S.S. Rajamouli é considerado um dos mais importantes cineastas da indústria indiana. Com 25 anos de carreira dedicados aos grandes épicos de ação, ele instaurou a franquia Baahubali (2015 – 2026) e conquistou sucesso mundial (além do Oscar) com RRR: Revolta, Rebelião, Revolução (2022). Em particular, provou que os longas-metragens realizados em língua telugo, e produzidos fora de Bollywood, podem ter grande alcance nacional e internacional.
O diretor se encontra no Brasil para a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, apresentando RRR na tela grande e conversando com a imprensa a respeito da indústria indiana. Ele se encontra em fase final de preparação de Varanasi, uma megaprodução baseada na mitologia indiana.
Ao Meio Amargo, ele compara as produções indianas com Hollywood e avalia sua carreira:

Você construiu uma carreira inteiramente dedicada aos épicos de ação. Por que o interesse neste gênero em particular?
S.S. Rajamouli: Esse interesse existe desde a infância, quando lia as histórias em quadrinhos de Amar Chitra Katha, e as histórias da mitologia indiana. Então sempre tive interesse pela ação, desde que me conheço por gente. Ainda tinham os filmes de Hollywood que passavam nos cinemas, com aqueles grandes espetáculos de ação nas telas… Isso aumentou a minha paixão pelo gênero.
Ao mesmo tempo, sua ação é bastante diferente do estilo de Hollywood.
S.S. Rajamouli: Olha, no início da carreira, quando trabalhava como assistente do meu pai, que era roteirista, e também nos primeiros tempos em que comecei a dirigir, percebi que ação e emoção estão intimamente ligadas. Se a emoção serve como base para a ação, ela intensifica o efeito e, por sua vez, a ação intensifica a emoção. É como a relação entre pressão e temperatura. Percebi isso muito cedo na minha carreira.
Então, quando nos sentamos à mesa para escrever um roteiro, essa é a coisa mais importante que levamos em consideração. Posso ter cenas de ação em escala enorme, mas elas estão impulsionadas por algum tipo de emoção? O público está apenas apreciando o espetáculo, ou está sendo atraído para as emoções das personagens? Isso é muito importante.
Você tem muitos projetos de grande porte, mas me parece que os maiores fenômenos foram Baahubali e RRR. O que acredita que aconteceu nesses casos específicos?
S.S. Rajamouli: Bem, são dois casos diferentes. Baahubali foi a oportunidade para, de repente, romper uma estrutura consolidada. Até então, a ideia predominante nas indústrias cinematográficas era a de que um filme falado em telugo só poderia chegar ao público telugo. Na Índia, temos várias indústrias cinematográficas, com muitos idiomas e regiões, e essa era a concepção existente.
Pela primeira vez, com Baahubali, rompemos essa barreira ao acreditar que um bom filme poderia circular por todo o país. E investimos muito dinheiro, colocamos tudo o que tínhamos no filme. Assim, surgiu o fenômeno do filme pan-indiano.
Com RRR, foi diferente. Sabíamos que poderia haver algum alcance mundial, em certo nível. Mas nunca esperei tamanha recepção do público estrangeiro. Sinceramente, eu não tinha ideia de que isso poderia acontecer. Pensava que talvez fosse bem no Japão, por exemplo. Mas esse sucesso fenomenal em tantos países do mundo, incluindo no Brasil, onde RRR ficou entre os títulos mais assistidos da Netflix durante muitas semanas, me pegou de surpresa. Por que ele fez tanto sucesso? Não sei dizer.
Depois de tantos feitos na ação, o que gostaria de colocar em prática no gênero, mas ainda não conseguiu fazer?
S.S. Rajamouli: Sem dúvida, todos os sucessos que alcancei e todos os filmes que fiz são pequenos, minúsculos, em comparação com aquilo que ainda pode ser alcançado. Há muito mais possibilidades, mais coisas por explorar. Estou tentando realizar algumas delas com Varanasi. É um projeto muito ambicioso, repleto de possibilidades, mas, como sempre digo, impulsionado pelas emoções.

