
É muito interessante assistir a Xica da Silva cinquenta anos após sua estreia no cinema. Naquela época, o diretor Cacá Diegues consagrava uma nova atriz (Zezé Motta), colocava uma personagem negra no centro da trama, e propunha uma releitura farsesca da história da escravidão no Brasil. O filme se tornou o maior sucesso comercial da carreira do cineasta (criador de obras extremamente populares, como Bye Bye Brasil, Tieta do Agreste e Orfeu) e marcou a cultura nacional, motivando, inclusive, uma releitura como telenovela em 1996. Em meio à nossa vasta galeria de ícones malandros, abusados e divertidos, Xica ocupa posição de destaque.
Hoje, em cópia primorosamente restaurada, talvez se observe o projeto com outros olhos. Diversas mulheres negras ocuparam e ocupam as telas do cinema desde então — ainda em quantidade insuficiente, sem dúvida. Diretoras negras também propuseram seu retrato da escravidão e da opressão sobre corpos negros. O pressuposto carnavalesco da mulher escravizada, que ascende socialmente devido às suas habilidades sexuais, deixa de ser apenas engraçado e exótico — torna-se também questionável. Afinal, no clássico de 1976, Xica é assediada literalmente desde a primeira cena. Faz sexo com seu mestre (Rodolfo Arena), com o filho dele (Stepan Nercessian), com o comendador João Fernandes (Walmor Chagas), com o inspetor da coroa portuguesa (José Wilker). Assim, conquista privilégios, luxo, e certo poder de comando entre os brancos.
Xica testa os limites deste poder de exceção, apenas para alertar aos demais negros e negras sobre os riscos de tamanha travessura. Serve como cautionary tale.
A protagonista já foi considerada um ícone progressista — um exemplo benéfico da autonomia negra. Compreende-se que a mulher capaz de conquistar sua própria carta de alforria, além de um posto de prestígio, e de seu navio e palácio particulares, soe como modelo de sucesso. Xica nunca é convertida em vítima, pelo contrário. Ela demonstra grande satisfação em cada encontro sexual, sobretudo, graças à capacidade de fazer os homens urrarem de prazer. Seu poderio social e político está intimamente ligado à capacidade de domar, na cama, os nobres mais respeitados da época. Ela demonstra orgulho de seu corpo, sua raça e seu apetite sexual, num contraste com a a representação média de pessoas escravizadas.
Em contrapartida, passadas algumas décadas, a trajetória de ascensão e queda desta mulher passou a ser lida sob óticas distintas. Afinal, os trunfos da protagonista decorrem única e exclusivamente da troca sexual — ela nunca deixa de ser um objeto fetichizado por mestres, patrões e parceiros ricos. Certo, a heroína se oferece a tais práticas com um invariável sorriso no rosto. No entanto, o caminho rumo à igualdade de gênero e ao fim do racismo dependeria de maior disponibilidade sexual das mulheres? Por que apenas Xica exibe sua nudez integral, enquanto os homens jamais se desnudam no filme? Esta não seria uma visão degradante para a figura que, na impossibilidade de mudar as regras do sistema, procura brechas (mais ou menos exploradoras e degradantes) dentro dele?
Na conclusão, este Ícaro é punido por voar perto demais ao sol. O roteiro nos lembra que, por mais vantagens que obtenha, e mais privilégios que conquiste, Xica ainda é mulher, negra, ex-escravizada. Assim, será punida socialmente por ter ocupado um cargo social que não se estima digno dela — quanto maior a subida, maior a queda. Perseguida e humilhada, terá que se refugiar num local reservado exclusivamente a pessoas negras (um “Convento de Pretos”, fundado pela própria Xica), onde os habitantes são privados de contato sexual — até a nova residente subverter as regras locais, é claro. O tratamento da sexualidade enquanto compulsão, tendência animalesca e condição sine qua non da cordialidade se presta igualmente a questionamentos.
Logo, a protagonista transborda de ambiguidades. Ela favorece algumas pessoas negras que, entretanto, ainda trata como serviçais. Aceita apenas escravizados em seu navio, contanto que exerça seu poder sobre eles. Em plena estratégia de sedução, observa um homem sendo açoitado, o que não lhe desperta nenhum sentimento em especial. Nem perversa, nem aflita com a situação, ela minimiza o ato de violência em nome de seus planos que visam unicamente os ganhos individuais. Em outras palavras, as conquistas de Xica não se aplicam a outras pessoas negras. Ela jamais luta em nome de uma coletividade oprimida, mas em prol dos próprios vestidos, posses e jantares. Busca uma vida melhor para si mesma.
Assim, torna-se a malandra exemplar. Uma prima próxima da libidinosa Carlota Joaquina no filme de Carla Camurati; do preguiçoso Macunaíma encarnado por Grande Otelo e Paulo José; do ardiloso Lorde Cigano de Bye Bye Brasil. Compõe a ciranda de figuras que encantam gerações por agirem como não se espera delas, rompendo o pacto social, explorando impensáveis liberdades (sexuais, sobretudo), até serem punidas e retornarem a seu lugar “de direito”. Afinal, a rainha feia e amargurada retorna a Portugal; Lorde Cigano tem um final melancólico e pouco transformador; Macunaíma é devorado; e Xica perde os vestidos, o poder e a admiração pública. Todos pagam um preço altíssimo por seus deleites. Não por acaso, a maioria destas produções explora as viagens próximas do road movie — ou pelo menos, a conclusão via deslocamentos, literalmente reposicionando (geográfica e socialmente) seus alegres infratores.


Admira-se em Xica da Silva sua astúcia e inventividade. Convenhamos: foi necessária uma ousadia impensável para se desnudar na frente do homem mais poderoso do Império, no intuito de conquistá-lo e integrar seu círculo pessoal. Em paralelo, o espectador é convidado a se colocar ao lado de Xica, torcendo por ela em sua ânsia por um enriquecimento rápido e ostensivo. A mulher não batalha por direitos (ela logo percebe que a carta de alforria não lhe permite entrar na igreja dos brancos), mas pela fortuna. Ela se empodera através dos bens — um dos modos mais voláteis de despertar encantamento público, até porque tais presentes podem lhe ser retirados de um momento para o outro — e assim o serão.
No fundo, a destemida Xica soa ingênua e infantil. Testa os limites deste poder de exceção, apenas para alertar aos demais negros e negras sobre os riscos de tamanha travessura. Serve como cautionary tale, uma fábula de precaução a respeito das graves consequências para todos aqueles que se atrevem a extrapolar um espaço legal e tacitamente determinado para si. Termina com um sorriso no rosto — a alegria inabalável desta mulher brasileira, que não desiste nunca —, embora aprisionada. Que alegria é esta? Do que estamos rindo, afinal, quando os orgasmos esplendorosos pertencem somente aos homens? Quando Xica ganharia a oportunidade de gozar da mesma maneira? Ou o único prazer da mulher reside no delírio temporário das riquezas? Hoje, os feitos desta mulher soam mais amargos do que talvez tenham representado cinquenta anos atrás.



