Um Pouco de Esperança | “Os ocidentais têm uma visão distorcida do Irã”, explica Ali Asgari

Arash (Missagh Zareh) é um médico respeitado no Teerã. Mas quando ele aceita tratar dos ferimentos de manifestantes, após um protesto contra o governo, as forças da ordem fecham seu consultório. Ele tem os direitos profissionais cassados, em meio a um cenário de poucas esperanças para o futuro. O homem escolhe, então, tirar a própria vida.

A trama de Um Pouco de Esperança se situa inteiramente no dia em que este homem visita os irmãos e a mãe idosa, para lhes comunicar sobre a decisão de morrer. O teor poderia ser chocante, ou bastante emotivo, mas o diretor iraniano Ali Asgari retira as lágrimas da experiência. Prefere elaborar um drama contido, marcado por excelentes atuações.

Depois de ser exibido no prestigioso Festival de Veneza, o filme ganhou suas primeiras sessões no Brasil durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Asgari, também jurado do evento paulistano, conversou com o Meio Amargo a respeito deste projeto:

Diante deste tema político tão forte, você considera como sua responsabilidade, enquanto artista, levar esta denúncia ao mundo?
Ali Asgari: Acho que, em um país como o Irã, fazer filmes ou qualquer tipo de arte não significa apenas fazer arte. Claro, em primeiro nível, é arte. O que eu faço também é usar os elementos cinematográficos para retratar este país, mas, ao mesmo tempo, tudo está necessariamente conectado à política. Então, se a vida cotidiana é política e tudo o que você faz se torna algo político, o cinema também se torna um meio político.
É por isso que, para mim, é fundamental pensar o tempo todo nesses aspectos do filme, seja qual for a história a contar. Também é muito importante para mim retratar e documentar a situação atual do país porque, na verdade, os ocidentais, ao meu ver, têm uma imagem realmente distorcida do Irã. Por isso, acho que nós, cineastas, temos o dever de retratar esses aspectos reais da sociedade iraniana.

Estamos num momento em que a metáfora já não funciona. Precisamos ser bastante diretos. […] Trump não está interferindo apenas no Irã, mas criando o caos no mundo inteiro.

Muitos filmes retratam a opressão de maneira metafórica. Mas você é bem direto, mencionando Trump e a guerra atual. Por que fez esta escolha?
Ali Asgari: Houve muitos filmes, especialmente iranianos, que, durante muitos anos, começaram a falar sobre a repressão e sobre a situação no Irã de maneira metafórica, porque havia muita censura. Acredito que tenham feito isso devido às restrições e ao controle por parte do governo. Assim, eles precisavam mostrar isso por meio de uma metáfora.
Mas agora estamos num momento em que a metáfora já não funciona. Precisamos ser bastante diretos, específicos, e mostrar exatamente o que está acontecendo ali porque, quando você usa uma metáfora, cada pessoa tem seu próprio ponto de vista ao ler o filme.
Você pode pensar de maneira diferente das outras pessoas, claro, porque o cinema é um meio que deixa o público livre para interpretações distintas, mas o público precisa de matéria-prima real, de recursos reais para isso. Então, se você aborda o assunto por meio de uma metáfora, acho que o público não consegue captar o núcleo do filme.
Por isso eu acredito que, neste momento específico, precisamos falar diretamente sobre o que está acontecendo. Trump não está interferindo apenas no Irã, mas em todos os países, e está criando o caos no mundo inteiro. É por isso que, mesmo desse ponto de vista, eu queria ser o mais direto possível, principalmente porque muitos diálogos do filme derivam da vida real. Durante aquele período, em fevereiro ou janeiro de 2025, todo mundo estava falando dele, e esperando que alguma coisa acontecesse. Por isso, eu estava determinado a falar diretamente sobre isso.

Devido ao tema, Um Pouco de Esperança se torna uma produção internacional, certo?
Ali Asgari: É impossível financiar um filme desse tipo no Irã. Por isso, tenho diferentes coprodutores envolvidos, e me dedico a projetos que não custam um milhão de dólares. Tento fazê-lo da maneira mais simples possível porque, de certa forma, estou apenas documentando o que está acontecendo no meu país.
Então, preciso fazer algumas concessões. Decidi trabalhar com vários produtores, de modo que cada um deles investisse uma quantia muito pequena de dinheiro e, assim, pudéssemos viabilizar o filme. Afinal, eles também estão investindo seu próprio dinheiro, seu patrimônio pessoal e os recursos da empresa. Não é muito lógico que eles invistam uma grande quantia de dinheiro nesse tipo de filme, porque sabemos que não teremos um amplo lançamento nos cinemas. Felizmente, o filme foi vendido para muitos países, mas não terá uma estreia de grande porte em todos eles. É um filme mais voltado para cinéfilos, para pessoas que amam o cinema.

De certa forma, estou apenas documentando o que está acontecendo no meu país.

