À Paisana (2025)

A volta do sofrimento gay

título original (ano)
Plainclothes (2025)
país
EUA, Reino Unido
gênero
Drama, Suspense
duração
95 minutos
direção
Carmen Emmi
elenco
Tom Blyth, Russell Tovey, Maria Dizzia, Christian Cooke, Gabe Fazio, Amy Forsyth
visto em
Filmelier+

Como fazer um filme sobre os anos 1990, mas que ainda possua o ponto de vista e os valores dos anos 2020? De que maneira retratar o sofrimento de um personagem em crise, sem tornar a experiência para o espectador igualmente torturante? Estas perguntas fundamentais vêm à mente diante de À Paisana (Plainclothes), longa-metragem de estreia do cineasta e roteirista Carmen Emmi. Na trama, situada em meio ao surto de HIV/AIDS, um policial é encarregado de prender homens “pervertidos” que se encontram em banheiros públicos, apenas para descobrir que ele mesmo possui atração por homens. Os dilemas da autoaceitação gay e do coming out se misturam aos medos da epidemia de um vírus ainda pouco conhecido.

O diretor parte do pressuposto que a estética precisa abraçar o estilo de três décadas atrás. Assim, junto ao diretor de fotografia Ethan Palmer, opta pelas captações em digital pixelizado, remetendo à textura do VHS caseiro. A janela da imagem muda com frequência entre o formato mais próximo do quadrado, e aquele mais retangular, numa alternância aparentemente fortuita. Através desta imagem que espiona os personagens, favorece a sensação de ser observado, controlado — algo pertinente à profissão do protagonista. A baixa definição dos rostos e dos cenários também aumenta o sentimento de desconforto face a esta representação do mundo.

Um problema ético se instaura a partir do momento em que os protagonistas gays se reduzem a mártires da causa.

A propósito de vigilância, o drama captura muito bem a importância dos olhares na sedução gay. Na impossibilidade de conversar abertamente, flertando como fariam os homens heterossexuais, os personagens intensificam uma linguagem repleta de códigos e insinuações silenciosas. A série Looking, da HBO, havia capturado desde o título esta forma de olhar enquanto essência da comunicação gay em tempos de repressão. A própria lógica do “banheirão” se justificaria por uma vazão às proibições da moral e da ordem. Impossibilitados de se relacionarem abertamente, os personagens desenvolvem contextos nos quais possam canalizar desejos. Emmi parte de um conhecimento evidente acerca desta comunidade.

Em contrapartida, os criadores restringem a experiência de Lucas (Tom Blyth) ao sofrimento. Desde as primeiras cenas, ele está confuso, angustiado, preso à contradição moral de perseguir homens como ele — com o diferencial de estes sujeitos demonstrarem a coragem de efetuar práticas das quais o herói se priva. A mãe o pressiona para comentar seu casamento; os colegas de profissão disparam falas homofóbicas; o tio representa o conservadorismo agressivo. Tudo o redor conspira contra ele. Lucas se vê incapaz de relaxar, seja em casa, seja no trabalho. Nenhuma válvula de escape é oferecida ao homem desprovido de amigos, confidentes, ou mesmo locais onde possa se expressar. Não por acaso, o romance inesperado com Andrew (Russell Tovey) nasce de uma situação profissional, durante a perseguição cotidiana a gays num shopping center da cidade.

O roteiro vai além, no intuito de torturar o protagonista. Criam-se inúmeras situações que aludem, em segundo plano, ao segredo do policial. “Estamos quebrando várias regras e leis. Você está de acordo com isso?”, dispara um diálogo, em óbvia referência à sexualidade reprimida. A trilha sonora insiste em tons melodramáticos intensos. Para mostrar o sofrimento de Lucas, aposta-se numa experiência de desconforto, da primeira à última cena. Mesmo os encontros amorosos são logo interrompidos devido às circunstâncias — Andrew também é casado com uma mulher, e tem dois filhos. Ora, o problema desta abordagem diz respeito ao ponto de vista: Emmi observa este personagem com piedade, de um ponto de vista paternalista próximo à religiosidade (uma estética assumida no final). Não somos convidados, enquanto espectadores, a nutrir respeito pelo rapaz, de igual para igual, somente pena por vê-lo martirizado durante a totalidade das imagens.

Assim, À Paisana remete a tantas obras dos anos 1960-80, nas quais a homenagem ao indivíduo LGBTQIA+ coincidia, aos olhos da direção, com o acompanhamento detalhado de seu calvário. Em pleno 2025, o projeto dialoga com toda a dor de Infâmia (1961), o fatalismo de Apenas uma Mulher (1967), o espetáculo da tragédia gay em Filadélfia (1993) e Milk: A Voz da Igualdade (2008). É óbvio que a dor e a homofobia existem nesta comunidade, e merecem ser retratadas no cinema. Entretanto, um problema ético se instaura a partir do momento em que os protagonistas se reduzem a mártires da causa. Menos do que indivíduos complexos e contraditórios, tornam-se párias. Resta a sensação de que muitos (todos?) projetos nesta linha se dirigem, na verdade, ao espectador presumido heterossexual, a quem se oferta o alívio de não ser assim, de não precisar passar por isso, de ter uma vida mais “normal”. 

Emmi ainda sobrecarrega os clichês típicos das produções de antigamente: a associação imediata entre homossexualidade e criminalidade (não existe um único personagem gay sem vinculação a práticas ilícitas no filme); a sugestão de que gays podem ser perigosos, perseguidores e manipuladores (Lucas se converte em stalker devido à paixão não-correspondida) e de que representem um perigo à estabilidade familiar (vide o caos no almoço de fim de ano) e profissional (ele deixa de ser um bom trabalhador assim que se entrega à paixão por outro homem). Em outras palavras, uma vez que cede à tentação da homossexualidade, o personagem perde seus valores e qualidades. Não se estranha que estes projetos sejam lidos, atualmente, enquanto reacionários.

Há muito tempo, o cinema queer encontrou maneiras de brincar com esta falsa equivalência entre homossexualidade e criminalidade (vide o cinema de John Waters), temperando as dores com alívios, com a ideia de camaradagem, de solidariedade dentro da comunidade gay. Há alegrias, respiros, traquinagens e deliciosas subversões em um grupo minoritário, mesmo dentro de um sistema repressivo. Diversas metáforas foram instauradas, sobretudo recorrendo ao cinema de gênero — a fantasia, o terror, a ficção científica, a comédia absurda ou grotesca. A arte possui ferramentas para representar a angústia sem repeti-la de modo tão pedagógico e referencial. 

Já as narrativas mais inteligentes se provam capazes de complexificar um indivíduo que, entre tantas características, possui um trauma ou aflição, porém, nunca se reduz a estes elementos. O audiovisual evoluiu demais para acolher um novo trauma show, em moldes tão antiquados e nocivos à comunidade LGBTQIA+, quanto este drama anacrônico. O fato de ter sido aclamado e premiado em diversos festivais de gênero e sexualidade deveria soar um alerta a respeito da imagem que criamos de nós mesmos. É realmente assim que nos enxergamos, e queremos ser vistos pelos demais?

À Paisana (2025)
4
Nota 4/10

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