Fractais Tropicais (2026)

Apenas o apocalipse

título original (ano)
Fractais Tropicais (2026)
país
Portugal, Brasil
linguagem
Ficção Científica, Experimental
duração
72 minutos
direção
Leonardo Pirondi
elenco
Ivo Müller, Valentina Rosset, André Bohn, Fernando Siqueira, Utkarsh
visto em
50ª Mostra de São Paulo (2026)

O que constitui uma ficção científica? Quais elementos um filme precisa ter para ser incluído no gênero? Espaçonaves? Viagens no tempo, ou dispositivos espaciais? Transformações da matéria? Computadores ultra avançados e telas translúcidas? Que cores, luzes e sons vêm à mente quando se pensa nos maiores clássicos do gênero: o azul neon das naves? Os barulhos mecânicos, as grandes trilhas sonoras orquestradas nas conquistas galácticas? Estas perguntas vêm à mente diante de Fractais Tropicais, produção luso-brasileira de baixo orçamento, que imagina uma distopia futurista.

No caso, o mundo acabará em cinco anos. O aquecimento global leva a maremotos gigantescos, responsáveis por inundações que, certamente, extinguirão com a vida no planeta. Enquanto um humano sobrevive no planeta deserto, um grupo de cientistas investiga a biologia preservada a bordo de uma espaçonave. Efetuam coletas e estudos de plantas, submetidas a análises em equipamentos de alta tecnologia. Gravam diários em vídeos para a posteridade. Assim, pressupostos da distopia apocalíptica se combinam com a fábula ecológica e as viagens espaciais, na concepção do diretor Leonardo Pirondi, que também assina roteiro, fotografia, montagem, produção (com Paulo Carneiro), som (com Craig Smith) e direção de arte (com Zazie Ray-Trapido e Rachel Nakawatase). 

A artificialidade é assumida neste projeto que evoca o imaginário da fantasia sem necessariamente reproduzi-la.

As soluções encontradas para representar acontecimentos de tal magnitude são criativas. Imagens do lançamento de foguetes, e capturas da Terra vista de longe se encarregam de sugerir a viagem. Depois disso, a principal cientista espacial (interpretada por Valentina Rosset) será vista com uma luz direcional sobre o rosto, escurecendo tudo ao redor. Isso dispensa a equipe cinematográfica de recriar o interior da “nave espacial minúscula” mencionada pela protagonista. (Precisamos simplesmente acreditar que o rosto sobre um fundo infinito encontra-se, de fato, no espaço). Os cientistas deslocam-se pelas estufas com camisas pretas de gola alta, tais quais dirigentes de big techs. Já o andarilho (Ivo Müller) desloca-se a esmo, com seu cantil e uma panela presa à mochila. Este último sofre de solidão? Espera encontrar outra pessoa? Nunca sabemos. Não há psicologia na Terra.

Ora, através desta abordagem singular, o cineasta oferece ao espectador a oportunidade de enxergar o planeta através de um distanciamento — literal, neste caso. Enquanto a montagem salta das galáxias às plantas; e do planeta aos riachos, sem distinção real do micro ao macro, trata de efetuar associações improváveis. Transforma frutas e animais em protótipos robóticos de um sistema informático — o Museu Digital da Humanidade —, enquanto aposta em linguagens não naturalistas (o preto e branco contrastado, as captações coloridas ultrassaturadas). A artificialidade é assumida neste projeto que evoca o imaginário da fantasia sem necessariamente reproduzi-la. Lidamos com arquétipos do gênero (a cientista, o sobrevivente) ao invés de personagens dotados de subjetividades singulares.

Em grande parte, o dispositivo funciona. Existe um aspecto lúdico, melancólico e parcialmente cômico na maneira como o computador se mostra incapaz de formular o que seria um humano. A imprevisibilidade na captação de registros e cenários solicita atenção constante do espectador, que precisa juntar sozinho as peças do quebra-cabeça e ainda preencher algumas lacunas entre a incoerência lógica e a liberdade poética (sobretudo, no que diz respeito à sobrevivência do homem na Terra). Fractais Tropicais oscila entre um aparente naturalismo e a fantasia inventada, um faz-de-conta do cinema de gênero. Às vezes, leva a sério a percepção de uma ciência, mas em outros instantes, manda a verossimilhança às favas.

Em contrapartida, algumas escolhas prejudicam a potência do resultado. A narrativa revela todas as suas cartas ao espectador desde o princípio, consagrando-se a seguir a uma repetição de estilos e associações. Isso significa que, passados 15 ou 20 minutos, teremos visto todos os recursos concebidos pela direção, sem desenvolvimento ou novidades destas ferramentas até o desfecho. Para cada imagem cuidadosamente elaborada (caso das captações em película, de forte contraste e cor), outras levam a jornada de volta a um aspecto caseiro, amador (os rostos dos cientistas sob fundo branco, deitados, em baixa qualidade digital). Alguns materiais resultam profissionais e polidos (caso dos lançamentos de foguetes), enquanto outros se aproximam da alusão poética (as imagens no computador espacial). Afinal, Pirondi deseja efetuar uma ficção científica autônoma, digna de crença, ou um pastiche deslocado do mesmo?

Além disso, a atuação central, cuja voz conduz a trama, sustenta um tom blasé, de difícil identificação neste contexto. A cientista demonstra indiferença, um cansaço crônico face a qualquer descoberta ou frustração com o empreendimento. A condução monocórdica do texto reveste as falas de um aspecto estranhamente teen, com os olhos semicerrados da atriz e a entonação de quem reclama de seu trabalho enfadonho. Nunca há qualquer forma de maravilhamento, muito menos de catarse nestas figuras: a profissional encara a missão de salvar a humanidade como um turno qualquer de uma grande empresa; ao passo que o andarilho se desloca como quem efetua turismo ecológico. O fim do mundo nunca foi tão… desencantado.

Resta, por fim, uma iniciativa arriscada. O melhor aspecto do longa-metragem se encontra na disposição a explorar diferentes registros e pontos de vista, testando os próprios limites deste mecanismo no interior do cinema de gênero. Existe um caráter metalinguístico nesta jornada que evoca tanto um episódio particular quanto todo um imaginário de filmes e narrativas precedentes. Pirondi não se mostra tímido, nem ávido por agradar a qualquer preço. Evita as concessões narrativas que tornariam o resultado mais palatável ao público médio. Adota um tom particular, uma conduta única, em ritmo etéreo — algo raramente associado a um subgênero conhecido pelo espetáculo. Precisamente, a obra retira do apocalipse seu pathos, acompanhando o fim da humanidade, e as tentativas de salvá-lo, enquanto gestos banais de um cotidiano possível. Algo deste descaso pelo grande estado das coisas, ou desta aparente indiferença por um senso de coletividade, dialoga muito com o contexto político das sociedades contemporâneas.

Fractais Tropicais (2026)
6
Nota 6/10

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