Alpha (2025)

O discurso sem foco

título original (ano)
Alpha (2025)
país
França, Bélgica
gênero
Drama, Fantasia, Terror
duração
128 minutos
direção
Julia Ducournau
elenco
Mélissa Boros, Golshifteh Farahani, Taha Rahim, Emma Mackey, Finnegan Oldfield
visto em
1ª Mostra Farol (2026)

Alpha não é um filme nada fácil de discutir. As primeiras descrições da imprensa pareciam mencionar projetos totalmente distintos: esta seria uma fantasia a respeito do HIV na França; um coming of age sobre os perigos do sexo e do bullying nas escolas; um body horror no qual pessoas viram estátuas; a história de uma garota árabe tatuada contra a sua vontade; uma fábula a respeito da opressão religiosa. Nem mesmo as sinopses convergiam para uma premissa básica, hesitando entre conferir todo o protagonismo à garota do título, ou sugerir que, na verdade, a personagem principal seria a mãe médica, ou ainda, o tio doente.

Ora, talvez o projeto contenha todos estes caminhos narrativos, além de mais alguns. Depois de filmes bastante potentes, como Grave (2016) e Titane (2021), a diretora Julia Ducournau partiu para seu projeto mais ambicioso, dotado de orçamento visivelmente mais folgado do que todas as iniciativas anteriores. Isso implica, no caso, numa proliferação de focos, pontos de vista, temas e subtemas. O roteiro intercala ações no presente e no passado; ocorrendo de fato, ou apenas no domínio da imaginação; partindo da perspectiva da menina, mas também dos familiares. Durante tempo considerável da experiência, o espectador pode simplesmente se interrogar a respeito do que está vendo, e com qual objetivo.

Alpha acredita possuir uma mensagem importantíssima a transmitir (a respeito do quê, mesmo?), motivo pelo qual dispensa o emprego do cinema de gênero enquanto deleite, liberdade e ousadia.

Mesmo esteticamente, o projeto aparenta tatear o seu terreno — ou talvez, abraçar todos os terrenos possíveis. Alpha (Mélissa Boros) é uma garota pálida, literalmente cinzenta. O mundo ao redor dela não tem cor, embora o tio sofrendo de uma doença desconhecida ostente mãos com cor de terra. Os contaminados começam a ser tomados por uma estranha maquiagem branca, que se apodera de partes aleatórias do corpo até se converterem em algo semelhante ao mármore (embora permaneçam ocos por dentro). Num flashback (ou flashforward?), a mãe (Golshifteh Farahani) tem os cabelos frisados e habita um universo com cores fortes e imagem granulada. Ou seria uma linha do tempo alternativa, que não ocorre nem antes, nem depois da contaminação?

Devido a tamanha amplitude de focos e estilos, a metáfora central se perde. Tahar Rahim, raquítico no papel do tio moribundo, às vezes ilustra a homossexualidade perseguida na época (qual época mesmo?), às vezes, representa a violência habitual da dependência de drogas. A mistura dos dois enquanto “males equivalentes”, ou intercambiáveis (com a desculpa de que ambos podem levar à contaminação pelo HIV) resulta problemática, para dizer o mínimo. Todos os indivíduos doentes aparentam desenvolver o mesmo tipo de marmorização, embora, no final, um rapaz negro se transforme em pedra preta. Por que os árabes e pessoas de outras etnias eram todos igualmente brancos? De que forma a objetificação dos corpos encontra o conceito de raça? Mais uma vez, a simbologia atinge contornos problemáticos.

Os problemas continuam. Alpha não se lembra da tatuagem feita em seu braço, durante uma festa, quando estava embriagada. Às vezes, o texto insiste em tratar este momento enquanto analogia ao estupro. Adiante, reverte o significado com uma revelação que anula esta leitura. Às vezes, a tal doença (ou dependência química?) soa inevitável, porém, em outras cenas, pode ser controlada, revertida, ou apenas ignorar alguns corpos aleatórios. Por quê? O que se sabe deste mal? De que forma é transmitid, ou prevenido? Qual a relação com a superstição do Vento Rubro? Existe pesquisa médica a respeito? Onde estão os outros doutores neste hospital em que a personagem de Farahani parece atender sozinha? O que diz a mídia a respeito? Como o resto da sociedade continua vivendo como se não houvesse uma pandemia atingindo a todos? De que maneira as diferentes classes sociais são afetadas? Por que todos os personagens minimamente importantes têm nomes iniciados pela letra A (Alpha, Amin, Adrien)? Mistério.

Alpha soa como a mistura entre peças de três quebra-cabeças diferentes, guardados por engano na mesma caixa. É possível formar alguns pedaços de imagem, e percebe-se algumas coerências aqui e acolá. No entanto, o conjunto jamais se fecha, porque nunca havia sido previsto para isso. Costurar todas as pontas do longa-metragem seria como entortar as beiradas das peças para criar um encaixe artificial. O resultado se ressente da presença de uma produção centralizadora, de pulso firme, capaz de apontar à direção e ao resto da equipe a ausência de sentido, de coesão, e a necessidade de se concentrar em apenas um dos diversos caminhos sugeridos (qualquer um deles, posto que seriam todos igualmente válidos). 

Da maneira como se encontra, resta a incômoda impressão de que a direção de fotografia nunca conversou com a direção de arte, ou com a equipe de som, e assim por diante. A trilha sonora compõe músicas longuíssimas, cujo volume é elevado ao máximo pela montagem, como se estivessem orquestrando a melodia de um épico de Spielberg. No entanto, a direção de fotografia registra o dia a dia no apartamento apertado de acordo com os moldes de um realismo social típico (a mãe de baixa renda, a família árabe espremida durante os almoços). Por que, então, a direção de arte pinta as peles (e a pós-produção intervém excessivamente nas cores) como se estivéssemos numa fábula lúdica? Como se decidiu reservar à linha temporal alternativa toda a cor que tanto faz falta na trama central?

Por fim, os atores se entregam com a dedicação de uma obra profunda, extremamente grave e autoimportante (vide o emagrecimento de Rahim, o rosto sempre tenso de Farahani, a quantidade impensável de sangue despejado sobre a garota). No entanto, Ducournau nunca compreende a necessidade de respiro, de reflexão ou organização diante de tantos absurdos e licenças em relação ao real. Com certeza, os participantes desta iniciativa tinham claros para si os objetivos de cada cena, ou a necessidade de tratar cada delírio com a solenidade de um hino. Titane sabia se divertir, mergulhar na própria bizarrice, deleitar-se com os corpos e os excessos. Já Alpha acredita possuir uma mensagem importantíssima a transmitir (a respeito do quê, mesmo?), motivo pelo qual dispensa o emprego do cinema de gênero enquanto deleite, liberdade e ousadia. A cineasta engessou sua iniciativa, enrijeceu o discurso e a estética. Assim como os personagens, marmorizou-se.

Alpha (2025)
3
Nota 3/10

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