
Julgando pelas imagens iniciais, o espectador dificilmente pressentiria a chegada de um filme de terror. Afinal, Edifício Bonfim parte de uma infinidade de captações em drone de Florianópolis, valorizando o sol e as belezas naturais. Não fariam feio em um vídeo promocional da região, ou no início destes romances a respeito de belos rapazes se apaixonando por belas garotas em locais paradisíacos. Apesar das bruxas e demais criaturas que surgem a seguir, o longa-metragem jamais abandona sua vocação turística. Trata-se de uma maneira curiosa (porém original, sem dúvida) de promover a Ilha da Magia.
A partir da ostentação da paisagem, chegam três histórias relacionadas ao universo do terror sobrenatural. Em todos os casos, pessoas relativamente céticas, ou racionais, menosprezam a capacidade de seus inimigos — sendo, em consequência, punidas por sua soberba. Ao contrário da maioria das histórias onde os heróis vencem as forças malignas e restauram a ordem das coisas, desta vez, eles são resumidos à sua insignificância face à natureza e ao transcendente. O policial tentando acelerar a negociação de uma refém (porque sua esposa está prestes a dar à luz), a mulher fascinada pela perspectiva de uma bruxa na floresta, e o formando que se estima melhor do que os professores aprendem da pior maneira possível os perigos da sua ingenuidade.
O filme transparece sua paixão pelas ferramentas do horror. Mas falta refinamento ao tratamento do gênero.
Apesar desta costura entre as narrativas, elas se distinguem consideravelmente em termos temáticos. O segundo e o terceiro episódios, no caso, possuem uma conexão evidente, em total oposição ao primeiro. Sempre foram concebidos para conviver na mesma obra? Teriam nascido como curtas-metragens, sendo posteriormente colados num único longa-metragem? Afinal, o edifício do título serve como mera desculpa para associar os três protagonistas-vizinhos. De resto, as histórias correm de modo independente, sem se cruzar. A própria câmera evita investigar os corredores, cômodos, entradas e saídas da edificação — assim como fazia, por exemplo, Prédio Vazio, de Rodrigo Aragão. O Edifício Bonfim nunca se converte em personagem.
Atenção: possíveis spoilers a seguir.
Assim, os segmentos 2 (Trilha da Costa) e 3 (Formando) se concentram na presença de psicopatas. Ainda que se acene a um elemento sobre-humano, no final, o verdadeiro risco se encontra em homens seguros de sua impunidade — ambos jovens, arrogantes, sentindo-se empoderados pela atenção que recebem. Nos dois casos, a prova pela imagem se converte em dispositivo fundamental: em Trilha da Costa, a gravação de uma bruxa pelo celular motiva a obsessão de Daniela (Gabriela Petry), e motiva a sua ruína. Em Formando, a presença da câmera de vídeo durante a consagração do aluno também constitui um elemento essencial à comprovação de uma conquista pessoal (e de um crime).
Perto destas duas histórias, a respeito de homens perigosos e suas gravações forjadas (ou seja, ambos se tornam diretores de suas narrativas pessoais), o primeiro trecho, intitulado Criatura, soa bastante deslocado. Neste caso, o protagonista representa o herói clássico, bom marido e futuro pai, encarregado de salvar uma mocinha indefesa. Enfrenta um monstro habitual, no sentido de ser uma criatura claramente não-humana, formada de partes de corpos, e dotada de uma voz semelhante à dublagem de um monstro de cartoon. (“Entre, tenente!”, grita a voz cavernosa). Ao contrário dos episódios seguintes, não há descobertas nem revelações de caráter. O mal possui garras afiadas e chega sorrateiro por trás do sujeito de boa índole. Já o bem lidera equipes e se preocupa com a esposa.
Outros desníveis se encontram no longa-metragem, a começar pelas atuações. O projeto possui bons atores, muito seguros com seus diálogos. Gabriela Petry e Vinicius Wester se destacam — ela, no papel da pessoa comum cercada por circunstâncias sinistras, e ele, no papel da pessoa sinistra cercada por circunstâncias comuns. Ambos compreendem a extensão de seus registros, sabendo navegar a chave da obsessão sem fazer caras e bocas (no caso dela), e manter certa ambiguidade entre o respeito e a psicopatia (no caso dele). Em contrapartida, outros nomes do elenco sucumbem às falas mal escritas para o registro oral. Demarcam-se por dicções robóticas, excessivamente impostadas e articuladas, que prejudicam a verossimilhança da cena.
Em paralelo, o trabalho ostensivo de maquiagem chama atenção demasiada a si próprio. A fotografia ilumina em excesso estes monstros e bruxas, impedindo qualquer mistério ou adivinhação por parte do espectador. Aliás, os seres surgem de lugar nenhum, e partem para onde quer que seja. Não possuem vontades nem objetivos. A linguinha tremulante da bruxa está muito mais próxima de uma paródia do ser maligno do que de uma tentativa real de gerar tensão. Teria sido fundamental construir estes personagens enquanto adversários, movidos por alguma vontade específica, dotados de personalidades particulares, com suas forças e fraquezas. No estado em que nos são revelados, limitam-se a estranhezas, a fantasias, a arquétipos.


Aliás, para uma obra que traz um prédio no título, e começa com um verdadeiro festival de drones, surpreende o desinteresse da direção pelos espaços. Nunca conhecemos de fato a floresta (o que nos impede de nutrir medo ou interesse pela mesma), nem o prédio onde se encontra a refém do monstro, e menos ainda, esta instituição onde se forma o psicopata da terceira história. Nem as durações são propriamente trabalhadas. O senso de urgência do tenente diante do nascimento da bebê; a escalada da fixação de Daniela pela bruxa, e o crescimento da ambição do estudante são meramente citados, mas não trabalhados. Ora, tempo e espaço constituem dois elementos essenciais a qualquer mise en scène, sobretudo, no caso do terror.
Resta um projeto que, pelo menos, transparece sua paixão pelas ferramentas do horror, sem meios-termos. A diretora Lígia Walper manifesta orgulho por seus monstros, que perversamente se impõem sobre as vítimas. Poucas estreias desta natureza chegam ao cinema brasileiro, de modo que o lançamento no circuito comercial seria motivo de comemoração em si próprio. Em contrapartida, falta refinamento ao tratamento do gênero, desde a construção dos diálogos, das motivações dos personagens, até o clima e a ambientação. A maneira como as criaturas aparecem (e somem), além do que nos permitem ver e o que ocultam, são fundamentais na relação com o espectador. (Lembrando que o não-visto pode ser muito mais aterrorizante do que o visível, e que uma bruxa fazendo caretas representa o oposto de uma aparição espantosa). O projeto careceria de maior pensamento de luz, de direção de arte e de montagem, além da coesão no registro com atores. Mesmo assim, significa um passo louvável rumo à familiaridade do espectador brasileiro com o terror nacional.




