O Estrangeiro (2025)

O homem sem desejo

título original (ano)
L’Étranger (2025)
país
França
gênero
Drama
duração
122 minutos
direção
François Ozon
elenco
Benjamin Voisin, Rebecca Marder, Pierre Lottin, Denis Lavant, Swann Arlaud, Mireille Perrier
visto em
Cinemas

Como nos comportar diante de um personagem cujas ações desaprovamos — ou, pior ainda, não compreendemos? Por onde passa a identificação com o espectador, quando o herói se comporta de maneira errática, improvável, desinteressada? Deveríamos torcer por ele, condená-lo, ou então permanecer à distância de todos os conflitos? O Estrangeiro desperta tais questionamentos. Este já era o caso da obra literária de Camus, e se preserva na versão cinematográfica, sob comando do cineasta François Ozon. No centro da trama encontra-se este estranho homem, condenado à morte por não chorar no enterro da própria mãe.

Claramente, há uma complexa construção prévia conduzindo a esta tragédia. Meursault (Benjamin Voisin) é um funcionário público sem primeiro nome, e sem ambições. Trabalha de maneira eficaz, porém, sem paixão — nem para aprovar, nem para detestar o ofício. Mantém um relacionamento protocolar com Marie (Rebecca Marder), desprovido e qualquer apego real. “Você me ama?”, ela pergunta, ao que o rapaz responde: “Isso não significa nada. Acho que não”. Ele recebe uma carta comunicando a morte da mãe em um asilo distante, porém, não se abala. Cumpre os rituais funerários esperados (velório, enterro, cumprimentos) com certa aparência de tédio no olhar. Aparenta não possuir nenhum vínculo afetivo (positivo ou negativo) em relação à falecida.

Parece absurdo que um sujeito seja tão indiferente. Ao mesmo tempo, soa verossímil que algo do tipo aconteça. As violências, não por acaso, destinam-se a mulheres e homens pobres, não-brancos.

Por isso, aceita participar de uma provocação machista do vizinho Raymond (Pierre Lottin), culminando num grave ato de violência contra a amante deste. Depois de uma briga na praia, saca a arma alheia e atira diversas vezes em direção a um jovem árabe. É preso, julgado, condenado. Nada disso faz com que o sangue lhe corra pelas veias: nem a presumida vontade de viver, nem a provável chance de morrer. “Todas as vidas são boas. Aqui não me desagrada”. A frase diz respeito tanto à região onde mora, quanto à prisão onde permanecerá mais tarde, entre ratos e baratas. A religião o persegue dentro da cela, detectando culpa e oferecendo redenção. Entretanto, o sacerdote procura o homem errado para esta jornada de cunho moral.

Isso porque O Estrangeiro consiste numa obra amarga, niilista, mesmo cínica. Ozon preserva a decisão de retirar o pathos de uma premissa fundamentalmente escandalosa, repleta de crimes de gênero (o ataque à prostituta) e raça (“Eu matei um árabe”, ele declara, na prisão, aos colegas majoritariamente árabes). O crime se mistura a tensões geracionais, religiosas, culturais. Meursault representa um homem sem desejo (no sentido de ambição, vontade), ainda que possua pulsões (o sexo com Marie, o ímpeto de atirar contra o desconhecido). O homem age de maneira maquínica, irrefletida, e jamais expressa remorso. Como os psicólogos avaliariam tal atitude?

As escolhas mais interessantes, neste caso, residem na estética destinada a representar a indiferença. O cinema está repleto de ferramentas para valorizar os sentimentos, aprofundar as emoções, e provocar uma imersão do espectador via estímulos visuais e sonoros. Em contrapartida, como produzir o efeito contrário — a apatia, o distanciamento? Ozon e o diretor de fotografia Manuel Dacosse escolhem um preto e branco de baixo contraste, ou seja, mais acinzentado — não há brancos profundos, nem pretos profundos aqui. Em contrapartida, sob a forte luz do sol de Argel, alguns tons parecem discretamente coloridos, como se houvesse pequenas manchas rosadas, ou azuladas, em tom pastel, tingindo esta percepção de mundo. Uma atmosfera de sonho, ou de delírio, contamina o percurso do anti-herói.

Durante a maior parte da narrativa, o cineasta evita a transposição literária da escrita original. Embora preserve os fatos, de maneira bastante fiel e linear, evita colocar na boca do personagem, em forma de diálogos ou narração, o texto do livro. Em contrapartida, passada a cena de morte, a linguagem permite suas primeiras subversões. Entram em cena enquadramentos em plongée e contraplongée, distorções éticas relacionadas ao calor da praia, a tensão homoerótica com o alvo e uma divagação interna, em off, elaborando a percepção do assassino após o ato. Ainda que, por fora, demonstre-se impassível, o protagonista carrega reflexões internas, mesmo que desprovidas de moralidade. Nota-se o esforço em humanizá-lo, o que não equivale a desculpá-lo. O longa-metragem deseja se afastar tanto das acusações virulentas e sumárias dos cidadãos, quanto da tendência a atenuar os malfeitos de protagonistas de moral duvidosa, ou mesmo romantizá-los.

O resultado é um filme frio — ou seria um filme a respeito da frieza? Talvez não represente a experiência mais prazeirosa, nem divertida possível, ao espectador. Luta precisamente contra o pressuposto de um cinema de diversão, escapismo, relaxamento. Opta por um tensionamento entre imagens plácidas e ações graves, ou ainda, entre a conduta morosa e o universo de perseguições, racismo e feminicídio. É tão desconfortável presenciar Meursault apático diante do cadáver da mãe quanto vê-lo agredindo um padre, na única cena em que expressa alguma emoção (com tamanha intensidade que aparenta contradizer tudo o que vinha construindo até então). 

Publicado em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, o romance parece se conectar com nossa geração de isenção e desprendimento em relação ao real. Os fatos não nos chocam mais, assim como as falas hediondas de um presidente da maior potência do mundo não geram indignação. As coisas são assim mesmo, todo mundo diz ou faz o que bem entende. Nada muda de fato. Passamos por tal descrença nas transformações sociais (via política, cultura, ou qualquer outro agenciamento coletivo) que os horrores se tornam equivalentes, intercambiáveis, esquecíveis. Há uma guerra no Irã; houve (nova) tentativa de golpe de Estado no Brasil, prevendo o assassinato do presidente, do vice-presidente e de um ministro do STF. E daí? É melhor perdoar a todos em nome da pacificação, correto?

O Estrangeiro incomoda tanto pelas (in)ações de Meursault quanto por sua plausibilidade. Parece absurdo que um sujeito seja tão blasé, ausente, despossuído. Ao mesmo tempo, soa profundamente verossímil que algo do tipo aconteça. As violências, não por acaso, destinam-se a mulheres e homens pobres, não-brancos. No fundo, Camus e Ozon discutem uma sociedade doente, porém, incapaz de se perceber como tal. Procuram certa estética da normalidade, da neutralidade. As instituições estão funcionando normalmente. Mesmo condenado a morte, Meursault aceita se casar com Marie quanto sair de lá. Há um aspecto de desconexão com real, de delírio e desilusão. Tornamo-nos alheios ao mundo que nos cerca, e este diagnóstico constitui a matéria do perturbador longa-metragem.

O Estrangeiro (2025)
8
Nota 8/10

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