No Brasil, os filmes indianos praticamente não chegam às salas de cinema. O pouco que conhecemos desta produção se encontra no streaming — logo estes filmes espetaculares, que se sairiam tão bem na tela grande. Como enxerga o papel do streaming na difusão dos seus projetos?
S.S. Rajamouli: Tenho uma relação de amor e ódio com o streaming. O meu batismo no cinema aconteceu por meio das salas de cinema, vendo filmes na tela grande, com as cortinas se abrindo, o projetor começando a funcionar, o som e as imagens aparecendo na tela. É a experiência de ter muitas pessoas reunidas, mesmo que totalmente desconhecidas, reagindo ao que acontece na tela simultaneamente. Essa foi a minha iniciação no cinema.
O streaming é diferente. Mas, graças ao streaming, meus filmes estão sendo vistos por pessoas do mundo inteiro. Se não fosse pelo streaming, ninguém no Brasil teria conhecido RRR. Idealmente, não quero colocar uma coisa contra a outra. As duas podem coexistir. Assistir a um espetáculo na tela grande de uma sala de cinema — e nem precisa ser um filme de ação; pode ser uma comédia maravilhosa, que nos faz rir junto com 200 ou 300 pessoas ao redor — é uma experiência completamente diferente de assistir em casa, ou sozinho pelo celular. São duas experiências diferentes, que podem e devem coexistir, mas não deveriam ser colocadas uma contra a outra.
Graças à Mostra de São Paulo, os seus filmes serão exibidos na tela grande no Brasil pela primeira vez.
S.S. Rajamouli: Sim, e isso é absolutamente gratificante. Preciso dizer isso, porque, para um cineasta, quando sua história chega a um país completamente diferente, com uma cultura completamente diferente, com pessoas diferentes, e elas apreciam o filme da maneira como você pretendia que ele fosse apreciado, eu me sinto recompensado.
Agora temos a oportunidade de exibir RRR na tela grande, em uma sala de cinema, de maneira limitada. Ainda assim, isso me parece um primeiro passo para trazer mais filmes indianos para cá e apresentá-los ao público brasileiro. Espero que, com Varanasi, eu consiga abrir um pouco mais essas portas. É isso que estou realmente buscando.

A Índia possui uma indústria muito sólida para projetos deste porte. Como funciona o sistema de financiamento e estímulo às produções?
S.S. Rajamouli: Os filmes indianos são feitos de uma maneira diferente da indústria americana, por exemplo. Não sei como os filmes são feitos no Brasil, mas o nosso sistema é diferente de Hollywood. Não temos sistemas de estúdios consolidados como aqueles dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, na Índia, temos várias indústrias cinematográficas paralelas. Bollywood é a mais popular, aquela que mais pessoas conhecem. É a indústria cinematográfica de língua hindi.
Eu venho da indústria cinematográfica telugo. Há também as indústrias de língua tâmil, malaiala, canarês e assim por diante. A maioria das outras indústrias se financia por conta própria, com o produtor levantando o dinheiro sozinho. Ele mesmo faz o filme e o lança, ou seja, vira uma produção independente. Portanto, todos os filmes são produções independentes. É assim que as coisas vêm funcionando.
Mas, quando chegamos a filmes como Varanasi, que é uma produção realmente enorme, realizar a produção sem o apoio de um estúdio, com o próprio produtor responsável por ela, só é viável porque tenho alguns sucessos anteriores.
Filmes como RRR e Varanasi exigem muita confiança dos produtores. Assim, conseguimos algumas pré-vendas do filme, que ajudam a financiar a produção, mas o restante do dinheiro precisa ser levantado pelo próprio produtor. É um modo de operação diferente, mas vem funcionando muito bem.
Tenho a impressão de que a indústria indiana preserva um star system que Hollywood perdeu. Os grandes astros ainda arrastam multidões às salas, não?
S.S. Rajamouli: Sim, na Índia, as estrelas ainda atraem uma grande parte do público inicial para as salas de cinema. Chamamos isso de openings, ou seja, a bilheteria de estreia. Então, se você tem uma grande estrela, o fim de semana de estreia está praticamente garantido nas bilheterias. Mas, depois disso, o filme precisa se sustentar por conta própria. Se não for um bom filme, se não tiver uma boa história, se não for impactante, o público começa a diminuir a partir do próprio domingo.
Mas, ainda assim, conseguir aquele fim de semana de estreia é algo muito importante. Uma grande parte do dinheiro é recuperada logo no primeiro fim de semana. Portanto, as estrelas continuam sendo fundamentais. É por isso que seus salários são tão altos!
Quanto a Varanani, podemos esperá-lo em 2027?
S.S. Rajamouli: Sim, com certeza. Estamos mirando num lançamento por volta do mês de abril. Ainda é preciso pensar com calma na estreia, mas definitivamente quero viajar pelo mundo levando meu filme, apresentando-o ao público, mostrando-o a diferentes públicos e fazendo dele uma notícia global.



