O 15º Olhar de Cinema — Festival Internacional de Curitiba começou na noite de 4 de junho com a exibição da ficção científica Yellow Cake, de Tiago Melo. O filme, selecionado no Festival de Roterdã, aborda uma cientista brasileira (Rejane Faria) pesquisando o urânio em Picuí (PB), no intuito de encontrar uma resposta à dengue.
No entanto, os norte-americanos enxergam outro potencial para o elemento que, quando enriquecido, pode produzir uma bomba. Enquanto os grupos duelam, os habitantes possuem sua própria forma de resistência ao imperialismo, embora ainda sofram as consequências da exploração abusiva dos recursos naturais.
O Meio Amargo conversou com o cineasta e a atriz principal sobre o projeto:

Tiago, você já tinha uma pesquisa documental sobre o urânio em Picuí, mas o que te levou a pensar que o tema também pudesse virar um projeto de ficção científica?
Tiago Melo: Olha, eu nem sou um fã do gênero de ficção científica. Mas depois de todas as histórias de Picuí, eu vi que era impossível fazer esse filme sem passar pela ficção científica. Era ainda mais desafiador fazer um filme de ficção científica no sertão do Seridó, né? Então o filme foi se desenhando desta maneira, pelas circunstâncias.
Depois de todas as histórias de Picuí, eu vi que era impossível fazer esse filme sem passar pela ficção científica.
Nós não conhecemos muito do passado profissional e amoroso da Rúbia, que ainda é uma personagem misteriosa. Como você a enxerga?
Rejane Faria: No começo do filme, ela está numa verdadeira loucura. A Rúbia é muito racional e profissional. Ela comanda aquela equipe, já conhece cidade, e tenta entrar naquele lugar onde as pessoas não querem estrangeiros, nem gente de fora. Ao mesmo tempo, ela sente que existe um mistério ali, e se envolve com ele de certa forma.
Como ela tem uma relação amorosa com a proprietária do hotel, ela até comenta: “O povo dessa cidade é estranho, tem de tudo”. Rúbia começa a perceber que existe algo a mais naquele espaço, além da relação que constrói com eles. Os moradores são muito unidos, e não abrem mão dessa coletividade. Quando chega na hora da transição para aquele lugar extraordinário, a gente não sabe se aquilo existe de fato, ou não. Por isso começam os sonhos com a pintura rupestre, com aquele uniforme.
São muitos muitos elementos, e o filme passa de um momento para o outro numa transição muito líquida, muito sutil. Quando termina de ver o filme, o público fala: “O que aconteceu? Que horas que isso mudou?”. Então a narrativa leva a gente para esse lugar misterioso, sem uma ruptura. Ele pega o público por este aspecto, e todo mundo embarca junto.

