Golpe Explosivo (2025)

Há vida inteligente na ação

título original (ano)
Fuze (2025)
país
Reino Unido
gênero
Ação, Policial
duração
98 minutos
direção
David Mackenzie
elenco
Aaron Taylor-Johnson, Theo James, Gugu Mbtha-Raw, Sam Worthington, Elham Ehsas, Honor Swinton Byrne, Alexander Arnold, Shaun Mason, Nabil Elouahabi
visto em
Cinemas

Quando os críticos de cinema reclamam de clichês nos filmes de ação (o caráter explicativo, o heroísmo idealizado dos protagonistas, o maniqueísmo, a rendição à linguagem da Internet), os defensores contestam que, apesar dos protestos, é isso que funciona. Estas produções seriam divertidas graças a esses códigos, que continuam em voga devido a uma espécie de darwinismo cinematográfico — sua sobrevivência constituiria prova de seu sucesso. Caso os criadores retirassem estes elementos de cena, prejudicariam o prazer do espectador com uma obra entediante.

Por este motivo, a iniciativa bem filmada, divertida e tensa de Golpe Explosivo constitui um alívio. Ela comprova a capacidade de efetuar uso inteligente da ação sem recorrer aos recursos simplificadores da indústria. Mesmo assim, o título brasileiro parecia apontar à criação mais genérica do mundo (o original, Fuze, não se sai muito melhor nesta tarefa). Os cartazes e trailers não conseguem destacar uma única originalidade do projeto do diretor David Mackenzie — pelo contrário, aparentam buscar precisamente esta sensação de familiaridade diante dos tiros e explosões vistos centenas de vezes anteriormente por qualquer cinéfilo médio.

Mackenzie aposta que seu público não precisa ser passivamente entretido. O resultado funciona tão bem por causa da maestria do diretor, do fotógrafo, do montador, e também do elenco.

Em contrapartida, o começo prenuncia uma qualidade excepcional. De maneira sucinta e veloz, apresentam-se os personagens centrais, a bomba em um canteiro de obras, e a necessidade de evacuar os cidadãos no bairro ao redor. A imagem parte de um drone, dos céus até a construção, focando-se no rosto de um operador de escavadeira que, por escutar música alta, nem mesmo percebe aquilo que está prestes a detonar. Nenhuma música estrondosa toma conta da banda sonora. Não há pessoas desesperadas, mães com seus bebês no carrinho, muito menos heróis valentes para salvar os pobres passantes em perigo. Cada profissional convocado cumpre de imediato com sua respectiva função, diante de uma crise para a qual foram treinados.

A narrativa impressiona tanto pelas escolhas efetuadas quanto pelas armadilhas evitadas. Mackenzie dispensa os recursos didáticos. Abre mão dos narradores em off apresentando os personagens e conflitos, assim como dos letreiros mencionando datas e países. Jamais explica os planos antes que se concretizem: quando um grupo de assaltantes parte para a ação no banco local, descobrimos suas intenções conforme se materializam em imagens e sons. Por causa da estrutura coral, sem protagonista definido, saltamos entre diferentes núcleos (os ladrões, os policiais, o esquadrão anti-bombas, a família árabe) sem saber ao certo por quem torcer, e o que cada um deles desejaria — uma raridade dentro de uma produção de estúdio.

Melhor ainda, qualquer moralismo será rejeitado pelo longa-metragem. O discurso nem insiste na coragem das forças da lei contra malfeitores, nem celebra a malandragem dos habilidosos assaltantes. Observa a todos de igual para igual, oferecendo a cada um tempo de tela equivalente, avesso à vilania ou à virtude ilibada. A trilha sonora segue discreta, enquanto a montagem permite planos mais longos e contemplativos do que a vasta maioria de exemplares do gênero. Mesmo assim, a tensão se mantém com eficácia, da primeira à última cena. Aparentemente, não é preciso se assemelhar a um Reels ou vídeo do TikTok para proporcionar uma experiência dinâmica ao espectador.

