Festival de Vitória 2026 | O curta-metragem e o mini longa

Uma tendência tem surgido entre os curtas-metragens selecionados no 33º Festival de Vitória. Trata-se de um grupo de projetos narrativos com grande quantidade de conflitos e acontecimentos, centrados numa quantidade expressiva de personagens. Em ritmo acelerado, encerram-se praticamente sem final (o que é diferente de um final aberto), deixando a impressão de que nunca foram pensados como obras autônomas.

Nos debates com a imprensa, alguns realizadores explicam que, na verdade, já estão pensando no longa-metragem derivado da mesma ideia. Então, o curta seria um teste para investigar se a ideia funciona, ou ainda, uma oportunidade para começar a desenvolver os personagens. Este é o caso, por exemplo, do capixaba Assalto, de PH Martins. Na trama do curta, ainda conhecemos pouco dos dois irmãos que planejam o crime do título, assim como da relação entre ambos, que motivaria algumas decisões surpreendentes na conclusão.

Mercado Central, de Tássia Dhur
Mercado Central, de Tássia Dhur

No maranhense Mercado Central, de Tássia Dhur, uma vasta gama de personagens também desperta a curiosidade a respeito de suas vidas para além do pequeno instante em que aparecem. Na conclusão da roteiro, algumas figuras importantes nem mesmo são citadas. O pressentimento do público se confirma: de acordo com a cineasta, esta semente de conflitos ainda pretende se estender, e se aprofundar, no formato do longa-metragem.

Isso não constitui um demérito em si próprio, nem significa que as obras em questão sejam fracas, pelo contrário. Trata-se de projetos bem realizados, reveladores do talento de seus autores. Demonstram a vontade de filmar, assim como as referências cinéfilas de cada um. Entretanto, chamam atenção para a quantidade de obras curtas que não são pensadas para as potencialidades específicas deste formato.

Esta compreensão ainda sugere, conscientemente ou não, que o longa-metragem seria um caminho natural, e mais nobre, à realização. Faz-se curtas pensando em passar ao formato mais extenso — em muitos casos, enquanto forma de provar-se (ao público, aos editais, aos festivais). Diversos projetos soam como portfólios, nos quais o curta se converte em formato de transição.

Stregoneria, de Gian Orsini
Stregoneria, de Gian Orsini

Os diretores não necessariamente precisam verbalizar a intenção de expandir o curta num longa. Alguns filmes despertam a impressão, por si próprios, de tentarem embutir na narrativa sucinta algo que careceria de muito mais tempo de narrativa.

Este é o caso de Stregoneria, de Gian Orsini. Um verdadeiro time dos sonhos do cinema paraibano (Marcélia Cartaxo, Soia Lira, Zezita Matos, Ingrid Trigueiro) compõe o elenco, interpretando peças de uma mitologia complexa, repleta de bruxas, livros sagrados e rituais transformadores. Tudo se resolve às pressas, antes de conhecermos de fato as heroínas, as antagonistas, seus objetivos e obstáculos. Paira a impressão de assistirmos ao trailer de um longa-metragem futuro.

A propósito de mitologias, releituras histórias e futuros assustadores, tanto o violento Cordão de Prata, terror carioca de Getúlio Ribeiro, quando a ficção científica amazonense Ybi, de Eliza Telles e Begê Muniz, soam comprimidos numa duração que não comporta seu conteúdo. Nesta estrututa, sacrificam-se a construção dos personagens, o contexto sociopolítico, as especificidades de cada distopia ou fantasia.

Boi de Salto, de Tássia Araújo
Boi de Salto, de Tássia Araújo

Em paralelo, o curta-metragem Pequeno London, da dupla Victor di Marco e Márcio Picoli, foi concebido, de acordo com os mesmos, enquanto forma de aprofundar os personagens para o longa-metragem que já estava em fase de elaboração. Já o piauiense Boi de Salto, de Tássia Araújo, condensa tantas passagens — desde a mitologia do boi, até sua subversão queer —, que parece atropelar acontecimentos, em busca de caber na duração requisitada a este formato pelos festivais de cinema.

Novamente, isso não diminui os méritos destes belos filmes. Entretanto, nos faz pensar nesta criação de curtas enquanto anexos de um longa, testes para esta pretensa “evolução natural da realização”, ou ainda, condicionados à existência do formato extenso, mais apropriado ao circuito comercial. Ora, como valorizar o curta-metragem enquanto tal, com sua potência específica?

A resposta parece residir, sobretudo, junto aos projetos experimentais, ou menos narrativos em geral. Vim e Irei como uma Profecia, de Fábio Rogério; Trivakra, de Sofia Angst, e Diálogo Bulbul, de Bruno Churuska, Gledson Augusto, Nicole Mendes, Yan Altino e Zimá Domingos, dificilmente se ajustariam a uma narrativa mais longa — e tampouco parecem desejar tal dilatação.

Vim e Irei como uma Profecia, de Fábio Rogério
Vim e Irei como uma Profecia, de Fábio Rogério

Nestes casos, um conceito audiovisual específico (as intervenções eletrônicas de Trivakra; o formato colorido e multitelas de Vim e Irei como uma Profecia) é explorado, desenvolvido, aprofundado ao longo de dez a quinze minutos. As iniciativas bastam-se por si próprias, porque acreditam na liberdade de não precisar contar uma história em moldes clássicos. Concentram-se em investigar algum recurso de linguagem ou conceito estético — algo que não se acomodaria em mais de 70 minutos.

Fora do registro experimental, o curta alagoense Ajude os Menor, de Janderson Felipe e Lucas Litrento, deriva de um conto, preservando o encerramento lacônico do formato literário. Em paralelo, o pernambucano Ricardo, de Gino Batidão, e o paulista Picumã, de Sladká Meduza, encontram no registro queer uma proposta de subversão — de personagens, cores, identidades, e também de formato narrativo. Incorporam flashes, instantes de absurdo, fantasia e delírio, que também possibilitam fugir à linearidade das histórias convencionais.

Ao final, resta a impressão de que os títulos mais interessantes são aqueles pensados para o curta-metragem. São filmes que valorizam a estrutura do curta enquanto tal. Fora do Festival de Vitória, alguns diretores navegam muito bem entre as duas linguagens, compreendendo as especificidades de cada uma (caso de Carlos Segundo, Carlos Adriano, André Novais Oliveira), e separando-as em suas potências.

Por fim, compreende-se a ambição de se exercitar no longa-metragem, e mesmo de se dedicar exclusivamente a ele. (Afinal, é dificílimo viver da realização exclusiva de curtas). Em contrapartida, diante da oportunidade de concretizar um curta-metragem, a decisão de comprimir conflitos, ou suspender ações complexas com a justificativa de que serão aprofundadas adiante, num hipotético projeto futuro, apenas sugere certo menosprezo por uma linguagem rica e autônoma.

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