CineOP 2026 | O progresso tóxico em quatro curtas-metragens

A 21º CineOP — Mostra de Cinema de Ouro Preto começou fortíssima em sua primeira sessão de Curtas-metragens Brasileiros Contemporâneos. Em comum, os quatro filmes selecionados abordam, através das ferramentas do cinema experimental, as derivas político-sociais em nome do progresso e do desenvolvimento. Denunciam, em particular, o impacto nocivo da mineração, o que inclui a destruição do meio-ambiente e os graves problemas de saúde nos moradores destas regiões.

Em comum, os filmes utilizam as ferramentas mais comuns da experimentação não-narrativa, que visa um distanciamento crítico através da perturbação dos sentidos. Assim, os diretores apostam em fragmentos repetidos, ágeis, ajudados por sobreposições, flashes, glitches e letreiros poéticos. A imagem do real pode ser, portanto, tingida de várias cores, saturada de estímulos, cíclica e intermitente. Dessa maneira, procura-se romper com a impressão de naturalidade diante da ação violenta de empresas.

Ouro de Tolo Remix (MG), de Gabriel Afonso, expõe os efeitos da mineração em Nova Lima, localidade marcada por forte desigualdade social. O cineasta parte de reportagens e menções na imprensa, seja laudatórias, seja curiosas em relação à atividade destas companhias. Enquanto o som sugere as maravilhas do ouro, a imagem colorida ou sobreposta a ícones de toxicidade nos lembra de uma ameaça propagandeada como modernidade.

Trata-se de uma obra sucinta, adequada à linguagem do curta-metragem, e disposta ao diálogo por meio da overdose de informações e recortes sonoros — às vezes, mesmo cômicos, como é o caso dos gritos de “É ouro!” dos narradores esportivos. O ativismo político se faz jovem, simples, denunciando a “poeira mortal” e apostando no delírio do caos (quase um mantra, até a perda do significado das palavras através da repetição).

Terceira Montanha (Brasil/EUA/França), de Tetsuya Maruyama, busca outra linguagem estética para o mesmo problema da ação mineradora. Ao contrário da narração ininterrupta de seu antecessor, prefere o silêncio diante de estímulos misteriosos, cujo significado se desvenda progressivamente. Aqui, a deterioração da película se associa ao caráter venenoso dos produtos químicos, tingindo a imagem de um amarelo radioativo — que representa o ouro, porém, numa intensidade artificial. Ao filtrar flores e campos com esta cor, demonstra o aspecto grotesco, mesmo terrível, dos agentes do capital.

É certo que o extenso curta-metragem talvez se perca entre tantos focos e desdobramentos. Na segunda metade, introduz uma performance pessoal do cineasta; um fragmento com minérios, em preto e branco; e um desfecho a respeito do turismo em zonas mineradoras. Cada um destes subtemas poderia render uma exploração em si própria, sem a necessidade de saltar de modo abrupto de uma à outra. Mesmo assim, a mise en scène demonstra plena confiança em sua abordagem, evitando facilitadores ou concessões ao gosto comum.

Cinzenta: Inventários da Chaminé (MG), de Natália Reis, talvez seja o filme mais forte desta sessão. A cineasta explora a vida ao redor de uma gigantesca chaminé em Santos Dumont. Ela investiga a maneira como a cidade se transformou deste esta intromissão, além do impacto exercido na vida privada dos habitantes (entre eles, seus familiares). Para isso, transforma a paisagem numa espécie de desenho em preto e branco. Utiliza, em primeiro lugar, uma narração sem som (via legendas), e, em seguida, os testemunhos em off comuns ao cinema documental.

O curta-metragem introduz uma crescente sensação de incômodo, próxima do suspense, do terror e mesmo da ficção científica — vide as intromissões finais, próximas de Contatos Imediatos de Terceiro Grau. Ao mesmo tempo, chacoalha as imagens, visando representar tal incômodo diante da imensa estrutura de concreto, ao lado de casas tão frágeis. Ao pensar o impacto econômico, físico e psicológico destas companhias, desenvolvendo muito bem sua estética inicial, a obra desperta profunda curiosidade quanto aos próximos passos da autora.

Por fim, o filme de Carlos Adriano talvez soe um pouco deslocado dos anteriores, por não abordar de maneira direta estas derivas do capitalismo de grandes corporações. Mesmo assim, Sem Título #11: Um Analecto à Mula parte do poema Rapsódia para uma Mula, do cubano José Lezama Lima, para refletir acerca da presença do animal em fluxos migratórios e cidades marcadas pelos minérios, como a própria Ouro Preto. Assim, costura-se a letra da canção Vermelho com as obras de Aleijadinho, a iconografia de mulas no cinema e o papel deste animal na Faixa de Gaza.

Por mais carinhosa e divertida que seja a investigação das imagens de mulas — explorando, até demais, os trechos de EO, de Jerzy Skolimowski —, talvez a obra salte de maneira repentina entre um valor inerente do animal, e seu emprego bastante específico na luta palestina. Os próprios letreiros a respeito de Ouro Preto e Aleijadinho resultam bastante explicativos – algo raro, em uma obra tão aberta à pluralidade de leituras. Mesmo assim, resta uma experiência leve, preferindo à colagem à intervenção na textura dos materiais de arquivo. Adriano demonstra sua admiração pelo escritor por meio da leitura integral, em off, do extenso poema escolhido.

A programação da 21ª CineOP é inteiramente gratuita, e segue até o dia 30 de junho.

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