Como se constrói, nas atuações, este limite constante entre o naturalismo do sertão e uma fantasia apocalíptica?
Rejane Faria: Para mim, a direção é tudo, porque o filme está na cabeça do Tiago. Por mais que ele me conte a história e eu me envolva nela, eu não tenho essas imagens. Mas ele sabe o que quer de cada plano, das atuações, e qual caminho a Rúbia precisa tomar. Então, ele foi me envolvendo aos poucos nessa história, porque o roteiro me assustou um pouquinho no começo. Fiquei pensando: “Como eu vou fazer isso? Como posso dar conta?”.
Mas a gente se preparou bem. Eu vivi aquele lugar antes de a gente começar a filmar.Tiago foi me apresentando cada ator e não-ator que ia trabalhar comigo. Fui conhecendo as individualidades, e me envolvendo com Picuí. Isso facilita muito a atuação, e me ajuda na mudança da segunda metade do filme. Eu contava com essa direção do Tiago a cada momento, porque não filmamos em ordem cronológica. Aos poucos, fui entendendo onde ele queria chegar, e como tudo aquilo se costurava.
Tiago foi me envolvendo aos poucos nessa história, porque o roteiro me assustou um pouquinho no começo. Fiquei pensando: “Como eu vou fazer isso? Como posso dar conta?”.
A estética também combina a fisicalidade do lugar com as cores fortes, a textura marcante da imagem, os efeitos visuais ostensivos. Como chegou a estas escolhas?
Tiago Melo: Tanto a parte sonora quanto o design de som trazem este aspecto mais sensorial. O som é muito importante para envolver a gente dentro da sala de cinema. A parte visual e os efeitos visuais exigiram um grande trabalho com os fotógrafos, o Gustavo Pessoa e Ivo Lopes Araújo, além da Samanta, colorista do filme. Então a gente foi chegando nesta imagem, transformando ela até chegar nessa cor. O filme foi construído a muitas mãos, desde o roteiro até a montagem do André Sampaio, que fez essa costura toda. Mas a parte da cor foi pintura pura.
Deixa eu contar uma coisa interessante: eu passei um tempo no Acre durante as queimadas. Por causa da fumaça, ficou um mês sem aparecer o céu azul em Rio Branco. Parecia um estúdio, como se tivesse um butterfly gigante no céu. Percebi como era assustador não ver o azul do céu, só a fumaça, e entendi que aquilo, para mim, era o apocalipse também. Então a segunda parte do filme traz essa sensação. Foi uma referência direta, com aquele céu amarelo. Puxamos estes elementos, tanto na imagem quanto no som, para criar um aspecto sensorial.

O projeto surgiu antes da pandemia, se modificou durante a paralisação, e enfrentou um governo negacionista. Como enxergam este momento do Brasil, quando o filme chega ao público?
Tiago Melo: Quando esse filme começou a ser pensado, existia o personagem de um presidente militar, autoritário e negacionista. Isso foi muito antes do golpe na Dilma! Então veio o Temer e eu pensei que ele era o personagem do filme. Aí veio o Bolsonaro, e eu disse: “Conseguiu ficar pior do que o que eu tinha pensado”. A pandemia mudou o filme também, porque a gente teve que reorganizar muitas coisas. Filmamos na última eleição presidencial, e agora, estamos em época eleitoral de novo, justamente na reeleição.
O que fica de tudo isso é o tema da soberania, porque existe a riqueza natural brasileira, e também a riqueza da nossa soberania. Quantas e quantas vezes a gente já foi cobaia dos Estados Unidos, né? Assim como vários países da África são cobaias de várias experiências. Todo tema nuclear passou por países-cobaias, e o Brasil foi um deles. Então, o que fica no debate para hoje é a soberania brasileira. A gente perde muito quando o Brasil não aposta nos seus cientistas, nos seus artistas, e nos brasileiros mesmo. Então a questão das interferências estrangeiras no nosso país é uma ameaça muito forte. O comportamento do governo americano em relação ao nosso país é muito perigoso, e o filme pode ser um alerta para que a gente seja mais resistente, mais atuante, no sentido de nos prevenir.
A gente perde muito quando o Brasil não aposta nos seus cientistas, nos seus artistas, e nos brasileiros mesmo. Então a questão das interferências estrangeiras no nosso país é uma ameaça muito forte.
É bonito que o símbolo da resistência brasileira, e da ciência brasileira, seja uma mulher negra.
Rejane Faria: Isso é sinal de muitas reflexões, e de uma tentativa de mudança de comportamento. Rúbia é uma mulher negra, LGBT, intelectualizada, e respeitada dentro do país dela. Na história anterior dela, a Rúbia morou nos Estados Unidos e foi convidada pelo governo brasileiro para coordenar essa comissão. Mas fica a dúvida: ela foi convidada por ser o estereótipo de uma mulher, que não precisa ser respeitada, ou porque ela é incrível, e queremos ela aqui, fazendo esse trabalho? Isso é algo para as pessoas pensarem a respeito.



