
Escrito e Dirigido por Quentin Tarantino é um filme bastante incomum. Diante da escolha do cineasta norte-americano como objeto de estudo, teria sido habitual meramente relembrar os principais momentos e obras marcantes da carreira. Outra possibilidade consistiria em reunir os principais colaboradores para uma homenagem afetiva e elogiosa ao diretor. Entretanto, a cineasta France Swimberge se esforça em entender Tarantino, desvendando suas preferências e escolhas artísticas.
Por que ele gostaria tanto da violência e do pastiche? Por que incluiria cenas de samurais, faroestes ou blaxploitation em seus trabalhos? De onde viria a predileção por músicas da década de 1980, ou pelas ruas de Los Angeles? O que o motivaria a reescrever a história em algumas produções — caso da escravidão em Django Livre e da morte de Adolf Hitler em Bastardos Inglórios? A resposta, para a autora, se encontra num jogo de psicanálise freestyle. Afinal, o projeto conta com poucas falas do próprio Tarantino, mencionado eventualmente por meio de entrevistas prévias. Prefere a interpretação de amigos, um biógrafo, um filósofo e um casal de diretores de arte que trabalharam com Tarantino em Cães de Aluguel. Nenhum deles, até onde se saiba, possui a formação de psicólogo ou psicanalista.
O documentário se dedica a teses absurdas e, francamente, grosseiras, em termos especulativos, morais e éticos.
A principal tese, apresentada inúmeras vezes ao longo do média-metragem, seria a de que o diretor gostaria de ser seus personagens. Em última instância, Tarantino é seus personagens. “Existe o mundo real, e existe o mundo de Quentin Tarantino”, insiste a narração, duas vezes. Logo, trata-se da “obra de uma criança solitária que encontrou no cinema o seu refúgio encantado”. A infância do protagonista se torna um foco obsessivo, no intuito de afirmar que, ao contrário de crianças que cresceram assistindo a programas infantis, o futuro diretor já consumia filmes B, sepre violentos e exploradores.
“O cinema de Tarantino é como uma bolha de memórias que protegerá o tempo dourado da inocência”. O texto narrado em off por Mélanie Doutey está sobrecarregado de tiradas retóricas do gênero, insistindo que o homem não passaria de uma criança brincando com seus bonecos através do cinema agressivo e sangrento. “Ao inserir fragmentos do real em suas ficções, Tarantino mantém intacto o terreno encantado de sua juventude e pode continuar como espectador do filme de sua própria vida”. Insiste, ao mesmo tempo, numa infusão da realidade, além de uma dedicação completa à fantasia, que se tornariam as verdadeiras razões para o sucesso de seus filmes. Afinal, o trabalho do cineasta seria profundamente real ou profundamente fantástico? Ou, caso ambos se misturem, de que maneira tal fusão se produziria? Mistério.
O documentário está muito mais preocupado com teses absurdas e, francamente, grosseiras, em termos especulativos, morais e éticos. Analisa-se bastante a mãe de Tarantino, julgada por sua preferências de parceiros, pelas roupas que vestia e pelo tempo negligenciado junto ao filho. Caberia aos padrastos e namorados dela, figuras “complexas e nebulosas”, a tarefa de educar o menino e introduzi-lo no universo de virilidade. Sugere-se que uma grande violência teria ocorrido a Tarantino quando morou com a avó, embora o texto evite mencionar os fatos. “Ele se purificou daquelas pessoas [negativas], e não deixa que o envenenem e o contaminem”, sugere. Agora, diante de afirmações comprováveis pela primeira vez, a diretora demonstra pudor, isentando-se de responsabilidade pela afirmação?
O jogo de adivinhações vai além. O filósofo Patrice Maniglier, em particular, contribui ao brainstorming com uma série de afirmações ofensivas, ou somente delirantes, e impassíveis de confirmação. Tarantino teria escolhido seu ator principal para Bastardos Inglórios porque “por trás de Brad Pitt, talvez exista um garotinho descontente com o próprio corpo”. Escolheu a canção Bang Bang, na trilha sonora de Kill Bill, em resposta direta ao abandono pelo pai durante a infância. “Ele repara a História e nos traz a sensação de que houve uma perda irreparável”, formula, ciente do paradoxo que lhe soa genial e delicioso. “Tem algo heróico nesta determinação em fazer a alegria vencer”. “Existe uma dimensão sentimentaloide na ternura cósmica de Tarantino”. A lista poderia continuar.
Em consequência, Escrito e Dirigido por Quentin Tarantino mergulha numa dinâmica de determinismo bruto e conjecturado. Em revanche, espera-se de um documentário que efetue uma vasta pesquisa nos arquivos, nas datas e dados, de modo a oferecer ao espectador uma visão plausível de sua leitura pessoal. Já o média-metragem francês dispensa fatos, preferindo estas leituras improvisadas, desvairadas — como se qualquer um pudesse ter uma opinião a respeito de Tarantino, e todas fossem igualmente válidas. O cineasta teria sido “o primeiro DJ do cinema”, devido ao gosto pelo pop e pela colagem de referências. Décadas de experimentações em vídeo, por parte de diretores consagrados antes dele, contradiriam este disparate. Enquanto isso, nenhuma controvérsia associada ao autor (falas agressivas, posicionamento político sionista, parceria com Harvey Weinstein, representação racial de negros nos seus filmes) recebe o mínimo questionamento.


A iniciativa transparece não apenas recursos insuficientes, mas também esforços insuficientes para um discurso cinematográfico. Nenhum dos grandes colaboradores de Tarantino está presente no painel de entrevistados (nada de Samuel L. Jackson, Uma Thurman, James Parks), e o próprio autor não concede entrevista ao filme. O resultado se ressente de mais materiais, seja de bastidores, ou de arquivo, relacionados ao protagonista. Nem mesmo o making of dos longas-metragens está presente, ou o papel das iniciativas anunciadas e sabotadas (Kill Bill 3, The Critic, sua incursão na saga Star Trek). Nenhuma palavra é mencionada a respeito a artistas que contribuíram a criar e formatar estes pensamentos — em especial, a montadora Sally Manke.
Resta a incômoda tentativa de falar por Quentin Tarantino, em nome dele, sem convidá-lo à festa — como um roast que dispensaria o alvo da zombaria, ou uma psicanálise efetuada por vários profissionais, à revelia do único cliente. Tanto em sua dimensão puramente cinematográfica (uso de imagens e sons, montagem e associações entre materiais) quanto no domínio do discurso (a explicação do cineasta), o resultado perturba por seu posicionamento. Conclui-se numa ode anacrônica ao cinema de autor, compreendendo-o enquanto princípio, meio e finalidade. Swimberge estima que, por meio deste compilado de frases de efeito, homenageia ainda mais o garotinho solitário que, apesar das dificuldades, se tornou um grande artista. Em consequência, diminui o valor de Tarantino enquanto profissional para se focar numa coletânea de traumas e sintomas presumidos.




