
Elza é um documentário despreocupado em resumir a vida da grande cantora brasileira. Rejeita os letreiros explicativos e a narrativa da juventude à morte, assim como os depoimentos de pessoas próximas, atestando o valor da artista. Desta forma, o experiente cineasta Eryk Rocha escapa à armadilha do filme-homenagem, do tipo que apenas acumula elogios ao biografado, reiterando o óbvio. Ele prefere que Elza Soares fale por si própria, em diversas entrevistas ao longo da vida. Como ela enxerga sua carreira, sua raça, seus relacionamentos amorosos, seu posicionamento político? O que ela gostaria de frisar a respeito de si própria?
Em primeiro lugar, a mulher faz prova de notável lucidez. Possui plena consciência de seu valor e pioneirismo — sem arrogância, porém, dispensando igualmente a falsa modéstia. Afirma vir do “planeta fome”, e falar em nome dos favelados. Considera-se “mulher, menina, negra, grandiosa. Cheguei para defender a raça”. Declara, inclusive em idade avançada, o apreço pelo sexo, percebido como “alimento da alma”. Ao mesmo tempo, descreve suas apresentações nos termos do “tesão pelo palco”. A protagonista também traça, por conta própria, paralelos audiovisuais, ao declarar que Elza por Elza seria “cinematográfico”, e afirmar que as recordações da juventude equivalem a um “filme passando na minha cabeça”. Ela oferece referências, metáforas, fatos, sensações. Um banquete completo.
O documentário transborda de vitalidade e beleza plástica. Mas o silêncio diante do caso [de violência doméstica] atenua o alcance da obra.
Enquanto isso, o cineasta busca referências capazes de representar aquilo para o qual não dispõe de captações diretas. Em oposição a tantos criadores que se limitam ao show and tell (mostrando ao espectador exatamente aquilo que o som descreve), Rocha prefere alusões aos episódios trazidos pela artista. Em particular, recorre a outros ícones da negritude nas artes brasileiras. Quando Elza cita o pai, vemos imagens de Grande Otelo. Durante a citação dos primeiros passos na vida artística, enxergamos as jovens Ruth de Souza e Zezé Motta. Desta forma, o autor garante que a trajetória não se restrinja a uma cantora excepcional, compondo um movimento mais amplo de afirmação de vozes negras. Elza representa uma transformação social, verbalizando as demandas de uma comunidade maior do que si mesma.
Desta forma, surpreende no longa-metragem o vasto material de arquivo encontrado e trabalhado a partir de uma direção de fotografia tão coesa. O som de cada depoimento prova-se impecável, assim como impressiona o impacto das imagens poéticas utilizadas para transmitir devidamente o fervor da cantora. Enquanto privilegia a janela mais próxima do quadrado, e os close-ups no rosto que canta e conversa, Rocha também permite que frestas de poesia se contraponham à percepção da artista a respeito de seu percurso de vida. O estilo nunca busca chamar atenção excessiva a si mesmo — vide a passagem orgânica e discreta ao formato mais retangular da imagem —, mesmo assim, valoriza a força de cada segmento. Por isso, a montagem preserva a apresentação completa de Se Eu Quiser Falar com Deus, enquanto repete os versos de A Mulher do Fim do Mundo na forma de um mantra.
Por isso, o documentário transborda de vitalidade e beleza plástica. Rocha, quase um pintor dos seus enquadramentos, não tem medo da cor, das composições improváveis, da textura. É muito valioso que uma artista desse porte seja reconhecida por meio de uma abordagem que também se esforça em atingir semelhante criatividade e vigor. O cineasta troca a conclusão melancólica da morte por uma festa de aniversário, celebrando sua vida. Prefere nos deixar com a lembrança de uma figura marcante, e politicamente incisiva, ao invés de se ater ao instante que pôs fim a esta jornada. Desta forma, garante que Elza Soares continue ecoando e influenciando gerações. A ruptura com a linearidade e a cronologia ajudam a minimizar a expectativa de uma finalidade.
Em contrapartida, algumas escolhas pontuais prejudicam o resultado. A primeira delas diz respeito à aparente indefinição na hora de concluir. Mesmo que, felizmente, a obra descarte a morte como término previsível, tampouco determina ao certo quando pretende encerrar este ciclo. Três ou quatro propostas de final, todas elas muito válidas, se sucedem, arrastando um desfecho que se mostraria mais memorável caso evitasse a redundância. A segunda escolha incômoda, e a mais importante delas, reside na opção por ignorar o histórico de violência conjugal com o marido Garrincha. Por algum motivo, os criadores optam por nunca verbalizar as sucessivas agressões sofridas pela cantora. Menciona-se a bebedeira de Mané, o relacionamento turbulento, o divórcio — entretanto, jamais os atos fundamentais à opção pela ruptura.


Adiante, a cantora entoa os versos de Maria de Vila Matilde, relacionados a abusos conjugais. Ora, nada determina que esta realidade também fosse a sua — a artista poderia perfeitamente cantar tais versos na condição de um eu-lírico. Por que ocultar uma passagem tão importante da vida de Elza Soares, se ela mesma falou a respeito, cantou estes acontecimentos, e os denunciou a seguir? Por que preservar as descrições de Garrincha como “figura mais dócil” do mundo, tendo amado a protagonista profundamente, enquanto evita o sofrimento decorrente do companheiro? Certo, uma atenção exagerada neste episódio levaria ao sensacionalismo, que claramente não interessa ao diretor — ainda bem. Entretanto, o fato de nunca explicitar algo tão marcante soa como uma omissão moral e eticamente contestável.
Logo, o silêncio diante deste caso atenua o alcance da obra, que aborda como tabu algo que nem Elza, nem as mulheres inspiradas nela, desejaram manter. O final se concentra na relação com o público, revelando diversas mulheres jovens na plateia de um show, entoando a plenos pulmões o verso “Você vai se arrepender de levantar a mão pra mim”. Faltou, em contrapartida, contextualizar tal acontecimento. Ressalvas à parte, resta um projeto forte, dedicado, e criativo em sua proposta de encontrar materiais de arquivo e estímulos sonoros capazes de dialogar com Elza, ao invés de se tornar refém somente daquilo que a cantora possa oferecer, em registros antigos. Rocha cria junto de sua protagonista, ao invés de se contentar com um filme sobre ela. Desta maneira, reforça a importância do documentário de invenção — sobretudo dentro do subgênero tão desgastado das biografias de ícones musicais.




