
Há dois filmes muito diferentes dentro de Mãe e Filho. O primeiro deles se concentra nos 45 minutos iniciais do drama iraniano. Trata-se de um trecho naturalista, voltado ao cotidiano da mãe solo Mahnaz (Parinaz Izadyar) e seu filho adolescente Aliyar (Sinan Mohebi). Ela trabalha como enfermeira, e conta com a ajuda da irmã e da mãe idosa para cuidar do garoto, desde que se tornou viúva. Aluno agressivo e instável, o menino motiva incontáveis visitas à escola, além de ameaças de expulsão. Ao invés de repreendê-lo, a mãe minimiza a conduta do mesmo, atacando os professores e diretores da instituição, que, na sua opinião, deveriam controlá-lo melhor.
Este é o primeiro sinal de que nossa heroína possa ser moralmente ambígua. Ao contrário da mãe coragem habitual, sacrificando-se para o cuidado do garoto gentil, ela possui seus excessos, seus desvios da norma, suas negligências. O diretor Saeed Roustaee jamais a julga, preferindo observar onde o comportamento de ambos pode levá-los. Compreende a rebeldia de um (em virtude do luto pelo pai) e a conduta um tanto desleixada da outra (em decorrência da sobrecarga de funções enquanto mãe, filha e funcionária). Estamos longe das idealizações — seja de uma manifestação exemplar, seja de vilanias de qualquer espécie.
Um drama mais complexo do que o mero convite à piedade. Embora os personagens chorem muito, o público nunca é solicitado a fazer o mesmo.
Neste momento, o longa-metragem se concentra no dia a dia de um núcleo de classe média, inteiramente comandado por mulheres. Não por acaso, a obra se inicia com um grupo feminino, numa clínica estética, efetuando um procedimento na pele. Aqui, são elas que comandam o lar, gerenciam as finanças, lideram suas alas no hospital, e decidem suas vidas afetivas. Mahnaz é pressionada pelo noivo Hamid (Payman Maadi) a se casar mais uma vez, embora rejeite a proposta inicialmente. A única concessão ao desejo do outro (ou seja, uma permissividade à autoridade, às normas, ao patriarcado) desencadeia toda a sua tragédia. Abre-se a caixa de Pandora de uma única vez e, no mesmo dia em que Hamid a rejeita (porque se descobre apaixonado pela irmã mais nova dela, Mehri), o filho sofre um trágico acidente.
Mãe e Filho entra, portanto, em seu segundo segmento: o melodrama. Antes, impressionava o controle da subjetividade média, desprovida de conflitos graves. Algumas falas antecipavam a reviravolta (o filho declara que morreria pela mãe, se necessário), no entanto, o teor dos acontecimentos (envolvendo sangue, gritaria, desmaio) surpreende o espectador que acompanhava uma rotina equilibrada. No momento em que as regras do jogo se modificam, elas adentram outro registro, passando da razão à emoção; de um dia banal ao dia em que tudo mudou. O cineasta passa a analisar a reação da mulher a partir do momento em que perde, simultaneamente, a estabilidade familiar, afetiva e materna.
Por este motivo, muitas vozes de críticos e espectadores se voltaram contra o projeto, taxando-o de perverso e explorador. Acusaram o cineasta de infligir à mulher o máximo de dor possível, pelo bel prazer de fazê-lo. De fato, o acúmulo de acontecimentos foge ao realismo, porém, o discurso assume plenamente sua incursão num terreno fabular. Ele nunca pretende representar a vida média da mulher iraniana, nem sugerir que tais fatalidades ocorrem de costume, a quaisquer cidadãos do país. Saímos da vivência ordinária para o mergulho no âmbito excepcional, com um foco bastante específico nos limites éticos e morais da mãe, por quem o roteiro nos convidava, até então, a nutrir bastante empatia.
