
Existe uma contradição fundamental na adaptação de Mortal Kombat ao cinema. O jogo de origem não contém uma narrativa propriamente dita, limitando-se à sucessão de lutas no campeonato do título. Entretanto, caso os criadores adaptassem somente a pancadaria ao cinema, seriam criticados pela ausência de uma “história” digna desta outra linguagem. Em contrapartida, caso investissem numa real motivação e desenvolvimento de cada lutador, tirariam o espaço e a atenção das lutas — quem vai assistir a Mortal Kombat esperando dramas complexos e personagens comoventes?
Assim, o diretor Simon McQuoid finge embutir um mínimo de conflito aos protagonistas, torcendo para que o espectador finja acreditar. Os roteiristas não buscam nenhum objetivo muito detalhado ou profundo. Trata-se da honra familiar, da vingança pelo pai assassinado, do combate em nome de povos oprimidos. Os clássicos honra, coragem, virtude. Os participantes de cada grupo adentram a arena com a responsabilidade de evitar o mal, garantir a predominância do bem, salvar as famílias, etc. Menos do que figuras dotadas de subjetividade, eles representam arquétipos de valores definidos. Ninguém terá dificuldade de identificar os mocinhos e os bandidos neste contexto.
Por isso, o espectador precisa aceitar uma infinidade de frases de autoajuda do nível “Lembre-se de quem você é” e semelhantes. Este é o limite da autoseriedade do longa-metragem: no fundo, nem os personagens, nem os criadores realmente acreditam na nobre missão de pregar o bem através de lutas envolvendo raios e chapéus letais. Poderiam se contentar com ambições menores, mais terrenas e cotidianas. Mesmo assim, a responsabilidade perante à marca nos garante que estes combatentes lutam pelo que há de mais sagrado e importante do universo.
Mortal Kombat 2 se equilibra em conflitos desprovidos de peso. As lutas têm um final facilmente antecipado; as rixas surgem de lugar nenhum; os assassinatos são revertidos em segundos.
Ora, alguém acredita na capacidade de o mal prevalecer e de a humanidade ser extinta de fato, neste gênero de storytelling? Afinal, a previsibilidade desempenha um papel importante neste torneio no qual o espectador não joga. Sendo o destino definido por criadores hollywoodianos, muito interessados em sequências e produtos derivados, é óbvio quem será coroado no final. Além disso, para um discurso a respeito de lutas mortais, a morte ironicamente importa muito pouco. Os personagens lamentam um cadáver à sua frente, entretanto, é notável a quantidade de figuras que retornam à vida — como se recomeçassem o jogo. A quantidade impressionante de sangue e membros decepados (a classificação etária é de 18 anos) não impede certa inconsequência quanto ao estado físico dos lutadores.
Mortal Kombat 2 se equilibra, portanto, em conflitos desprovidos de peso. As lutas importantíssimas têm um final facilmente antecipado pelo público; as rixas surgem de lugar nenhum; os assassinatos são revertidos em segundos. “Eu renasci!”, festeja um personagem. “Você deveria estar morto”, comenta outro. “Eu ganhei uma nova vida”, comemora um terceiro. Aqui, o poderoso fogo de Liu Kang (Ludi Lin) nunca queima de verdade, o corte profundo no pescoço de Raiden (Tadanobu Asano) aindao mantém vivo. Mesmo os congelados podem ser descongelados — todo gesto de um poderoso personagem pode ser desfeito num passe de mágica. Nada é real, definitivo, concreto. Como podemos temer por lutadores que jamais se encontram, de fato, em risco?
A sensação de artificialidade se expande aos espaços, claramente cenográficos, marcados por fundos infinitos e céus tingidos pelos refletores de estúdio. Esqueça as preparações físicas, ou o medo antes de cada desafio: os personagens já aparecem lutando, em arenas aleatórias, antes mesmo que o espectador saiba com quem duelarão. Somem o senso de finalidade, a tensão diante do adversário forte, o receio pelo futuro dos protagonistas. Eles compartilham alguma informação entre si, em frases explicativas (“Ele usa vocês como escravos. Ele trata vocês como cães selvagens!”) e, num corte abrupto da montagem, estão desferindo socos e poderes. A dinâmica dos campeonatos permitiria prever os próximos passos, antecipar riscos, sugerir perigos. Mas não aqui. Cada luta se converte num curta-metragem próprio, de ínfima relação com o restante da trama.
McQuoid e sua equipe de roteiristas procuram embutir algum humor através da figura de Johnny Cage (Karl Urban), ator fracassado, convocado ao torneio entre lutadores muito mais dedicados. O personagem já atuou em filmes de luta ridículos, devidamente parodiados pelos diretores. É interessante que o cineasta demonstre tamanha disposição a rir dos códigos deste cinema B, porém, jamais do próprio filme que o contém — e cujos absurdos estão bastante próximos do tragicômico Uncaged Fury de Cage. Há boa dose de humor e piadinhas pop (com Transformers, Round 6, O Senhor dos Anéis), embora a “entidade” Mortal Kombat não permita nenhum tipo de zombaria.


Assim, a comicidade perde seu alvo real. De que adianta rirmos das coreografias patéticas do filme-dentro-do-filme se, uma vez atingido, o corpo de Cage tremula ridiculamente, tal qual os personagens do game de origem, numa cena filmada com toda a seriedade do mundo? Apesar da presença do experiente James Wan na produção, o resultado carece de uma adaptação mais profunda. Ele nunca se contamina com o real, com situações plausíveis ou ambições dignas de crença. Evita a mínima fisicalidade, os riscos, o aspecto mais brutal e “sujo” da realidade. Entre cenários virtuais, roupas extravagantes e poderes luminosos inofensivos, os personagens soam extraídos de um encontro de cosplays.
Uma adaptação corajosa riria destas roupas, das arenas, das habilidades e fraquezas de cada um (estas últimas, nem mesmo mencionadas). Evitaria o discurso acerca do “bem da humanidade” ou, pelo menos, traria uma autoconsciência quanto ao seu exagero e ingenuidade. Ora, o espectador precisa se contentar com atuações realmente fracas, posto que aplicadas a personagens difíceis de acreditar. (Como os atores poderiam fazer melhor do que isso?). Quando os combatentes choram, gritam ou se desesperam, soam despropositados em suas reações — ainda ignorariam que seus companheiros podem retornar a seguir, caso assim se deseje? Não adianta: estamos um passo à frente destas figuras tão heróicas, tão inumanas, tão fantasiadas e fantasiosas.



