
Neste filme, imagem e som contam histórias diferentes — ou talvez componham a mesma história a partir de caminhos distintos. Atendo-nos apenas às captações contemporâneas da cineasta Paz Encina, podemos nos julgar diante de uma obra melancólica, serena, de contemplação. Crianças brincam numa lagoa. A bela paisagem silenciosa se encontra à disposição dos pequenos — ninguém chega para perturbá-los. Ele percorrem a floresta, descobrindo plantas e objetos pelo caminho. Dentro de uma casa, há frutas sobre a mesa. No quintal, outra fruta apodrece. Logo, estes seriam meros retratos cotidianos da infância, correto?
Não exatamente. Em sua insistência e repetição, estes registros aparentam carregar certo mistério — uma forma de inquietação. Por que, subitamente, o garoto encara a câmera, se o dispositivo soava “escondido” até então? Não seria perigoso ele carregar uma faca tão grande junto ao corpo? Onde se encontram os adultos e responsáveis pela casa esvaziada, cujos itens sobre a mesa denotam a presença recente de alguém? Ninguém vigia os meninos, soltos por tanto tempo entre as árvores? Algo parece fora do lugar. A ausência de pais se faz sentir, assim como a falta de propósito das crianças, que nunca precisam voltar ao lar. Trata-se de um parêntese, um universo cortado do real, tal qual um sonho.
O filme jamais toma para si a tarefa de resumir a integralidade da ditadura paraguaia, preferindo uma representação metonímica do horrores de 50 anos atrás.
Ironicamente, em simultâneo, a banda sonora relata histórias de extrema violência e perseguição, durante a ditadura de Alfredo Stroessner, entre 1954 e 1989. Três vozes se alternam para lembrar a caça aos detratores do governo. Mencionam a paranoia, os sequestros, a tortura, os restos de cadáveres encontrados décadas mais tarde. Citam cabeças cortadas e desaparecimentos, além da total impunidade do governante paraguaio. Estas frases se sobrepõem aos pequenos brincando amigavelmente nas águas, alheios à tirania dos militares. A vozes em off acentuam o desconforto diante destas paisagens supostamente bucólicas, afinal, se as imagens não possuem nenhum conflito, o som as oferece em demasia.
Esta foi a forma encontrada pela diretora para representar a infância de três irmãos durante a ditadura paraguaia. Rogelio, Rolando e Jazmín viram o pai pela última vez em 1976, antes de ser sequestrado, desaparecendo por completo. O Dr. Agustín Goiburú foi uma figura central na resistência ao regime autoritário, vivendo em exílio na Argentina até ser descoberto e capturado pelo governo. Anos depois, os filhos adultos retornam ao local onde viviam, quando pequenos, e relembram os instantes finais em presença do pai. “É como se matassem ele todos os dias; é como se ele vivesse todos os dias”, explica de maneira poética e pungente um dos personagens, a respeito da angústia bastante particular do desaparecimento. Afinal, nem mesmo o local exato do sepultamento é conhecido, de modo que, oficialmente, o homem não estaria morto.
Ejercicios de Memoria busca uma estética capaz de dar conta deste absurdo. Apoia-se, em primeiro lugar, nessa dissociação brutal entre som e imagem — o primeiro, mais próximo à linguagem esperada do documentário, e a segunda, permitindo uma encenação fictícia. Em segundo lugar, funde os estímulos até a beira da abstração — a ponto de perder sua nitidez e indicialidade. Os garotos mergulham na água e aparentam desaparecer durante bom tempo, antes de serem reencontrados pela câmera. As três vozes se alternam enquanto narradoras em off (jamais vemos o rosto dos filhos de Goiburú, nem do próprio médico), sobrepondo-se e entrecortando os relatos alheios. Comentam lembranças distintas, interrompem a fala dos outros. O didatismo aguardado de uma denúncia contra as ditaduras está ausente neste filme poroso, onírico, que privilegia a memória afetiva àquela preservada pelos arquivos.
Assim, este projeto motivado por crimes bárbaros nunca adquire um tom de indignação, nem de explicação pedagógica a um espectador presumido ignorante no tema. Os três filhos possuem distanciamento suficiente para narrarem momentos familiares sem sublinhar o aspecto emocional destas recordações. Discorrem a partir de episódios muito fatuais, íntimos, avessos ao teor de gravidade ou solenidade associados, habitualmente, ao relatos de governos ditatoriais. Logo, esta não seria a melhor introdução à História, no sentido estrito do termo. Com exceção dos letreiros finais, Encina evita datas e dados, por privilegiar um único ponto de vista, voluntariamente seletivo, e de ordem subjetiva. O filme jamais toma para si a tarefa de resumir a integralidade da ditadura paraguaia, preferindo uma representação metonímica do horrores de 50 anos atrás.


Talvez Ejercicios de Memoria possa ser questionado pela recusa em desenvolver seu pressuposto estético. O mesmo estilo de imagens e sons adotados nos cinco minutos iniciais persiste, linearmente, até o encerramento da narrativa. Os longuíssimos passeios das crianças, o retorno às filmagens subaquáticas, e o foco no horizonte podem soar repetitivos, embora o relato sonoro nunca o seja. É possível que a cineasta tenha buscado precisamente esta forma de exercício, como sugere o título: casar imagens similares a estímulos sonoros distintos, investigando o resultado destes encontros improváveis. O ritmo bastante dilatado pode se provar excessivamente hermético para parte do público, no entanto, cumpre com a proposta de subverter expectativas a respeito do tratamento do cinema latinoamericano a este tema tão recorrente.
Dez anos depois de sua produção, o resultado também dialoga de maneira irônica com os acontecimentos de 2026. No instante em que diversos países latino-americanos sofrem uma guinada para a direita conservadora, apoiando em candidatos com evidente apreço por regimes ditatoriais, o longa-metragem adquire uma camada suplementar de leitura. Serve não apenas enquanto alerta em relação aos perigos desta governança autoritária, mas como comentário a respeito da nossa recusa em elaborar o luto (dos nossos erros enquanto nações, e dos mortos que deixamos para trás). Mais do que um conjunto de nações desmemoriadas, constituímos sociedades voltadas contra si próprias, e que, na dificuldade de aceitarem os fatos, preferem forjar ilusões a respeito de ideologias que já se mostraram, e continuam se mostrando, fratricidas.




