
Natália, Isabela, Luiz e Matheus fazem a festa. Cena após cena, eles dançam, bebem, pulam nos carros alheios e brincam no meio da rua, durante madrugada. Nada baixa a euforia dos amigos — nem mesmo o momento em que uma garota afirma estar grávida, e disposta a efetuar um aborto. Todos lamentam, mas, fazer o quê, é isso mesmo, bola pra frente, vai dar tudo certo. E dá-lhe mais euforia.
Compreende-se que Superfície busque abraçar uma juventude inconsequente, vivendo apenas o tempo presente, em provável compensação pela falta de algo (Afeto familiar? Condições financeiras? Reconhecimento?). O título certamente não foi escolhido ao acaso. Entretanto, nunca conhecemos o quarteto fora deste registro bem pontual e específico do gozo ininterrupto. A montagem corta de uma garrafa de álcool quase terminada para outra garrafa de álcool quase terminada. E que estranhos efeitos sonoros são aqueles, quando o garoto interrompe desconhecidos na festa?
O único problema de tal abordagem reside no fato de que, quando tudo é intensidade, nada o é. As imagens borradas da dança, a música, a conversa bêbada, perdem o impacto quando voltam pela terceira ou quarta vez consecutivas, sem respiro, nem contemplação entre eles. A cineasta Carolina Campista demonstra verdadeiro apreço por tudo que o que possa ser exteriorizado via corpo, voz e movimento. Foca-se naquilo evidentemente visível — existe símbolo mais codificado do que o imaginário do bêbado trançando as pernas no meio da rua?
Ao mesmo tempo, existe ali uma garota insegura. Engravidou, mas não deseja seguir com a gestação. Como ela se sente? Teve medo, angústia? Pensou numa possível maternidade? Cogitou a reação dos demais? Aliás, que outras pessoas importantes orbitam sua rotina? Ela pesquisou a respeito de distintas maneiras de interromper a gravidez? Os sentimentos dela — verdadeiro conflito da obra — se perdem em meio ao turbilhão.
Teria sido comum nos colocarmos ao lado dela, enxergando os acontecimentos por seus olhos, enquanto o mundo segue girando. Em contrapartida, a autora nunca interrompe a celebração para investigar o impacto destes fatos na psique da jovem. Ela não domina o ponto de vista da narrativa — por isso, enquanto espectadores, nós somente a observamos de fora, em terceira pessoa.
Em consequência, nunca conhecemos o grupo de fato. Com o que sonham? O que desejam? Que acontecimentos ocupam sua vida durante o dia, motivando tal escapismo no período noturno? Os amigos próximos não se esforçam em acolher as possíveis inseguranças da protagonista, entretanto, a direção tampouco o faz — e o espectador nunca recebe ferramentas suficientes para seguir por este caminho. Trata-se de um cinema menos humanista do que obsessivamente voltado às sensações, ao show, ao espetáculo. Mas o verdadeiro respeito a estas figuras residiria no esforço de compreender quem são.




