
Telúrica, a Íntima Utopia permanece o tempo inteiro no interior de um galpão teatral. Durante 104 minutos, presenciamos os ensaios da companhia Ueinzz, assim como o espetáculo decorrente desta preparação. Dispensando os tradicionais letreiros explicativos, a narrativa ainda permite a identificação de alguns diretores artísticos (ou seriam terapeutas, médicos?) junto de pacientes de saúde mental. Os veteranos indicam os caminhos, realizam exercícios, escutam a fala dos demais participantes no que diz respeito aos seus sentimentos e histórias pessoais. As atividades relacionadas a cenas específicas são intercaladas com trocas amigáveis em momentos de descanso.
O projeto se beneficia do fato de nunca caracterizar estes personagens por seus quadros clínicos. Pouco importa à diretora Mariana Lacerda o que levou cada pessoa ao coletivo, e qual papel desempenham ali dentro. Ao final da sessão, no Olhar de Cinema, alguns espectadores discutiam se o homem bem articulado, que diz conversar com animais e receber imagens mentais de aranhas, seria um professor ou aluno — um “facilitador” ou paciente. Isso importa? O dispositivo elimina hierarquias, horizontalizando a atividade da trupe. É importante, neste sentido, frisar a incorporação das propostas dos atores em sofrimento psíquico ao processo, convertendo estas vivências em parte determinante ao resultado final. Em outras palavras, não se trata de um projeto artístico oferecido para eles, mas criado com eles, de maneira acolhedora.
Para além de divulgar uma companhia ou uma atividade psicossocial, o filme promove a redução de estigmas em relação a indivíduos considerados menos capazes ou funcionais.
Logo, o documentário se volta essencialmente ao processo de criação. É sempre valioso descobrir os bastidores da arte — como nascem as obras, de que forma são desenvolvidas, a partir de quais materiais humanos e concretos. Presenciamos os ensaios, as conversas, as dúvidas. Ocasionalmente, um membro se sente inseguro e cogita desistir. Outro manifesta dificuldade em memorizar as falas. A terceira propõe um novo monólogo, ao invés daquele desenvolvido anteriormente. Há um senso de fluidez nesta dinâmica, posto que nenhuma cena repete a anterior. Cada ensaios traz novos tons, além de propostas distintas daquelas percebidas nos dias anteriores. Os espectadores presentes no galpão, na conclusão, testemunham apenas uma parte desta criação, à qual o espectador obteve, de certa forma, um acesso privilegiado.
Em contrapartida, a direção demonstra nulo interesse na Ueinzz enquanto instituição. Desconhecemos a maneira como surgiu, se estruturou, se financiou. Quem dirige a instituição? Quais atores profissionais se dispuseram a integrá-la, a partir de qual interesse pessoal? A iniciativa partiu de médicos, de artistas, de psicólogos? Consideram estas atividades como arte-terapia, ou proposta de inserção social? Visam surtir efeitos práticos de bem estar, melhoria cognitiva, motora e psíquica dos participantes? Há avaliações práticas neste sentido? Os artistas com distúrbios ou síndromes permanecem com o coletivo durante muito tempo? De que maneira esta experiência transforma seu cotidiano fora do galpão? Não sabemos. Em determinada cena, uma mulher sofre um ataque de pânico depois de pegar o metrô para chegar aos ensaios. Ora, nunca havíamos suspeitado de sua fobia, posto o projeto despreza tudo que existe para além daquele espaço-palco.
Assim, limita-se o alcance social de um projeto evidentemente voltado a questões sociais. Quando os personagens recordam um colega de companhia, já falecido, a montagem introduz, pela primeira e última vez, fragmentos de material de arquivo do homem em cena. Neste sentido, finalmente percebemos a longevidade do grupo (para além de uma fala mencionando os anos de estrada da Ueinzz), e desvendamos outras dinâmicas, nas propostas de espetáculos anteriores. Os sentidos se abrem nesta hora. Infelizmente, o trecho permanece perdido na narrativa, que logo retorna ao imperativo do aqui-e-agora, aos ensaios unificados de um projeto preciso. Parte da dimensão da companhia se reduz devido à recusa em inseri-la num contexto político, social e médico preciso. (Como teriam atravessado o governo anterior, do retrocesso científico, que estigmatizou a ciência e a saúde mental? Que relação os espetáculos mantêm com o público? Os outros pacientes da saúde mental se enxergam nestas apresentações? Outro mistério).


“Teatro é morte. Teatro é falar da morte, e quando a gente fala das coisas, elas vivem”, propõe uma atriz. As interações sugerem uma relação profunda do elenco com a vida e a morte, com a humanidade e a natureza, com o terreno e o transcendental. Algumas falas apelam à biologia e à evolução das espécies. Outras se voltam à técnica de lip sync, e à paixão pela aviação. Todos estes membros se revelam fascinantes, embora a extensão de sua subjetividade permaneça opaca ao espectador. Telúrica, a Íntima Utopia soa como uma porta de entrada, uma espécie de teaser do trabalho artístico-social-terapêutico realizado pelos profissionais. Lacerda nunca procura esgotar seu tema, nem instrumentalizá-lo para servir de panfleto a um tema maior e abrangente — este não seria um filme sobre saúde mental, sobre políticas públicas, etc. Prefere que o material humano constitua meio e finalidade.
Assim, em sua modéstia, alcança os objetivos propostos. Através de um trabalho de som tão simples quanto funcional, e de uma câmera-cúmplice circundando os atores durante os ensaios, transmite uma impressão de companheirismo. Certo, o desfecho previsível da apresentação bem-sucedida tende para um lado institucional, promovendo as benesses da iniciativa. Mesmo assim, nota-se um interesse mais afetuoso do que utilitarista nos participantes e no processo. Valoriza-se o ato cênico enquanto jogo, uma resposta ao outro, uma devolução do estímulo oferecido. Mais do que divulgar uma companhia ou uma atividade psicossocial, promove-se um gesto de união, de redução de estigmas em relação a indivíduos considerados menos capazes ou funcionais. Aqui, eles se tornam peças fundamentais de uma elaboração da qual são co-autores. A autonomia atribuída a cada participante — tanto pelo filme quanto pela companhia — constitui um gesto político de notável beleza.




