O Rei da Internet (2026)

Curtindo a vida adoidado

título original (ano)
O Rei da Internet (2026)
país
Brasil
gênero
Drama, Policial, Biografia
duração
135 minutos
direção
Fabrício Bittar
elenco
João Guilherme, Marcelo Serrado, Emílio de Mello, Kaik Pereira, Adriano Garib, Caio Horowicz, Miguel Nader, Enrico Cardoso, Clarissa Müller, Bia Seidl, Débora Ozório
visto em
Cinemas

Existe um único conflito, propriamente dito, em O Rei da Internet. Daniel Nascimento (João Guilherme) é um adolescente que descobre como aplicar golpes online. Ele começa com esquemas de baixo risco, e também, de baixa recompensa. Depois, investe em esquemas maiores e perigosos. A cada momento, arrisca-se mais e mais, até a inevitável queda deste Ícaro paulista. Sabemos que será capturado, pois a narrativa se inicia com a chegada da polícia no quarto de hotel do protagonista e, em paralelo, na casa de seus comparsas. O herói também explica sua detenção ao espectador. Logo, cabe esperar o momento em que a rotina de luxo e ostentação ruirá.

Parte considerável dos 135 minutos deste longa-metragem se concentram no hedonismo do rapaz. Inicialmente tímido, por sofrer bullying na escola, e por padecer de diversas doenças cujos sintomas jamais enxergamos em tela, ele se emancipa por meio do crime. Toma gosto pelo dinheiro, as compras, as festas, as mulheres, as drogas. O diretor Fabrício Bittar se delicia em filmar estas noites, incluindo uma quantidade considerável de nudez, sexo e drogas. Após 120 minutos de narrativa, ainda apresenta novas festas e clubes noturnos. Embora se concentre na vivência de um adolescente (o primeiro sexo, o enfrentamento à autoridade paterna), e privilegie a estética MTV, o longa-metragem é proibido aos menores de 18 anos. 

O longa-metragem pode ser interpretado enquanto hino a certa masculinidade predatória na qual dinheiro, carros e mulheres existem para ser conquistados mediante a exploração de brechas no sistema.

Estima-se que o prazer ao espectador provenha desta excepcionalidade (“a história do maior hacker do Brasil”, orgulha-se o slogan), envolvendo a fortuna impensável de um garoto de 16 anos, que invade com facilidade os servidores e contas das maiores empresas da época. Filma-se a narrativa como algo pitoresco, divertido, que não deveria ter acontecido. No entanto, foi possível devido a nosso país pretensamente bagunçado, sem leis, ditado pela corrupção. Por trás do aparente moralismo desta narrativa de ascensão e queda, esconde-se o discurso conformista de que o Brasil não é sério, os ricos nunca ficam presos por muito tempo e, finalmente, de que o crime compensa. Parte do entretenimento reside na aparente prova deste pensamento reacionário: afinal, se nada vai mudar jamais, por que nos indignar contra o sistema, ou tentar mudá-lo?

Entretanto, para além deste discurso vira-latista sobre um país do oba-oba, onde tudo acaba em pizza, outros fatores incomodam bastante. Em especial, a postura de absoluta passividade na qual se posiciona o espectador. Mesmo diante de um garoto repleto de contradições, o discurso não abre brechas para refletirmos por conta própria a respeito das atitudes dele. Isso porque O Rei da Internet é inteiramente atravessado por uma narração em off, quase ininterrupta, de Daniel. Ele explica tudo o que pensa, o que vemos, e chega mesmo a supor o que o espectador estaria pensando: “Você deve estar se perguntando…”. Ele formula perguntas retóricas, apenas para respondê-las em seguida.