Ora, a partir deste instante, Mahnaz busca justiça, mas também vingança. Ela trata mal os seus algozes, e também aqueles que a ajudaram durante o sofrimento. Faz exigências justificáveis de reparação, além de outras, bastante questionáveis. Procura culpados, sejam eles de fato associados aos acontecimentos, ou meramente relacionados de forma indireta. Até onde nós, enquanto espectadores, nos identificamos com ela? Torcemos pelo sucesso desta mãe ferida? Qual gesto será aquele em excesso, capaz de nos fazer pensar que talvez ela esteja indo longe demais? Roustaee nos convida à plena adesão a princípio, somente para, a seguir, questionar os limites deste pacto com o público. As feridas de mãe justificam as ilegalidades cometidas em nome do trauma?
Logo, o terreno construído aqui se mostra muito mais complexo do que o mero convite à piedade. Embora os personagens chorem muito, o público nunca é solicitado a fazer o mesmo. A protagonista jamais se converte em vítima, pelo contrário. Em sua jornada alucinada e irrefletida, prejudica aos outros tanto quanto prejudica a si mesma. As conclusões deste processo, inclusive, se mostram de uma coragem inesperada, capaz de transformar a mãe sofrida numa personagem claramente amarga e culpável (vide a cena envolvendo o ex-sogro). Mesmo que todos os homens sejam cruéis e manipuladores, as mulheres jamais sucumbem a esta opressão, reagindo de maneira mais ou menos institucional e, às vezes, voltando-se umas contra as outras.
A inversão do tabuleiro se reveste de uma sofisticação estética incomum ao melodrama explorador. Em outras palavras, não basta a música lacrimosa, o close-up no rosto comovido, nem as reações epidérmicas captadas ao vivo, para um espectador cúmplice. O diretor constrói uma relação impecável com espaços, fruto de uma direção de fotografia de grande precisão, por parte de Adib Sobhani. Ele valoriza a escola, mas também os amplos locais por onde circulam Mahnaz: os hospitais, o pátio dos apartamentos, a escola do garoto. Cada tentativa de provocação ou fuga do menino revela um câmera atenta, pronta para seguir o movimento do rapaz pendurado em janelas, ou bloqueando cadeados de portões. Existe uma coreografia cuidadosamente pensada em termos de enquadramentos, profundidade de campo e movimento de câmera.


Ao mesmo tempo, tamanho rigor nunca exclui uma impressão de despojamento, de liberdade diante do dispositivo. O ator mirim Sinan Mohebi constitui uma força da natureza em suas provocações e enfrentamentos à ordem. Ele possui uma presença tão forte em suas cenas que, quando some da narrativa, deixa uma falta notável — o filme jamais atingirá a mesma intensidade sem ele. Seria essa a intenção do diretor: fazer com que o espectador também sentisse a falta do menino? De qualquer modo, as sequências da bola de basquete caindo pelos andares (antecipando o destino do adolescente), do encontro-ameaça com a ex-sogra no hospital, e das brigas com Hamid no pátio de ambulâncias transparecem um bem-vindo prazer do autor na construção de imagens.
Resta o coquetel perfeito à narrativa novelesca: uma sucessão frenética de nascimentos e mortes; casamentos e divórcios; acordos e traições. Tais conflitos são articulados através de vários saltos temporais, organicamente orquestrados pela montagem. Entretanto, apesar do teor emotivo evidente, o longa-metragem retira do panorama o ensinamento a respeito de quem amar e quem odiar, ou do certo e do errado. De certo modo, todos os personagens falham neste panorama de lacunas e insuficiências de cuidado e proteção. Incapazes de se rebelarem contra o sistema, os indivíduos se voltam uns contra os outros, parasitando-se, destruindo-se de maneira vil. Há muito ódio nesta ciranda de irmãos e amantes, ainda que mal direcionadas. O sentimento de desperdício e gratuidade evita que Mãe e Filho se converta numa obra exemplar a respeito de nossos males. O autor lamenta que estes dramas tenham acontecido a todos os personagens, sem exceção. Talvez se possa falar, neste caso, num princípio ético de empatia.




