Retiro: A Casa dos Artistas (2026)

Sobre afetos e celulares

título original (ano)
Retiro: A Casa dos Artistas (2026)
país
Brasil
Linguagem
Documentário
duração
95 minutos
direção
Roberto Berliner, Pedro Bronz
visto em
31º Festival É Tudo Verdade (2026)

Um documentário sobre o Retiro dos Artistas soa como uma ótima ideia. Afinal, a instituição carioca está cercada de mitos e preconceitos, pelo fato de abrigar habitantes famosos em fase avançada da vida, e situação de vulnerabilidade social. Logo, a iniciativa dos diretores Roberto Berliner e Pedro Bronz corresponderia à possibilidade de mergulhar neste cotidiano, compreendendo melhor o seu funcionamento e conferindo protagonismo aos habitantes. O que se esconde por trás deste pequeno vilarejo autônomo?

De fato, os autores efetuam um agradável passeio pelas ruas e corredores. Entram nas pequenas casas, conversam com moradores e moradoras. Talvez o gesto mais bonito da equipe consista nesta decisão de jogarem luz a pessoas invisibilizadas e, muitas delas, bastante felizes em compartilhar as suas vidas. É evidente a carência e solidão de diversos protagonistas, satisfeitos com a oportunidade de não apenas conversarem com outros artistas, mas também de terem suas ideias e opiniões registradas pela câmera. Nota-se um carinho palpável pelos moradores, assim como a intimidade destes em se abrirem à equipe. Ninguém duvidaria das boas intenções de todas as pessoas envolvidas no projeto.

O resultado é prejudicado pelas limitações da produção. […] O ponto mais frágil de Retiro: A Casa dos Artistas diz respeito à direção de fotografia.

Neste processo, surgem anedotas inesperadas, capazes de humanizar estes encontros e garantir uma bem-vinda leveza ao resultado. Um personagem combate a ideia preconcebida de que seriam todos artistas arruinados, depois de gastarem a sua “fortuna” e terem que “parar” no Retiro. Outros relembram os instantes na televisão, os momentos áureos no teatro e no cinema, assim como as principais apresentações musicais, no caso dos percussionistas. Diversos habitantes seguem produzindo a sua arte, e apresentando-se na casa cultural no interior do Retiro. Mais do que mera ocupação para evitar uma rotina monótona, estas iniciativas paralelas comprovam a importância que a arte continua desempenhando aos homens e mulheres filmados.

Em contrapartida, o resultado é prejudicado pelas limitações da produção. Em primeiro lugar, nunca se buscam materiais de arquivo capazes de ilustrar tanto a narrativa descrita pelos depoimentos, quanto o histórico da instituição centenária. Teria sido interessante descobrir imagens destas pessoas em seus tempos áureos, desempenhando a linguagem artística graças à qual se consolidaram. O mesmo vale para o Retiro: de que maneira cresceu? Como sua função social se ampliou ou modificou década após década? Que atividade teve durante a ditadura, por exemplo? Os autores ficam refém daquilo que os protagonistas tenham a lhes contar, de livre e espontânea vontade, no entanto, evitam efetuar investigações por conta própria. A obra se ressente da falta de pesquisa e aprofundamento no tema.

Consequentemente, desconhecemos as entranhas do lugar. Quem financia a construção de novas casas? Os habitantes pagam por sua hospedagem? Como funciona o processo de admissão? Qual seria o papel de Marieta Severo, vista supervisionando a construção de novas unidades? Como Stepan Nercessian se converteu em presidente da instituição, e qual relação a Rede Globo mantém com este espaço? De que forma os moradores, muitos deles com mais de 80 anos de idade, lidam com a questão da finitude, e de que maneira as necessidades de saúde dominam a vida no Retiro? Que ações práticas (de marketing, no caso) foram adotadas para combater a ideia de que as casas abrigariam criadores “fracassados”? Muitos aspectos políticos e econômicos são dispensados pelo documentário.

No entanto, o ponto mais frágil de Retiro: A Casa dos Artistas diz respeito à direção de fotografia. O projeto não aparenta derivar de uma reflexão bem estruturada, ou de uma preparação prévia cuidadosa a respeito da melhor maneira de filmar nas ruas e dentro das casas. Ao que tudo indica, a equipe se deslocou aos apartamentos e registrou no imprevisto, da melhor maneira encontrada ali, no calor do momento. Isso implica numa quantidade considerável de planos desajeitados, seja próximos demais dos personagens, ou estranhamente angulados em relação a eles. As câmeras de celular trombam com a equipe de som, e com a segunda câmera de celular. Os dispositivos filmam um ao outro a esmo, conferindo tanta atenção aos próprios cineastas e diretores de som direto quanto aos habitantes. Às vezes, pessoas passam na frente da imagem, prejudicando a composição. Surpreende que tantos instantes de frágil controle cinematográfico tenham sobrevivido ao corte final.

A escolha pela filmagem com telefone celular também pode ser questionada. Isso afeta diretamente as cores, o contraste, a textura da imagem. Quando ampliado pela grande tela do cinema, o registro caseiro incomoda devido à falta de apuro. Mesmo instantes simples como a fala de uma mulher vestida de branco, sobre uma parede branca, com a luz totalmente superexposta, poderiam ser evitados com o mínimo esmero. Dentro do refeitório, a luz também estoura. Já durante as caminhadas nas ruas, a objetiva em grande angular transparece uma ausência de escolha, ao invés de um pensamento destinado a valorizar aquela geografia e aquelas pessoas. A noção de que as boas intenções superariam a necessidade de precisão de linguagem constitui uma falácia.

Neste sentido, o trabalho de som (tanto a captação quanto a montagem) se prova muito mais eficaz do que dinâmica caótica da fotografia. Quanto ao roteiro, alguns ganchos são explorados em excesso, enquanto outros se resolvem com uma pressa injustificável. A montagem se encanta com a possibilidade de um raro romance entre dois moradores, insistindo bastante nesta relação. Em contrapartida, o espetáculo de teatro, bastante importante à vida dos moradores, se finaliza numa sequência de poucos segundos na imagem. Em determinadas ocasiões, escolhe-se um estranho fade to white, que se aproxima de uma estética da morte, ou então, mantém uma longa cena de silêncio, na qual um musicista simplesmente encara o dispositivo, desconfortável, sem saber o que dizer.  

Além disso, o que mais ocorre no cotidiano? Os habitantes assistem a filmes na sala Eduardo Coutinho? Caso afirmativo, quais são eles? Como se relacionam com os filhos destas pessoas idosas (praticamente ausentes dos registros) e com a vizinhança do Retiro? Muitas perguntas permanecem sem resposta ao final da sessão. O retrato da instituição permanece unicamente positivo, acolhedor, gentil, carecendo da ambiguidade e das contradições inerentes a qualquer lar semelhante. Percebe-se que o projeto foi realizado em parceria com a diretoria, visando promover o local, o que compromete a adoção de um mínimo senso crítico. Berliner e Bronz transbordam de carinho, porém, perdem a oportunidade de realmente entender o mecanismo por trás de uma organização única em sua natureza.

Retiro: A Casa dos Artistas (2026)
4
Nota 4/10

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