Ejercicios de Memoria (2016)

A imagem da ditadura

título original (ano)
Ejercicios de Memoria (2026)
país
Argentina, Paraguai, França, Alemanha
linguagem
Documentário
duração
70 minutos
direção
Paz Encina
visto em
20º CineBH (2026)

Neste filme, imagem e som contam histórias diferentes — ou talvez componham a mesma história a partir de caminhos distintos. Atendo-nos apenas às captações contemporâneas da cineasta Paz Encina, podemos nos julgar diante de uma obra melancólica, serena, de contemplação. Crianças brincam numa lagoa. A bela paisagem silenciosa se encontra à disposição dos pequenos — ninguém chega para perturbá-los. Ele percorrem a floresta, descobrindo plantas e objetos pelo caminho. Dentro de uma casa, há frutas sobre a mesa. No quintal, outra fruta apodrece. Logo, estes seriam meros retratos cotidianos da infância, correto?

Não exatamente. Em sua insistência e repetição, estes registros aparentam carregar certo mistério — uma forma de inquietação. Por que, subitamente, o garoto encara a câmera, se o dispositivo soava “escondido” até então? Não seria perigoso ele carregar uma faca tão grande junto ao corpo? Onde se encontram os adultos e responsáveis pela casa esvaziada, cujos itens sobre a mesa denotam a presença recente de alguém? Ninguém vigia os meninos, soltos por tanto tempo entre as árvores? Algo parece fora do lugar. A ausência de pais se faz sentir, assim como a falta de propósito das crianças, que nunca precisam voltar ao lar. Trata-se de um parêntese, um universo cortado do real, tal qual um sonho.

O filme jamais toma para si a tarefa de resumir a integralidade da ditadura paraguaia, preferindo uma representação metonímica do horrores de 50 anos atrás.

Ironicamente, em simultâneo, a banda sonora relata histórias de extrema violência e perseguição, durante a ditadura de Alfredo Stroessner, entre 1954 e 1989. Três vozes se alternam para lembrar a caça aos detratores do governo. Mencionam a paranoia, os sequestros, a tortura, os restos de cadáveres encontrados décadas mais tarde. Citam cabeças cortadas e desaparecimentos, além da total impunidade do governante paraguaio. Estas frases se sobrepõem aos pequenos brincando amigavelmente nas águas, alheios à tirania dos militares. A vozes em off acentuam o desconforto diante destas paisagens supostamente bucólicas, afinal, se as imagens não possuem nenhum conflito, o som as oferece em demasia.

Esta foi a forma encontrada pela diretora para representar a infância de três irmãos durante a ditadura paraguaia. Rogelio, Rolando e Jazmín viram o pai pela última vez em 1976, antes de ser sequestrado, desaparecendo por completo. O Dr. Agustín Goiburú foi uma figura central na resistência ao regime autoritário, vivendo em exílio na Argentina até ser descoberto e capturado pelo governo. Anos depois, os filhos adultos retornam ao local onde viviam, quando pequenos, e relembram os instantes finais em presença do pai. “É como se matassem ele todos os dias; é como se ele vivesse todos os dias”, explica de maneira poética e pungente um dos personagens, a respeito da angústia bastante particular do desaparecimento. Afinal, nem mesmo o local exato do sepultamento é conhecido, de modo que, oficialmente, o homem não estaria morto.

Ejercicios de Memoria busca uma estética capaz de dar conta deste absurdo. Apoia-se, em primeiro lugar, nessa dissociação brutal entre som e imagem — o primeiro, mais próximo à linguagem esperada do documentário, e a segunda, permitindo uma encenação fictícia. Em segundo lugar, funde os estímulos até a beira da abstração — a ponto de perder sua nitidez e indicialidade. Os garotos mergulham na água e aparentam desaparecer durante bom tempo, antes de serem reencontrados pela câmera. As três vozes se alternam enquanto narradoras em off (jamais vemos o rosto dos filhos de Goiburú, nem do próprio médico), sobrepondo-se e entrecortando os relatos alheios. Comentam lembranças distintas, interrompem a fala dos outros. O didatismo aguardado de uma denúncia contra as ditaduras está ausente neste filme poroso, onírico, que privilegia a memória afetiva àquela preservada pelos arquivos.

Assim, este projeto motivado por crimes bárbaros nunca adquire um tom de indignação, nem de explicação pedagógica a um espectador presumido ignorante no tema. Os três filhos possuem distanciamento suficiente para narrarem momentos familiares sem sublinhar o aspecto emocional destas recordações. Discorrem a partir de episódios muito fatuais, íntimos, avessos ao teor de gravidade ou solenidade associados, habitualmente, ao relatos de governos ditatoriais. Logo, esta não seria a melhor introdução à História, no sentido estrito do termo. Com exceção dos letreiros finais, Encina evita datas e dados, por privilegiar um único ponto de vista, voluntariamente seletivo, e de ordem subjetiva. O filme jamais toma para si a tarefa de resumir a integralidade da ditadura paraguaia, preferindo uma representação metonímica do horrores de 50 anos atrás.

Talvez Ejercicios de Memoria possa ser questionado pela recusa em desenvolver seu pressuposto estético. O mesmo estilo de imagens e sons adotados nos cinco minutos iniciais persiste, linearmente, até o encerramento da narrativa. Os longuíssimos passeios das crianças, o retorno às filmagens subaquáticas, e o foco no horizonte podem soar repetitivos, embora o relato sonoro nunca o seja. É possível que a cineasta tenha buscado precisamente esta forma de exercício, como sugere o título: casar imagens similares a estímulos sonoros distintos, investigando o resultado destes encontros improváveis. O ritmo bastante dilatado pode se provar excessivamente hermético para parte do público, no entanto, cumpre com a proposta de subverter expectativas a respeito do tratamento do cinema latinoamericano a este tema tão recorrente.

Dez anos depois de sua produção, o resultado também dialoga de maneira irônica com os acontecimentos de 2026. No instante em que diversos países latino-americanos sofrem uma guinada para a direita conservadora, apoiando em candidatos com evidente apreço por regimes ditatoriais, o longa-metragem adquire uma camada suplementar de leitura. Serve não apenas enquanto alerta em relação aos perigos desta governança autoritária, mas como comentário a respeito da nossa recusa em elaborar o luto (dos nossos erros enquanto nações, e dos mortos que deixamos para trás). Mais do que um conjunto de nações desmemoriadas, constituímos sociedades voltadas contra si próprias, e que, na dificuldade de aceitarem os fatos, preferem forjar ilusões a respeito de ideologias que já se mostraram, e continuam se mostrando, fratricidas. 

Ejercicios de Memoria (2016)
8
Nota 8/10

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