Vidas Entrelaçadas (2025)

O fantasma da moda

título original (ano)
Couture (2025)
país
França, EUA
gênero
Drama
duração
106 minutos
direção
Alice Winocour
elenco
Angelina Jolie, Ella Rumpf, Anyier Anei, Louis Garrel, Vincent Lindon, Garance Marillier, Grégoire Colin, Finnegan Oldfield
visto em
Cinemas

Neste projeto, as aparências enganam. A ambientação no mundo da moda poderia sugerir um enésimo filme a respeito deste universo impiedoso, agitado e competitivo da alta costura em Paris. Afinal, Vidas Entrelaçadas cria um mosaico de diferentes profissões relacionadas ao desfile: uma modelo iniciante, a maquiadora contratada de última hora, e uma cineasta contratada para criar o vídeo exibido durante o desfile. No entanto, surpreendentemente, a diretora Alice Winocour aposta numa atmosfera de melancolia. Os poucos dias em que acompanhamos estas e outras personagens sustentam a aparência de sonhos, ou meros parênteses em suas vidas cotidianas.

Isso se deve ao fato de que, apesar de serem apresentadas por profissões, nenhuma das mulheres desempenha a função para a qual foi contratada. Maxine (Angelina Jolie), encarregada do desenvolvimento do vídeo de terror, deixa a direção aos colegas de equipe enquanto vai ao médico. Ela nem mesmo aparenta coordenar a equipe antes ou depois desta escapada. Nunca compreendemos o que o cinema de horror representa para a norte-americana etérea, letárgica, um tanto ausente. Ada (Anyier Anei) nunca desfilou na vida, e acaba de ser descoberta por um casting em vídeo. Ela nem mesmo sabe andar de salto alto. Mesmo assim, chega em Paris poucos dias antes de ser encarregada de abrir o importante evento. Já Angèle (Ella Rumpf) dá duas curtas pinceladas num rosto, e mais algumas nos dedos do pé da modelo, antes de voltar a uma ligação telefônica.

Vidas Entrelaçadas transparece certo ar blasé, indiferente. A moda é dispensável a este filme sobre o mundo da moda.

É difícil acreditar neste cenário vendido ao espectador enquanto competitivo e frenético, posto que as mulheres perambulam tais quais fantasmas, preocupadas com seus próprios dilemas, absortas pelo espírito da cidade. Pobre Garance Marillier, talentosa atriz, interpretando uma costureira cuja única atividade, espalhada durante 106 minutos de narrativa, consiste na confecção de um vestido. Ela também serve de metáfora aos problemas de saúde: assim que Maxine descobre seu câncer gravíssimo no seio, a jovem costureira pica o dedo na agulha, transparecendo a gota de sangue diante do fundo branco dos tecidos. (Existe metáfora mais desgastada do que o corte doméstico acidental como sinal de perigo?).

Devido à presença de alguns dos maiores nomes do cinema francês, compreende-se que Couture (no original) visava se tornar uma produção de grande porte. Vincent Lindon encarna um médico pragmático e desprovido de tato com os pacientes; Louis Garrel interpreta o colega de equipe e amante acidental; Grégoire Colin vive o diretor riquíssimo, que aloca recursos consideráveis à produção do vídeo, porém, nunca supervisiona de perto a concretização do mesmo. Já Finnegan Oldfield possui uma única cena, na função de jornalista. A maioria dos produtores teria sonhado com um elenco deste porte — sem falar na presença de Angelina Jolie, comunicando-se num francês bastante competente.

Entretanto, estes personagens soam jogados, dispensáveis à narrativa aparentemente dedicada às suas vidas. Embora o título brasileiro destaque os laços entre estas mulheres, e o título original também aposte nestas “costuras”, as histórias raramente se atravessam. As mulheres mal conhecem uma à outra, ou se ajudam de maneira determinante. Levam vidas paralelas, preocupadas demais com os próprios conflitos para formarem qualquer amizade com as demais. Citações esparsas a respeito da guerra na Ucrânia, a guerra no Sudão do Sul e o divórcio de Maxine nos Estados Unidos resultam em notas de rodapé, incapazes de contamina a trama ou de se converterem em temas reais de discussão.

Logo, Vidas Entrelaçadas transparece certo ar blasé, indiferente. A diretora jamais aparenta se importar com os acontecimentos em tela. Afinal, Maxine não demonstra interesse em seu próprio vídeo; Ada nem mesmo sonha em ser modelo; Angèle prefere se tornar escritora. A direção aborda a moda pelo olhar de por quem não gosta dela, mergulhando neste universo como quem aceita um pequeno trabalho temporário, a contragosto. Mesmo a chegada providencial de uma chuva destruidora resolve tudo e nada ao mesmo tempo, nesta trama de tão poucos conflitos verossímeis: a modelo segue andando, a cineasta foge (alguém havia notado sua presença?), a maquiadora havia partido. Ora, o que Winocour teria a dizer a respeito deste ofício repleto de regras, com o qual claramente não se identifica?

Talvez este seja o principal incômodo diante do longa-metragem: a ausência de um ponto de vista, de um discurso articulado a respeito de seus personagens e temas. O filme evita expressar algum pensamento estruturado a respeito da vivência em meio à alta costura — seja por sua dificuldade, pelo ritmo de trabalho, pelas amizades, pelos padrões de beleza impostos às mulheres, etc. A moda é dispensável a este filme sobre o mundo da moda. Ele tampouco sugere alguma essência capaz de unir todas estas mulheres, ou escancarar suas diferenças de origem, classe e raça. O roteiro se assemelha ao livro que Angèle pretende escrever, simplesmente contando histórias de personagens perambulando pelos bastidores do desfile, pelo prazer de fazê-lo — sem a pressão de expressar algo a respeito.

Falta visceralidade na direção de fotografia, após os ateliês brancos tais quais consultórios médicos; e diante de um vendaval filmado como um ensaio fotográfico chique. Os vídeos de terror de Maxine sugeriam sangue e gritos ao final. Nada disso será representado em tela. A referência a lobos e mulheres de capas obviamente nos levam aos violentos contos de fada, tampouco explorados aqui. Nenhuma destas referências importa às protagonistas, nem à diretora. Winocour se concentra num período de passagem, que dificilmente deixará qualquer vestígio nestas figuras transitórias, ocupadas demais com suas jornadas pessoais. Elas se assemelham à filha adolescente de Maxine, inexplicavelmente perdida no meio da cidade, até virar a primeira rua e se encontrar novamente. 

No final, alguém se recordará de qualquer dilema ou dor do trio central; de qualquer emoção marcante, ou escolha notável de linguagem cinematográfica? O resultado soa tão correto quanto pouco ousado, e pouco memorável. Pode-se salientar as rimas da trama com as vivências reais das atrizes: Angelina Jolie passou por uma mastectomia, a exemplo de sua personagem; Anyier Anei também deixou o Sudão do Sul em busca da experiência como modelo. Ora, trata-se de curiosidades extrafílmicas, passíveis de interesse, no entanto, sua força ou intimidade não se transmite ao resultado final. O filme atravessa seu tema e suas protagonistas como quem escuta uma história relatada por terceiros — com uma atenção educada, porém, sem interesse verdadeiro. Terminada a conversa, estas figuras terão desaparecido da memória.

Vidas Entrelaçadas (2025)
5
Nota 5/10

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