London (2026)

O corpo como lar

título original (ano)
London (2026)
país
Brasil
gênero
Drama
duração
90 minutos
direção
Victor Di Marco, Márcio Picoli
elenco
Victor Di Marco, Jéssica Teixeira, Pedro Bertoldi, Carla Cassapo, Priscilla Colombi, Emílio Farias, Manu Thedy
visto em
50ª Mostra de São Paulo (2026)

Os olhares voltados a London (Victor Di Marco) costumam transparecer uma curiosidade intrusiva. Durante o dia, as pessoas prestam atenção ao suporte acoplado à perna, ou à expressividade do rapaz com deficiência. Enxergam-no por sua diferença, ao invés de uma identificação de igual para igual. Por isso, cansado de tantos julgamentos e opiniões, ele prefere a noite. Mais especificamente, o ambiente dos inferninhos eróticos, onde efetua atendimentos envolvendo fetiches com plástico-filme. Ali, na potência sexual, os corpos encontram certa forma de equivalência. Quem prestaria atenção ao plástico branco preso ao pé, quando há trajes fetichistas, atos sexuais e flerte pelos corredores?

O longa-metragem dirigido por Victor Di Marco e Márcio Picoli retrata muito bem a maneira como o universo queer abraça a diferença enquanto valor ou, pelo menos, mero componente de uma identidade não-normativa. Para além da questão de orientação sexual e identidade de gênero, os redutos queer abraçam e festejam a alteridade. Estes espaços permitem maior autonomia sobre si, além de uma autoestima reforçada devido ao potencial social e libidinoso destes espaços — os olhares voltados a London, no trabalho, são desejantes ou amigáveis, nunca piedosos. Não há diferença significativa entre ele e os dois principais amigos, também PCDs. A obra se destaca pela maneira acolhedora como representa os bares e os encontros noturnos. 

O drama transparece uma maturidade cinematográfica incomum para um primeiro longa-metragem.

No resto do tempo, o resto da sociedade bate à sua porta. O médico insiste em mais exames para determinar seu diagnóstico preciso. A mãe cobra maior presença de London em casa, junto à irmã pequena, que apresenta os primeiros traços de uma possível limitação cognitiva. Os laudos médicos literalmente tocam a campainha, em uma das ferramentas poéticas encontradas pelos autores. Ao menos, os encontros sexuais também vêm visitá-lo, mediante convite do anfitrião. Ao invés de levar seu herói às ruas, o dispositivo traz os representantes da família, da medicina e do corpo normativo para dentro da casa — este espaço onde London, que vive sozinho, demonstra tanta dificuldade em instalar, sozinho, uma cortina. Ora, sua deficiência significaria algum impeditivo determinante? Ou, assim como faz com as plantas, poderia utilizar as mãos trêmulas para encher uma garrafa d’água e regar o vaso em simultâneo?

O drama apresenta uma série de bandeiras fundamentais aos diretores, e também presentes em seus curtas-metragens anteriores. Defende-se o corpo DEF enquanto potência, ao invés de falta ou equívoco. Logo, não seria necessário corrigir uma PCD, nem tentar torná-la o mais próximo possível da “normalidade” capacitista. Haveria uma estética própria, uma linguagem particular, e caberia ao resto da sociedade ir de encontro a estes indivíduos, ao invés de esperar deles um esforço para se encaixarem nas regras determinadas pela maioria. Sobretudo, critica-se a patologização do corpo com deficiência, manifestada pelo imperativo de diagnosticar, medicar, operar, interferir. London se exclama, com todas as palavras: “Eu não quero ser a minha deficiência!”. Em outras palavras, isto não o define.

É possível que, em alguns instantes, as explanações soem um pouco didáticas. A discussão com a mãe, a respeito do possível fardo ou vergonha de um filho com deficiência; e o debate com o melhor amigo, centrado na recusa em ir ao médico, embutem no diálogo, de maneira direta, tudo aquilo que os autores gostariam de transmitir ao espectador. Entretanto, dada a raridade de longas-metragens DEF no Brasil, realizados por PCDs, e com PCDs no papel principal, talvez os argumentos viculados sejam menos pedagógicos do que introdutórios. Marco e Picoli vêm traçando um caminho de pesquisa essencial na estética queer DEF, entrecruzando estas duas áreas para compreender suas especificidades de linguagem e narrativa.

Por isso, a obra transparece uma maturidade cinematográfica incomum para um primeiro longa-metragem. O projeto alterna sua narrativa clara e direta com fragmentos de experimentações muito bem-vindas. Os amigos lambuzando-se em negativo, ou as sessões de London com plástico são filmadas com a naturalidade de quem enxerga um cotidiano qualquer. Muito mais inóspitas são as cenas diurnas, captadas em luz natural, e tão frustrantes para o protagonista. Logo, o filme consegue articular poesia e política; o mundo como ele e o mundo como gostaria que fosse. Existe espaço para o realismo social, mas igualmente para algo próximo da fantasia, com as luzes fortes do inferninho, e os filtros avermelhados das cortinas transparentes quando os amigos deitam juntos sobre a cama. 

Até os encontros sexuais com uma amiga resultam leves, amistosos. Os autores retiram do sexo seu tabu e teor de fascinação, enxergando-o enquanto gesto de carinho. A bissexualidade descomplexada do garoto, e as conversas muito tranquilas com Luiza (Jéssica Teixeira) desvestem o corpo com deficiência de uma aura de mistério ou fetiche. Não há nada mais normal, nesta obra, do que ser PCD. Isso é transmitido sem gritos, sem a vontade de chocar, nem ensinar verdades. A narrativa jamais toma seu espectador por mau aluno, tampouco por filho malcriado que precisaria de uma correção. Transmite seu ponto de vista de forma orgânica, articulando conflitos centrais (o diagnóstico, a relação com a mãe) com instantes de bem-vinda abertura ao cotidiano (as idas e vindas pra casa, o cafezinho no boteco do bairro).

A iniciativa ainda cresce graças às excelentes atuações centrais. O cinema brasileiro começa a conhecer o trabalho de Victor Di Marco enquanto ator, além de cineasta e roteirista, percebendo a versatilidade e a potência que é capaz de apresentar. Jéssica Teixeira tem sido uma grata surpresa tanto em curtas-metragens recentes quanto neste longa, efetuando uma ótima parceria de provocações com o protagonista. Não por acaso, as melhores cenas de London decorrem da interação entre o herói e sua melhor amiga. Aos poucos, os criadores introduzem no cinema brasileiro outras maneiras de pensar corpos, identidades e capacidades de seus atores. Investigam a estética queer, mas também as possibilidades de um cinema marginal bem brasileiro, erguendo progressivamente as bases de um cinema DEF em torno do qual muitos outros artistas ainda virão. 

London (2026)
8
Nota 8/10

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