Na 21ª CineOP — Mostra de Cinema de Ouro Preto, a segunda sessão da Mostra Contemporânea de Curtas-Metragens se distinguiu radicalmente da sessão anterior. Enquanto o primeiro grupo se demarcava devido à linguagem experimental, a segunda leva de filmes trabalha a memória de maneira mais literal e narrativa. Em teor majoritariamente cômico, evoca grandes artistas, prestando homenagem por meio da colagem de materiais de arquivo.
O êxito das empreitadas resulta desigual. Para dois grandes curtas-metragens, há dois trabalhos medianos, além de dois com desenvolvimento insuficiente de seu conceito. O melhor título foi Um Certo Cinema Brasileiro (SE), de Fábio Rogério. O diretor resgata reportagens sobre a exibição simultânea de dois clássicos do cinema brasileiro: Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia, de Hector Babenco, e A Dama do Lotação, de Neville d’Almeida.

A excelente montagem contrasta, com ironia, as falas dos espectadores na fila de entrada. A maioria prefere o filme estrelado por Sônia Braga, devido ao sucesso anterior de Dona Flor e Seus Dois Maridos, além da promessa de cenas de sexo. Um homem inclusive confessa sua esperança de encontra um “pornô”. Em contrapartida, o público ávido por cenas picantes deixa claro seu desapreço pelo cinema brasileiro, que taxa de sensacionalista e violento. Este imaginário popular repleto de preconceitos (e também hipocrisias na prática do consumo) é muito bem explorado pela obra.
Por sua vez, Entrevista com Fantasmas (SP/RS), de Lincoln Péricles, também acompanha a sala de cinema enquanto palco privilegiado de acesso aos filmes. O cineasta, também conhecido como LK, imagina seu encontro repentino com uma jovem atriz de 100 anos, que contracenou com estrelas do cinema americano (“Trampei com Marilyn Monroe, tá ligado? Faleceu, já”). O absurdo desta singela fantasia despertou boas risadas, no sentido de opor a profissão de ontem e de hoje; e o grande cinema de rua a um estabelecimento comercial que, hoje, ocupa o imóvel.

A narrativa se revela tão prazerosa que desperta uma pequena frustração quanto se encerra, em apenas dez minutos. Como seria o encontro com outros fantasmas? Que outras interações surgiriam com aquela atriz? O que mais teria vivido a experiente novata? De qualquer modo, o projeto faz prova da capacidade de LK em desenvolver situações inventivas a partir de orçamentos restritos — aqui, numa captação via telefone celular.
Depois de duas abordagens originais e lúdicas, Helena! Cinema! prefere um tom mais solene. O curta-metragem dirigido por Cavi Borges e Christian Caselli relembra o percurso de Helena Ignez, desde seus primeiros filmes como atriz até os longas-metragens enquanto diretora. Durante uma entrevista, a protagonista compartilha suas recordações, ao passo que uma leitura poética exalta seu valor (“Helena é o máximo porque é o impossível”, “Dança, Helena, entre o delírio e o distanciamento”).

Embora a personagem traga reflexões relevantes a respeito da independência feminina e do desafio de preservar uma linguagem radical, o próprio filme destinado a representar uma figura tão rebelde se revela comportado até demais. A captação em vídeo de Ignez é simples em termos técnicos, enquanto o poema em off sofre com algumas passagens de som estourado (a narradora teria encostado no microfone?). Obviamente, qualquer panorama abrangente de tão extensa carreira, em 14 minutos, resultaria num resumo modesto, apesar de afetuoso.
Depois de Helena Ignez, chega a vez de Eduardo Coutinho e João Cabral de Melo Neto. Habitar o Tempo (RJ), de Cristiana Grumbach, acompanha os descendentes do escritor lendo Os Três Mal Amados, junto do cineasta Eduardo Coutinho. Trata-se de uma reunião informal — uma primeira leitura, numa sala de estar, com os participantes sentados. Há duas câmeras presentes, em captação instável, na mão, com textura digital de baixa qualidade. Aparentemente, buscava-se originalmente produzir mero registro documental da reunião.

Ora, o material é editado de modo a representar uma ode ao texto, e à figura de Coutinho. Telas-dentro-da-tela segmentam o enquadramento em dois, apresentando ângulos diferentes da mesma leitura. No entanto, nenhum ponto de vista resulta mais expressivo do que o demais, e a justaposição de materiais soa redundante. Além disso, o procedimento estético jamais se desenvolve ou aprofunda. Lê-se, do começo ao final, enquanto a captação caseira desliza aqui e acolá. Acaba-se o poema, e acaba-se o filme. Paira a impressão de que o cinema poderia extrair muito mais do que a mera constatação de um fato. Onde se encontra o ponto de vista da autora a respeito do que foi filmado? Do poema? Da interpretação de cada um? Mistério.
Na chave da homenagens a figuras populares, Voltamos a Apresentar: O Popular Gil Gomes (SP), de Ariel Serrão e Tainá Lima, avalia não exatamente o percurso do famoso apresentador, mas aquele de João Bertolucci, seu imitador. Na cidade de Boituva, o homem anuncia velórios e faz propaganda de produtos em voz análoga ao estilo peculiar de Gil Gomes.

Por mais divertida que seja a apropriação despojada deste imaginário, os autores não aparentam trazer qualquer tipo de discurso a respeito de seu objeto de estudo. Eles se encantam com Bertolucci? Adoram sua imitação, ou acreditam no valor desta forma de comunicação sensacionalista? Na ausência de reflexão acerca de seu tema, o resultado corre o risco de ser lido como uma piada só, ou —ainda mais complicado —, uma possível ridicularização deste personagem exótico.
Por fim, Eunice Gutman Tem Histórias (RJ), de Lucas Vasconcellos, procura homenagear o percurso da grande cineasta, ainda pouco estudada enquanto pioneira do cinema brasileiro. A ambição é tão louvável quanto compreensível — afinal, o olhar a uma autora pouco estudada poderia ajudar na popularização de sua obra. Entretanto, os meios encontrados para tal apreciação são insatisfatórios.

O curta-metragem se abre com uma cartela básica, tanto em termos de design quanto de conteúdo. O espectador é lembrado que ela foi “precursora do cinema feminista”, e tem “mais de 30 filmes”. (Qual a compreensão dela dos feminismos? Engajou-se diretamente nestas correntes? Seus projetos mudaram ao longo do tempo? Estão preservados? Que impacto tiveram na sociedade? Como foram recebidos? Eunice ainda produz? Não se sabe).
Em seguida, alguns trechos lineares e cronológicos das obras da autora desfilam em tela. A montagem efetua muito pouco a partir deste material, no sentido de cruzar ou conectar temas. Contenta-se com aproximadamente dois minutos por filme, exibidos um ao lado do outro. Ainda mais surpreendente é a presença da própria autora, nos minutos finais, dando um “oi” ao espectador. Ora, se o cineasta tinha a própria diretora à disposição, por que não conversou com ela? Não aproveitou para escutar suas recordações e interpretações? O resultado soa como uma oportunidade perdida, com nível insuficiente de pesquisa e de elaboração a partir dos materiais de arquivo.
A programação da 21ª CineOP vai até 30 de junho, com sessões gratuitas no Centro de Convenções da UFOP, no Cine-Museu e na Praça Tiradentes, em Ouro Preto.