Logo, a experiência do longa-metragem se assemelha a uma sessão comentada. Daniel se dirige ao espectador com comentários maliciosos e espertinhos, lembrando-nos de que esta é apenas uma ficção. “Eu bati tantos carros que este filme não tem orçamento para reproduzir”. “Os produtores deste filme estão com medo de ser processados”. “Na vida real, a coisa é bem diferente”. “Não quero que este filme fique cafona, tá? Mas infelizmente não tinha como não falar do meu primeiro amor adolescente”. É interessante pensar que, caso fossem cortados da sobrecarregada banda sonora (que inclui uma quantidade absurda de canções), as falas não fariam falta. Isso porque limitam-se a repetir aquilo que a imagem significa por si própria, e que poderia ser intuída pelo espectador, caso nos fosse deixada uma mínima brecha para tal.

Pode-se falar, neste caso, numa ânsia por total controle do nosso olhar. Seja pela montagem fragmentadíssima, que evita deixar planos com mais de 5 segundos em tela, seja pela fotografia colorida e contrastada, há poucas nuances nesta festa do excesso pelo excesso. Para além de relatar a rotina milionária do hacker, o longa-metragem a comemora e homenageia. Enxerga como uma conquista exemplar o fato de, em tenra idade, participar de festas com jogadores de futebol e transar com quantas lindas mulheres desejar. Aliás, as pobres personagens femininas recebem um tratamento deplorável, limitadas a santas (as mães) ou prostitutas (mulheres interesseiras ou coniventes com os crimes, restritas à função sexual). O longa-metragem pode ser interpretado enquanto hino a certa masculinidade predatória na qual dinheiro, carros e mulheres existem para ser conquistados mediante a exploração de brechas no sistema. (Ser infrator o torna ainda mais macho, pois corajoso, selvagem, incontrolável).

Ao final, os criadores estão encantados demais com seu tema e seu personagem para tecer comentários a respeito dele. Desejam participar daquelas festas, se esbaldarem na esbórnia. Até a queda será vista unicamente por seu momento espetacular (a chegada dos policiais, com armas em punho) e excepcional (a posterior colaboração com a polícia, reforçando o discurso de que malandro de verdade nunca se dá mal no Brasil). A piscadela final à câmera (“Então o crime compensa?”) somente consolida a mensagem que atravessa o projeto na totalidade. É claro que ninguém esperaria uma crítica moralista às atitudes de Daniel, entretanto, este Carnaval do adolescente transante tampouco soa como uma representação óbvia para o hacker. Antes de atacá-lo ou defendê-lo, seria possível compreender o contexto onde ele se insere.

Em particular, resta a impressão de um cinema avesso ao raciocínio — algo que, por definição, exige um mínimo de distanciamento para análise. Ele adapta a estética Jackass dos anos 1990 com o pensamento de redes sociais dos anos 2020, para os quais o silêncio e a contemplação constituem pecados mortais. É preciso ter música e narração e festa e drogas e nudez e cortes e vinhetas e animação e tela dividida e comentários engraçadinhos — tudo ao mesmo tempo agora. O resultado diz muito mais sobre esta forma masculina e pseudojovem de linguagem cinematográfica do que sobre a impunidade no Brasil, ou sobre os hackers e o crime organizado. 

Logo, serve como prova de que qualquer tema pode ganhar um tratamento de escândalo, um sabor de true crime, de deleite da criminalidade alheia (quando personagens de ficção cometem infrações que nós não cometeríamos, seja por limites morais, seja por falta de conhecimento para tal). Promove certa forma de expurgo através de Daniel, junto dele — como se fôssemos amigos, convidados às incontáveis festas dos poderosos. Oferece um panorama de como seria deliciosa a vida de um garoto de 16 anos com tanto dinheiro e impunidade — benefícios raramente concedidos ao público-alvo na sala de cinema. Por isso, as consequências serão diminuídas e amenizadas, face aos prazeres da corrupção. É difícil tirar conclusões a respeito da fragilidade das leis no Brasil inteiro, mas para os criadores, pelo menos, o crime certamente compensa.

O Rei da Internet (2026)
3
Nota 3/10

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