Eclipse (2025)

Sobre mulheres e onças

título original (ano)
Eclipse (2025)
país
Brasil
gênero
Drama, Suspense, Policial
duração
109 minutos
direção
Djin Sganzerla
elenco
Djin Sganzerla, Sergio Guizé, Lian Gaia, Selma Egrei, Helena Ignez, Luís Melo, Clarisse Abujamra, Gilda Nomacce, Pedro Goifman, Julia Katharine
visto em
Cinemas

Eclipse é um filme de vastas ambições. A diretora Djin Sganzerla, que assina o roteiro junto de Vana Medeiros, decide abordar a violência contra mulheres por diversos prismas: os abusos conjugais, a pedofilia, o aliciamento de menores, o culto à masculinidade tóxica na deep web, a agressão a mulheres indígenas. Transitam entre o Amazônia e a Internet; entre os sítios exclusivos para homens e os institutos de astronomia, onde trabalha a protagonista Cleo (vivida pela própria cineasta). Passa-se drama ao suspense frenético, e então, à ação, durante o clímax. Há muitas vontades e discursos embutidos numa narrativa só.

Com tantos elementos em jogo, a criadora aposta em metáforas capazes de costurar os diferentes polos narrativos. O eclipse do título diz respeito ao interesse pela ciência, mas também ao encobrimento da luz (da verdade, portanto), e à proteção da natureza — segundo algumas crenças indígenas, são as onças que provocam estes efeitos celestes. Já as próprias onças indicam o perigo masculino, o senso de predação, mas também a ferocidade das mulheres que combatem seus ofensores. Além disso, apontam para este ideal de natureza representado tanto pela Amazônia quanto pela libido e pela agressividade da vida contemporânea. O batismo de um asteróide representa um bebê, em diálogo com o filho esperado por Cleo — e assim por diante.

Eclipse fica num meio-termo entre se levar bastante a sério enquanto denúncia de feminicídios e redes de exploração, e a vontade de embarcar num cinema de ação de pretensões espetaculares.

Por mais interessante que seja o xadrez simbólico, ele é prejudicado por redundâncias e desníveis de tom. Os flashes ocasionais de onças na mata retornam duas, quatro, uma dúzia de vezes ao longo da jornada. Perdem, desta maneira, o impacto inicial, até se tornarem meras vinhetas, tiques indicando uma passagem de tempo — posto que não se ressignificam, nem se desenvolvem, ao longo do processo. A astronomia será esquecida durante tempo considerável, para se privilegiar a função protetora da maternidade. Diante da tragédia relacionada à sua filha, a protagonista recebe como recompensa a oportunidade de salvar outra jovem, vítima de violência (como quase todas as mulheres do roteiro).

O aspecto cotidiano e naturalista proporciona os melhores momentos do longa-metragem. Ainda que secundárias, as disputas por financiamento de pesquisa, os dilemas típicos da chegada do primeiro bebê e as trocas cotidianas do casal soam plausíveis. Djin Sganzerla sempre foi uma atriz de composição despojada, que nunca se se esforça para roubar as cenas para si (nem no próprio filme como diretora). Ela transparece uma bem-vinda espontaneidade face às câmeras, que resultam bastante benéficas à mulher sobrecarregada de funções e ocupações (astrônoma, mãe, esposa, irmã, nora). Os instantes em que a heroína simplesmente preenche tabelas no computador, sobre a mesa de jantar, nos aproximam de uma vivência média, de fácil identificação.

Entretanto, a imersão abrupta no cinema de sensações provoca alguns tropeços. A trilha sonora, em particular, sobrecarrega emoções ainda discretas, em formação. O reencontro com a irmã Nalu (Lian Gaia) ocorre sob o impacto de uma orquestração tão sinistra que rouba o protagonismo da revelação (e soaria mais apropriada ao cinema de terror). O susto aparenta se antecipar à própria compreensão dos fatos. A partir da segunda metade, esta mesma música, desproporcionalmente intensa, força a entrada no suspense policial, quando os fatos ainda apontam ao drama. Alguns recursos destinados a revelar o medo de Cleo pelo marido-vilão (a sombra de Tony ao fundo da cozinha, o esposo segurando o cinto nas mãos) resultam exagerados, ou repentinos demais. Na ausência de uma gradação mais cuidadosa, tal pathos nos aproxima da sensibilidade de um filme B.

Logo, Eclipse caminha trôpego, num meio-termo entre se levar bastante a sério enquanto denúncia de feminicídios e redes de exploração, e a vontade de embarcar num cinema de ação de pretensões espetaculares, incluindo a dupla perseguição em paralelo no clímax, e a mulher grávida convertida em investigadora destemida. Nem totalmente intimista, nem contaminada pelo ritmo das investigações e descobertas, a linguagem soa… indecisa. Tal indefinição vale igualmente para o trabalho de grandes atores em papéis secundários — alguns deles carregando até demais nas tintas, enquanto os outros preferem registros mais apagados. Aparentam atuar em projetos diferentes, a partir de compreensões díspares do discurso buscado pela cineasta.

Ao fim, compreende-se e defende-se a procura por um elo de sororidade. As mulheres de diferentes trajetórias e regiões do Brasil se unem contra a masculinidade predatória dos maridos, chefes, filhos dos chefes e capangas. Preocupadas com o futuro de suas filhas mulheres (prováveis alvos de agressão) e de seus filhos homens (possíveis agressores), contentam-se com o afeto de irmãs e amigas, dando à luz a um filho-asteróide para chamar de seu. É certo que os esforços de Cleo contam com uma polícia magicamente eficaz, além de um sistema judiciário rápido e implacável. Nenhum abuso de poder (chantagem, corrupção) decorre destas autoridades masculinas, facilmente rendidas face às evidências. Paira um otimismo redentor (e ingênuo?) na revolução feminina, baseada essencialmente na força de vontade e na união.  

Enquanto peça de uma filmografia mais extensa, Eclipse representa um salto considerável para Djin Sganzerla como diretora. O belíssimo Mulher Oceano (2020) se mostrava mais coeso, porém, também mais intimista — um típico filme de personagens, focado no dilema de uma única protagonista consigo mesma. Agora, a autora se abre a uma estrutura coral, abraçando diversos personagens, temas, tons e estilos em paralelo. Incorre em desequilíbrios no processo, no entanto, opta por um bem-vindo cinema de riscos, seja por sua frontalidade (a maneira quase incômoda como se filmam abusos e abortos espontâneos), seja pela procura de elementos pertencentes aos céus e às florestas, encarregados de representar a luta cotidiana das mulheres de um país inteiro.

Eclipse (2025)
5
Nota 5/10

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