Reparação (2026)

Olhar a morte na cara

título original (ano)
Reparação (2026)
país
Brasil
Linguagem
Documentário, Experimental
duração
70 minutos
direção
Marcus Curvelo
elenco
Sônia Gentil Curvelo, Marcus Curvelo, Joel Curvelo
visto em
15º Olhar de Cinema (2026)

Existe certo incômodo em nos deparar com a imagem de uma pessoa doente, frágil, num leito de hospital. Nossos tempos de autoexposição e tendência ao espetáculo soam o alerta para a possível exploração da miséria alheia — tema que retorna com frequência diante da representação de cada indivíduo sofredor ou necessitado no cinema. Ora, projetos como aqueles encarnados por Jean-Claude Bernardet, em fim de vida, co-dirigidos por Fábio Rogério, nos lembram que a morte, e a fragilidade do corpo, não precisam se tornar tabu. Podem suscitar debate, confrontando o nosso desconforto e, sobretudo, tornando-se matéria de imagem e som. As performances mortuárias de Bernardet geravam um incômodo fundamental — a arte também serve para isso.

Estas reflexões vêm à mente diante do belíssimo Reparação. Com poucos anos de diferença, o diretor Marcus Curvelo perdeu o pai, e depois a mãe. Ainda em recuperação da primeira tragédia, precisou lidar com a doença e passagem da mãe, que havia apoiado o filho no luto anterior. Por isso, o cineasta faz de sua dor um material de reflexão, de construção e reinvenção (dos sentimentos e de si próprio). Ele mesmo flertou com a finitude, conforme atestam os cortes profundos no braço. Em contrapartida, a disposição a elaborar esta angústia através do audiovisual transparece uma disposição a seguir em frente. Alguns cineastas filmam para se manter vivos, de maneira mais ou menos literal. O cineasta baiano parece ter filmado para organizar, de maneira compreensível aos demais, o turbilhão que se agitava dentro dele.

O projeto respira conforme o diretor também o faz, até enxergar a memória afetiva dos pais como um álbum de retratos.

Para isso, recorre a ferramentas de estranhamento narrativo e estético. Prefere se distanciar do real a reproduzi-lo, ou seja, aludir a situações e eventos, ao invés de mostrá-los como tais. O filme recorre a uma janela mais próxima do quadrado, que chama atenção à imagem enquanto recorte do mundo. Utiliza um preto e branco lavado, de baixo contraste, adquirindo uma tonalidade acinzentada geral — que tampouco corresponde à natureza tal qual a enxergamos. Em seguida, aposta em metáforas, metonímias, símbolos. Filma um sofá de três lugares, onde se pressupõe que se sentavam os três familiares. Resgata uma chamada telefônica com o pai, a respeito precisamente da doença do tio. Encontra formas literais de reparação, destinadas a espelhar sua reconstrução interna — o carro quebrado, a estátua partida do Cristo.

A principal metáfora eleita pelo autor reside na maresia. O cinema brasileiro (e internacional, sem dúvida) tem usado à exaustão as ondas do mar enquanto ilustrações da liberdade, da fuga, do poder da natureza face à pequenez dos indivíduos. Quantos longas-metragens não se encerram com os protagonistas olhando para o mar, rumo a um futuro desconhecido? Ora, para Curvelo, o mar gera corrosão. Ele enferruja os aparelhos, destrói progressivamente os objetos, borra os vidros. O roteiro inclusive nos lembra que Salvador seria a cidade brasileira com mais alto teor de maresia. A partir deste conceito, o diretor-protagonista começa a investigar a corrosão dos carros, das pessoas, de si próprio. Captura a ferrugem nas barras, nos portões e nos prédios enquanto sinal desta passagem incontrolável do tempo, e do caminhar inevitável à morte.

O conceito o auxilia a passar à performance de si próprio. A pasta de vinagre e amido de milho, utilizada na ferrugem dos carros, lambuza também o rosto do criador, buscando consertar as feridas internas. Ele reflete acerca do possível efeito deste mar violento na saúde física e mental. “A maresia pode causar câncer de medula óssea?”, repete, em diversas línguas, tal qual um mantra buscando ecoar mundo afora. Em paralelo, filma-se chorando em instantes de elaboração fictícia: num primeiro momento, sobrepondo o som do choro à copa das árvores e à chuva, e num segundo instante, permitindo que a luz piscante da televisão transforme a expressão desolada numa alusão ao luto, ao invés do próprio luto. Nestes momentos, a câmera jamais se aproxima em close-ups, de modo sensacionalista. A distância permanece fundamental ao autor.

Aos poucos, Reparação se abre. Sai da casa, do plano fechadíssimo da ligação telefônica, dos detalhes bem próximos da ferrugem nas barras. Começa a privilegiar as praias, o cadáver de um animal sobre a areia, devorado pelos urubus, e uma longa tirada de Curvelo com um cone, expressando-se ao mar e recebendo em retorno o vento, a maresia e os barulhos. O projeto respira conforme o diretor também o faz, até enxergar a memória afetiva dos pais como um álbum de retratos. A captação da mãe ao lado de pescadores, iniciada de novo e de novo, se assemelha ao jovem admirando inúmeras vezes as fotografias da mulher. “É isso a vida, né mesmo?”, ela dispara, sem nenhuma autopiedade, a respeito da condição de saúde. A profunda lucidez desta mulher, assim como a ausência de sentimentalismo, impregnam o projeto como um todo. Na sala escura, durante o Olhar de Cinema, ouviam-se dezenas de choros, justamente porque o projeto não se esforça em nos fazer chorar. Assim, permite que os sentimentos de cada um surjam organicamente.

O saldo final é impressionante. Curvelo sempre foi conhecido como grande cineasta, roteirista e ator, embora seja associado popularmente às figuras cômicas. Aqui, em chave oposta, aproxima-se do humor trágico (a digníssima e complexa figura do palhaço triste), colocando o próprio corpo como canal para o expurgo alheio. Evita se enaltecer, ou se apiedar sobre a própria sorte. Não denuncia, não se desespera: cria. Além disso, ele o faz por meio de recursos puramente cinematográficos: a apresentação de fatos através das múltiplas passagens do tempo, a herança tragicômica de um revólver, a indicação de doenças e mortes em silêncio, evitando qualquer diálogo explicativo. O autor acredita na potência das imagens, além da capacidade de inferência do espectador. Permite-nos, assim, espelhar nosso próprio imaginário de luto nas frestas deixadas pela costura de imagens e sons.

Por fim, convém ressaltar a capacidade única do projeto em se afastar dos pressupostos de tempo e espaço. O luto costuma estar radicalmente associado a tais demarcações (o dia preciso da morte, o número de meses desde o falecimento, o local exato onde o trauma ocorreu). No entanto, a mise en scène embaralha temporalidades, rompe com cidades e casas, e ultrapassa a noção de uma cronologia ou linearidade. Curvelo não fica melhor a cada dia, de maneira progressiva, até se considerar curado, ou reparado. Ele alterna performances e criações em ordem fluida (o pai vem e vai, a mãe vem e vai), lembrando-nos que as lembranças saudosas e dolorosas também possuem um fluxo próprio. Alguns dias serão mais felizes, e os outros, de recaída emocional. O resultado faz prova de encantadora maturidade, e da capacidade de orquestrar, esteticamente, um dilema tão pessoal.

Reparação (2026)
9
Nota 9/10

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