Superfície (2026)

Festa sem fim

título original (ano)
Superfície (2026)
país
Brasil
gênero
Drama
duração
11 minutos
direção
Carolina Campista
elenco
Alex Bobini, Elisa Coradini, Daniel Monjardim, Thaynara Bromenchenkel
visto em
33º Festival de Vitória (2026)

Natália, Isabela, Luiz e Matheus fazem a festa. Cena após cena, eles dançam, bebem, pulam nos carros alheios e brincam no meio da rua, durante madrugada. Nada baixa a euforia dos amigos — nem mesmo o momento em que uma garota afirma estar grávida, e disposta a efetuar um aborto. Todos lamentam, mas, fazer o quê, é isso mesmo, bola pra frente, vai dar tudo certo. E dá-lhe mais euforia.

Compreende-se que Superfície busque abraçar uma juventude inconsequente, vivendo apenas o tempo presente, em provável compensação pela falta de algo (Afeto familiar? Condições financeiras? Reconhecimento?). O título certamente não foi escolhido ao acaso. Entretanto, nunca conhecemos o quarteto fora deste registro bem pontual e específico do gozo ininterrupto. A montagem corta de uma garrafa de álcool quase terminada para outra garrafa de álcool quase terminada. E que estranhos efeitos sonoros são aqueles, quando o garoto interrompe desconhecidos na festa?

O único problema de tal abordagem reside no fato de que, quando tudo é intensidade, nada o é. As imagens borradas da dança, a música, a conversa bêbada, perdem o impacto quando voltam pela terceira ou quarta vez consecutivas, sem respiro, nem contemplação entre eles. A cineasta Carolina Campista demonstra verdadeiro apreço por tudo que o que possa ser exteriorizado via corpo, voz e movimento. Foca-se naquilo evidentemente visível — existe símbolo mais codificado do que o imaginário do bêbado trançando as pernas no meio da rua?

Ao mesmo tempo, existe ali uma garota insegura. Engravidou, mas não deseja seguir com a gestação. Como ela se sente? Teve medo, angústia? Pensou numa possível maternidade? Cogitou a reação dos demais? Aliás, que outras pessoas importantes orbitam sua rotina? Ela pesquisou a respeito de distintas maneiras de interromper a gravidez? Os sentimentos dela — verdadeiro conflito da obra — se perdem em meio ao turbilhão.

Teria sido comum nos colocarmos ao lado dela, enxergando os acontecimentos por seus olhos, enquanto o mundo segue girando. Em contrapartida, a autora nunca interrompe a celebração para investigar o impacto destes fatos na psique da jovem. Ela não domina o ponto de vista da narrativa — por isso, enquanto espectadores, nós somente a observamos de fora, em terceira pessoa.

Em consequência, nunca conhecemos o grupo de fato. Com o que sonham? O que desejam? Que acontecimentos ocupam sua vida durante o dia, motivando tal escapismo no período noturno? Os amigos próximos não se esforçam em acolher as possíveis inseguranças da protagonista, entretanto, a direção tampouco o faz — e o espectador nunca recebe ferramentas suficientes para seguir por este caminho. Trata-se de um cinema menos humanista do que obsessivamente voltado às sensações, ao show, ao espetáculo. Mas o verdadeiro respeito a estas figuras residiria no esforço de compreender quem são.

Superfície (2026)
4
Nota 4/10

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