
Uma linha nada tênue separa os estados da região Nordeste de certo imaginário popular imputado por sulistas e sudestinos a esta parte do Brasil. Neste amálgama, entram o sotaque exagerado de atores cariocas nas telenovelas (Susana Vieira vem à mente); a ideia de um local de natureza desbravada e baixa urbanização; preconceitos a respeito de pessoas pouco inteligentes, preguiçosas e atrapalhadas; sugestão de um povo violento e incapaz de diálogo; além de conceitos retrógrados de masculinidade e feminilidade.
Cordélicos: A Origem do Cabra da Peste se filia a este segundo grupo. O ponto de vista exótico busca se justificar em virtude do conceito de origem. Afinal, trata-se de uma animação, em primeiro lugar; de um filme infantil, em segundo; de uma paródia, em terceiro; e de uma fantasia futurista, em quarto. Logo, o humor desculparia qualquer licença ao real, e as liberdades da animação permitiriam à diretora Ale McHaddo retratar o cangaço e esta parte do país de qualquer maneira que estimasse divertida. O recorte histórico serviria, portanto, como mero ponto de partida a uma aventura futurista, na qual o grupo de cangaceiros descobre um portal conectando os anos de 1933 e 3333. Ora, como esperar verossimilhança de uma jornada envolvendo robôs mortais e máquinas do tempo?
O roteiro se lança ferozmente, sem freios e sem alvo. Mas o que realmente chama atenção é o insistente trabalho de som.
Assim, o roteiro se lança ferozmente, sem freios e sem alvo. Em poucos minutos, encontra-se a gruta, viaja-se a outra temporalidade, enfrentam-se vilões, buscam-se tesouros escondidos no interior de estátuas de santos. Espanta a velocidade com que os conflitos se sucedem, antes mesmo de se desenvolverem os personagens para além dos estereótipos mais óbvios (e nocivos): a preguiça e confusão de Sid, os seios fartos e os quadris largos da mulher de luta. Ainda restam estranhas piadas com o aspecto efeminado do vilão Cabra da Peste, “chifrudo de fala baitolada” que foge da luta numa nuvem de purpurina. Nenhum estereótipo está fora de alcance, compondo esta ciranda em oposição tanto ao senso crítico quanto a qualquer forma de subversão.
Por esse ponto de vista, cangaceiros seriam meros caçadores de tesouros, perambulando a esmo por cidades aleatórias (renomeadas Maceióx e Caruarux em virtude da insinuação distópica). As profundas contradições político-sociais dos cangaceiros reais, ora se voltando contra as instâncias do poder, ora se aliando a elas e sequestrando/estuprando mulheres, está convenientemente ausente da releitura. Curiosamente, outra animação futurista sobre o cangaço, Revoada: Versão Steampunk, buscava representar toda a violência e contradição do grupo. Já na interpretação infantojuvenil, deparamo-nos com personagens sem objetivo definido, combatendo bandidos com suas peixeiras luminosas e super-estilingues. Ora, neste caso, poderiam ser heróis quaisquer, ocupando uma fantasia não-delimitada historicamente. Por que se filiar a referências tão precisas, apenas para lhes retirar qualquer ligação com os fatos comprováveis?
Esteticamente, algumas simplificações se justificam pelas circunstâncias de uma animação de baixo orçamento, marcada por limitada amplitude no desenho e na movimentação dos personagens. Em contrapartida, o que realmente chama atenção é o insistente trabalho de som. A banda sonora está saturadíssima de tiques e efeitos de surpresa, choque, comicidade, explosão. Poucos segundos se passam antes que o próximo efeito fácil, extraído de algum banco de sons, sublinha cada andança, briga ou conversa do bando. Pif, paf, bum, crash, pow, wow! A experiência se torna muito mais infantil devido ao arsenal de onomatopeias e facilitadores tão típicos dos desenhos pensados para crianças muito pequenas.


Mesmo assim, a narrativa busca se sustentar através de gags visuais e piadas de texto. Corisco possui algumas tiradas repetidas: “Como diria Rui Barbosa / Paulo Freire / Fernando Pessoa…”, entoa o herói, antes de completar com uma frase qualquer. Adiante, multiplica os “Taí duas coisas que eu não tinha visto”. Ao pequeno nordestino, permite-se emprestar o bordão “Não sei, só sei que foi assim” da comédia alheia. No entanto, as melhores propostas cômicas (a sequência do “cara lá de cima” e da possível quebra da máquina do tempo, na reunião da turma) é prejudicada pela montagem arrastada, que passa alguns segundos simplesmente observando personagens ao invés de imprimir um ritmo mais dinâmico. Por que as caixas demoram tanto a cair? Como as lutas e tiroteios tardam tanto a se desenvolver? Ora, ao mesmo tempo, como as sequências tão arrastadas individualmente podem compor uma trama rocambolesca, acelerada até demais em seu conjunto?
Por fim, Cordélicos: A Origem do Cabra da Peste jamais concebe uma estética diferenciada o bastante para sugerir duas linhas temporais com 1400 anos de diferença. Evita construir personagens dotados de objetivos e personalidades distintas — eles correspondem a tipos, arquétipos precisos, e nada mais. O cinema brasileiro certamente possui incontáveis atores competentes para trabalhos de voz, além de animadores aguerridos, dedicando anos para completar um longa-metragem em equipes pequenas. Mesmo assim, às vezes, tamanho esforço na animação é aplicado a roteiro pouco consistentes, deixados em posição secundária face ao deleite anárquico de se fazer o que bem entender. Tanto faz o que acontecer na trama: é infantil / é comédia / é fantasia. Neste caso, os cangaceiros-para-crianças nem se tornam figuras históricas minimamente dignas de crença, nem habitam uma aventura minimamente desenvolvida em termos de psicologia infantil.




