
Filhos de pais monstruosos são mais propensos a se tornarem monstros? Esta pergunta soa essencial em Dolly: A Boneca Maldita. Pela chave da psicologia, seria possível discutir os efeitos traumáticos de uma criação negligente ou abusiva. Ora, o longa-metragem dirigido por Rod Blackhurst, a partir de um roteiro co-escrito pelo cineasta com Brandon Weavil, efetua uma relação determinista de causa e efeito. Para eles, a vilã desta história somente captura e mata pessoas por ter sido fruto de violência paterna, e experimentado a morte da mãe — ela mesma, fruto de traumas de infância.
Por isso, Dolly (Max the Impaler, profissional não-binária de luta livre) constitui uma adversária particular. Manifesta força sobre-humana, sendo capaz de erguer homens musculosos nos ares. Possui seios fartos e repletos de leite, para amamentar seus filhos postiços. Mesmo assim, comporta-se tal qual um misto de bebê e criança pequena. A criatura não fala, a exemplo de um Frankenstein, e veste uma pesada máscara de porcelana — não as máscaras habituais de couro ou plástico, mas uma carcaça que lhe parece definitivamente colada ao rosto. Bruta e controladora, ela encarna, simultaneamente, o pai, a mãe e a filha. Cuida tanto quanto maltrata; e oferece afeto à sua maneira, enquanto tortura a prole.
Dolly não é nem inteiramente boneca, nem completamente humana; nem adulta, nem criança; nem mulher, nem homem. O fato de navegar entre tantas categorias a eleva ao patamar do grotesco.
Frente à representação do mal, há Macy (Fabienne Therese), outra figura atormentada pelo perspectiva de uma família. Afinal, ela namora um rapaz gentil (Seann William Scott), possui um bom relacionamento com a filha dele, de um relacionamento anterior, e pressente um pedido iminente de casamento. Entretanto, ainda não se sente segura para o próximo passo: a conversão imediata em esposa e mãe. A provações representadas pela boneca maldita a forçam a avaliar seu amor por Chase, e o quanto estaria disposta a se sacrificar por ele. (O amor, aqui, equivale a dor).
Logo, uma vez machucada, Macy extrai forças para sobreviver graças à perspectiva de, enfim, se casar com o noivo. Mesmo severamente atacado na boca, Chase encontra uma forma de gritar pela mulher que ama. Apesar de detectar o comportamento agressivo de sua captura, Dolly lhe oferece o peito — prontamente mordido por ela. Uma vez solta, uma quarta figura da trama se apressa em reproduzir aos algozes todo o sofrimento experimentado, enquanto forma de vingança. Para o espectador, pode ser difícil saber exatamente com quem se identificar, posto que a sanguinolenta Dolly também é vítima de sua criação, e uma pessoa em cativeiro possuía comportamento detestável. Os personagens devoram uns aos outros diante dos nossos olhos.
O estranhamento do projeto decorre de diversos fatores. Ao invés de iniciar a trama atestando a brutalidade da adversária, como de costume nos roteiros de terror, o autor prefere uma introdução express no relacionamento entre Macy e Chase, que se deparam com a boneca-humana em questão de minutos. Em consequência, a divisão da sucinta trama em sete capítulos desperta questionamentos quanto a esta segmentação artificial, que nunca realmente organiza a trama. Em paralelo, a filmagem em 16mm provoca uma textura granulada, “suja”, que nos envia ao imaginário dos anos 1970 ou 1980. Afinal, quando se passa a trama? Isso importaria de fato para a nossa compreensão? Ou a perversidade genética seria atemporal?
A obra toma um rumo inesperado quando troca o terror verossímil (digno de crença) por uma fantasia do absurdo. Os ataques de Dolly soam plausíveis num primeiro momento, em contrapartida, o ferimento da boca aberta em Chase, e um gigantesco buraco atravessando o peito não o são. Para além do medo, o cineasta se esforça em provocar repulsa, nojo, além de um sentimento de incompreensão: afinal, o que estamos vendo de fato? Trata-se de um terror que se leva a sério, ou uma paródia deste mesmo terror? Uma monstruosidade natural àquele ambiente, ou uma colagem pop visando homenagear distintos slashers dos anos 1970? A própria natureza de Dolly nos convida a tal terror cognitivo, como diria Noël Carroll: ela não é nem inteiramente boneca, nem completamente humana; nem adulta, nem criança; nem mulher, nem homem. O fato de navegar entre tantas categorias a eleva ao patamar do grotesco.
A maneira como a perseguição é filmada expande o sentimento de um horror inclassificável. Macy é definida a priori enquanto protagonista absoluta, apenas para ser abandonada minutos depois, quando a câmera acompanha o embate entre Dolly e Chase. Numa fuga pela floresta, a imagem ora segue a correria através de uma câmera objetiva, ora mostra-a de frente, prendendo o dispositivo ao corpo da atriz, e depois, segue-a por trás. Isso desperta a sensação de que o perigo se encontra por todos os lados — algo reforçado pela capacidade da boneca em alcançá-la após uma caminhada tranquila, embora a heroína corra a toda velocidade. Aqui, os mortos teimar em se levantar e continuar atacando, razão pela qual a noiva indesejada, e mãe involuntária, precisa continuar fugindo.
O resultado parece ter incomodado diversos críticos e espectadores por seu senso de indefinição. Ele ostenta certo ridículo (a boca aberta, novamente) que nunca convida ao riso — como se alguém dissesse algo completamente estúpido com inabalável convicção. Nunca se assume plenamente enquanto nostalgia dos clássicos, embora tampouco aproveite as ferramentas do terror contemporâneo. Convida ao pavor, mas também à piedade por Dolly. Deseja suscitar uma descrença na família enquanto instituição, apenas para sugerir que os sobreviventes serão aqueles reconectados com a ideia de uma família patriarcal.


Trata-se de uma obra contraditória, e possivelmente consciente disso. Pelo menos, ela guarda por meio destes desencontros um senso de mistério. Ao contrário de tantas obras obcecadas em se esclarecer (ou seja, jogar luz ao dilema e retirá-lo das trevas), Dolly: A Boneca Maldita ainda deixa, ao final, lacunas, incompreensões e ambiguidades ao espectador. O andamento da narrativa não a desvenda — pelo contrário, parece complicá-la. O caráter possivelmente hermético deste agencimento joga a seu favor, no sentido de preservar após a sessão um sentimento de enigma — o sentido precisa se completar junto ao espectador, posto que não se esclarece sozinho.
Assim, pode-se falar de um terror com muito a mostrar, muito a provocar, mas pouco a dizer, no sentido de uma mensagem acerca de seus personagens e da conduta dos mesmos. Tal escolha, num tempo de julgamentos sumários e polarizações ideológicas, soa como uma afronta ao espectador. Blackhurst liberta pelas florestas uma perversidade que não pretende conter, nem explicar. Ele conta, assim, com um posicionamento ativo do espectador, a quem se convida a ir em direção à obra, criando suas próprias hipóteses. De certo modo, quando a aventura acaba, ela aparentava apenas começar — como se a obra fornecesse a história de origem de uma nova vilã. A jornada de Dolly não se conclui, porque este nunca teria sido o seu propósito de fato. Os sete capítulos, vejam só, constituíam mero prólogo.