Ao mesmo tempo, o cineasta foge ao psicologismo. Sugere, por alto, um trauma relacionado ao passado de Will (Aaron Taylor-Johnson) que, entretanto, nunca serve a convertê-lo em vítima, nem em mártir de uma causa. De resto, os personagens jamais serão vistos fora do âmbito do trabalho, e da ação específica visando desarmar uma estranha bomba enquanto ladrões roubam o banco. Em geral, o esvaziamento de motivações implica num caráter robótico dos personagens. Aqui, apenas insinua um mistério, graças à tendência a humanizar estas figuras ambíguas. Até o final, ainda duvidamos da coragem de um ou da generosidade de outra. Por esta razão, as velozes reviravoltas do terço final não surpreendem — o roteiro já preparava o caminho para o esclarecimento eventual dos objetivos obscuros a princípio. Ele somente ocultava estas informações valiosas em nome da tensão — deslocando, inclusive, o tradicional prólogo para a cena final.

Aos atores, cabe a responsabilidade de oferecer um corpo presente, renunciando tanto à antecipação de seus próximos passos quanto a qualquer forma de sentimentalismo. Assim, o projeto surpreende não somente pelas inúmeras guinadas da trama, mas, em especial, pela maneira como esta jornada sinuosa se apresenta ao espectador. Raramente encontramos uma conclusão tão alegremente amoral (não confundir com imoral) quanto esta. Além disso, poucos criadores apostam em sons baixos, no valor do silêncio, nas desconfianças e descobertas entre personagens pelo simples olhar. Sam Worthington, Theo James e Elham Ehsas ganham valiosas oportunidades de insinuar pensamentos e conflitos por mínimas variações na expressão facial. Quantos filmes de ação apostam em tamanha sutileza?

Dentro de uma seara particularmente fraca para o gênero, as qualidades de Golpe Explosivo soam ainda mais impressionantes. O pouco memorável Ladrões, de Darren Aronofsky, o moralista O Jogo do Predador, de Baltasar Kormákur, e o constrangedor Na Zona Cinzenta, de Guy Ritchie, não despertavam otimismo quanto às próximas viagens pelo gênero. O cinema sempre parecia, nestes casos, se acomodar à linguagem do home video, à narratividade mas-ti-ga-da, pressupondo um espectador distraído, com o celular na mão. O apelo aos recursos do cinema-espetáculo parecia inevitável. Deste modo, estes filmes nunca apostavam na inteligência do espectador, nem em sua capacidade de dedução. Já Mackenzie aposta que seu público não precisa ser passivamente entretido — ele também pode integrar o xadrez de poderes e estratégias. Até a luz natural, pouco recortada ou colorida por parte da fotografia, privilegia uma perseguição crua, direta, naturalista.

Certo, alguns elementos ainda destoam em meio à polida maquinaria — caso de um caderninho com artigos de jornal colados, servindo de justificativa conveniente e prática até demais a algumas reviravoltas. Entretanto, esta é a exceção que constitui a regra. O longa-metragem sugere aflição a partir de uma rua totalmente vazia (evacuada após a ameaça de bomba); mistério em virtude da insistência na família árabe (qual papel eles teriam a seguir?); traição devido aos olhares pouco amistosos entre os personagens de Sam Worthington e Theo James. Ainda inclui, de maneira orgânica, atores de diferentes etnias e nacionalidades, em paralelo a coadjuvantes com deficiência. O resultado funciona tão bem por causa da maestria do diretor, do fotógrafo, do montador, e também do elenco, que compreende a necessidade de fazer menos, trabalhando subentendidos. Funciona por acreditar na linguagem do cinema, dispensando a tentação de rebaixar o nível da obra em nome de uma comunicação pretensamente mais ampla com o espectador médio.

Golpe Explosivo (2025)
9
Nota 9/10

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