
Na imagem inicial, coiotes andam no metrô de Nova York. Possuem cabeça de animais, mas corpos humanos. Por isso, portam-se como qualquer passageiro habitual dentro do veículo, segurando-se nas barras, olhando a tela do celular, caindo de sono. O longo plano de abertura sintetiza a abordagem desta animação, que decide inserir animais humanoides em cenários bastante realistas. Apesar do estranhamento inicial, logo nos habituamos às ruas sujas, ao cenário úmido e populoso, típico do cotidiano de classe-média nas metrópoles. Nem no retrato estadunidense, nem nas viagens da protagonista ao Marrocos natal, encontra-se qualquer forma de idealização dos espaços.
Ora, a discreta animalização destas mulheres permite às diretoras Orian Barki e Meriem Bennani retratar certas intimidades que dificilmente seriam aceitas com tamanha ludicidade no live-action (ou mesmo na animação de feições humanas). Afinal, o lesbianismo da protagonista constitui um elemento central da trama. Bouchra se relaciona com diversas mulheres. Beija, acaricia, faz sexo — do pescoço para baixo, o corpo equivale precisamente à anatomia humana. O desenho com foco fantástico (o fio de baba que une as duas bocas, em plano de detalhe) ou cômico (a protagonista desenhando as poses sexuais experimentadas na véspera) garantem que o público se divirta mais do que se incomode.
Uma bem-vinda elaboração das relações lésbicas atuais. Mesmo assim, soa o alerta quanto à tendência insistente da autobiografia enquanto único lugar de fala possível
Desta maneira, o longa-metragem aborda a homossexualidade, a identidade árabe, a crise profissional, o senso de não-pertencimento em outro país. Transita por questões comuns — o desemprego, o flerte na rua, os programas banais na televisão e a cultura pop-fútil em geral — para aliviar, ou pelo menos diluir, a gravidade de seus temas centrais. Trata-se de uma obra leve e agradável, que evita transformar a tensa relação entre mãe e filha num calvário de sofrimentos. Assim, a coiote pode fazer as pazes com a matriarca marroquina, de quem se afastou após a revelação do lesbianismo, sem converter a experiência num melodrama chantagista. Nota-se a preocupação em preservar ambas as partes, fugindo ao maniqueísmo.
Em particular, a narrativa desenvolve um aspecto raro em projetos LGBTQIA+. As autoras descrevem a sensação de um coming out pela metade, ou jamais finalizado. Quando se assume lésbica à família, a heroína não obtém alívio, nem conquista a sonhada liberdade em relação ao assunto. Pelo contrário, troca o segredo por um tabu. Daquele ponto em diante, todos sabem de sua orientação, porém convém não tocar no assunto, devido à dificuldade da família conservadora em lidar com a questão. Mesmo assumida, Bouchra ainda viaja “com as amigas” quando passa um fim de semana junto à namorada. A atriz que interpreta sua companheira no filme-dentro-do-filme será descrita à mãe, durante uma visita ao set, como a pessoa contratada para “um papel importante”. Eufemismos se fazem necessários no intuito de elaborar algo que permanece delicado, e parcialmente adormecido. As verdades são empurradas para baixo do tapete.
A propósito deste filme-dentro-do-filme, convém ressaltar a decisão da heroína em realizar um longa-metragem a respeito de sua relação com a mãe. Por isso, contrata atores, escreve roteiros e desenha storyboards diretamente ligados à sua vivência pessoal. “Talvez este filme te permita seguir em frente”, admite a mãe. Ela pede desculpas pela dificuldade em abraçar a filha em sua plena identidade. “É culpa de como fomos formatados”, pondera. Assim, todas as reflexões que o espectador poderia ter a respeito deste projeto fictício e metalinguístico são explicitadas pela própria direção. Colocam-se na boca das personagens as mensagens necessárias a respeito de expiação via arte e acertos de conta simbólicos por meio da ficção.
Assim, o espectador se restringe a uma posição passiva, receptiva, ao invés de convidado a participar do processo de significação. A obra se enfraquece ao entregar uma “moral da história”, ou ainda, ao oferecer prontamente a síntese (a comunhão é possível via arte) à sua própria tese (Bouchra precisa de aceitação) e antítese (a mãe tem dificuldade de aceitá-la). O caráter didático e otimista decorre da disposição em encerrar definitivamente os dilemas, fechando as cicatrizes por meio de um final feliz, catártico e milagroso — uma vez concretizado o projeto da diretora-coiote, os laços estão atados novamente. Basta fazer seu próprio filme, basta criar. A noção de que toda arte decorre de uma dor ou trauma, e de que a criação deriva necessariamente de uma questão íntima mal-resolvida, apenas reforça estereótipos a respeito de artistas em crise, perturbados. Este olhar os afasta de uma perspectiva profissional — não por acaso, a criação de Bouchra se completa abruptamente, sem esforço.
Em paralelo, a animação se esforça para impressionar, apesar das evidentes restrições orçamentárias. Diante do desafio de animar pêlos, manchas e texturas de animais, as autoras recorrem a uma paleta de cores assumidamente escura, que oculta detalhes nos cenários, roupas e corpos. Em consequência, diversas cenas são compostas pela coiote preta beijando outra animal preta, num apartamento escuríssimo, mergulhado nas sombras da noite. Certo aspecto cyberpunk decorre das jaquetas, dos brilhos nos olhos, desta urbanidade suja e desejante. Mesmo assim, as cores são queimadas, desbotadas, preferindo mínimas silhuetas no espaço a uma fotografia marcada por vários pontos de luz, que teria favorecido texturas e volumes de cena.


Percebe-se, em paralelo, a tendência a privilegiar figuras paradas no espaço, ou efetuando movimentos limitados. Quando as personagens são convidadas a efetuar deslocamentos amplos (o salto do desfiladeiro, a dança árabe), as restrições na animação se fazem sentir. Mesmo assim, o resultado demonstra uma estética pessoal, incomum, mesclando composições plenamente naturalistas (as ruas de Nova York, animadas a partir de captações fotográficas) com outras puramente fantasiosas (o vão do elevador formando uma boca que interroga a protagonista). Os estranhamentos são simples, evitando enveredar para qualquer experimentalismo radical. Afinal, esta é uma proposta de poucos riscos, lançando conflitos apenas pelo prazer de resolvê-los em seguida.
Ao final, resta uma bem-vinda elaboração das relações lésbicas atuais, recorrendo a pequenos deslocamentos do real para melhor comentá-lo. O olhar feminino a questões femininas, e obviamente pessoais, transmite o conhecimento de causa, além da abordagem cuidadosa, avessa a estereótipos ou simplificações. Mesmo assim, soa o alerta quanto à tendência insistente da autobiografia enquanto único lugar de fala possível — se estou autorizado a discutir somente aquilo que conheça bem, e que corresponda à minha vivência, então falarei de mim mesmo. O filme-dentro-do-filme, a redenção via ficção, e a sinceridade de expor os próprios medos já constituíram gestos surpreendentes 25 anos atrás, mas hoje, apenas denotam uma zona de segurança, junto à recusa de mirar para fora da própria bolha. É bem possível, e desejável, também falar de si a partir da maneira como se percebe o outro.




