chorão: Só os Loucos Sabem consegue captar.