A respeito do tema do filme, me chama a atenção que você aborde o suicídio sem recorrer às lágrimas, ao sentimentalismo. É melancólico, ao invés de desesperado.
Ali Asgari: O filme é a jornada interior de um personagem, da manhã até a noite. Então, senti que o filme não deveria ser repleto de histórias, nem ter um ritmo acelerado demais. Assim, aos poucos, o público pode entrar na mente do personagem, sabe? É uma decisão interior do personagem também. Por isso, tentei captar todos os momentos importantes para ele. Decidi retratar tudo o que eles fazem, todas as reações, tudo o que estava ali.
É por isso que os planos são um pouco longos às vezes e, talvez, para algumas pessoas, sejam até um pouco entediantes, mas posso dizer que era muito importante captar tudo neste filme. Além disso, a história também é bastante simples, e eu realmente não queria complicá-la incluindo um filho ou conflitos do tipo.
O tom e o clima do filme vêm exatamente do personagem, do roteiro e dos diálogos. A ideia era torná-lo o mais simples possível.

Você também não julga as decisões de ninguém. Não se posiciona a favor, nem contra, as atitudes deles.
Ali Asgari: Sim, a câmera funciona desta maneira, como alguém que está apenas testemunhando o que acontece. Ela se movimenta muito pouco. Essa é a maneira como eu gosto de abordar os conflitos, em oposição a esta espécie de perspectiva hollywoodiana. A indústria norte-americana tende a apresentar um personagem como uma pessoa má desde o começo do filme e, até o final, tentar tornar essa pessoa cada vez pior, ou cada vez melhor, se for uma pessoa boa.
Mas eu não acho que exista uma pessoa má entre eles. Nenhum deles é apenas uma coisa ou outra. A questão é a decisão que tomaram, e a família está ciente dessa decisão. É preciso pensar no contexto daquele período, porque o país inteiro estava passando por uma depressão e uma tristeza realmente profundas.
Logo, a família, de certa forma, estava acompanhando o que ele fazia. É óbvio que ficam tristes com a escolha dele. Nada está como deveria ser normalmente, mas a questão é não julgar ninguém. Eu realmente não gosto de julgar os personagens.

Eu não queria exageros na atuação, nem nas expressões dos personagens. […] Não queria manipular o espectador.

As atuações também são bastante contidas. Os silêncios dizem mais do que as palavras aqui. Como trabalhou com o elenco?
Ali Asgari: Não fizemos muitos ensaios, apenas uma sessão em que conversamos sobre os personagens. Eu os fiz entender o que realmente queria: discutimos o tom do filme e como deveriam ser as reações dos personagens. A questão era principalmente essa, porque eu não queria exageros na atuação, nem nas expressões dos personagens.
Normalmente, nesse tipo de filme, podemos esperar que o personagem exagere na atuação porque a situação é realmente tensa, então o ator acaba adotando um tom mais intenso. Claro, houve alguns espectadores, especialmente iranianos, que esperavam um personagem mais expressivo, por se encontrar em uma situação tão difícil.
Mas eu não queria manipular o espectador. Foi por isso, inclusive, que não usei trilha sonora, para evitar carregar nas emoções. Queria que o público apenas captasse a situação, as ideias dos personagens, o tom do filme, e seguisse por esse caminho. Eu só pedi aos atores, basicamente, que o estilo fosse contido e controlado. Quando eles começavam a elevar um pouco o tom, eu pedia para baixarem, dizendo: “Está bem, mas façam um pouco menos. Não quero esse tipo de emoção”.
Isso fica especialmente claro na cena com a irmã mais nova, quando a câmera se volta para ela e não vemos que ela está chorando desesperadamente. Vemos uma pequena lágrima escorrendo, só isso.

O clímax se encontra numa peça de teatro, quando o personagem testemunha uma encenação de despedida com a mãe. Por que colocou este momento-chave num dispositivo teatral?
Ali Asgari: O filme é, de certa maneira, uma rotina. Ele capta a vida de algumas pessoas, do povo iraniano, durante um período muito específico. Então, eu queria incorporar diversos aspectos cotidianos: o teatro, a ioga, as pessoas caminhando, a senhora fazendo compras. A vida comum está ali. Por isso, também era importante incluir o teatro, uma forma de expressão fundamental no Irã. Há muitas peças em cartaz todos os dias, em diversos teatros.
Além disso, há alguns elementos conceituais naquela cena, porque em toda a sua duração, o filme aborda basicamente as relações de mães e filhos. Temos o personagem principal e sua irmã, com o filho dela. No teatro, temos a mãe com o filho. Depois, há essa mulher que perdeu o filho nos protestos. Há muitos filhos e mães no filme. Essas histórias correm em paralelo à situação do protagonista.
Ao mesmo tempo, existe a questão de representar um papel na vida. Aquele médico sempre desempenhou papéis: ele encarna um filho para a família, e um médico para a sociedade. Em determinado momento, quando vai ao teatro, ele não tem resposta para seu conflito: como anunciar sua morte à mãe? Quando a mãe da peça lhe pergunta sobre o fato de ele partir, ele realmente não sabe o que dizer, considerando a situação em que está vivendo. É uma pergunta para a qual não tem resposta.
Ele nem sabe ao certo quem ele é, porque seu trabalho sempre foi salvar a vida das pessoas. Mesmo assim, ele próprio foi preso por causa disso. Por isso, o teatro representa uma cena de certo contraste para o personagem. Ao mesmo tempo, é muito emocionante para todos, porque vemos o sofrimento de uma mãe lidando com a partida do filho.

Tenho muitos amigos brasileiros, e vejo vocês como pessoas de coração generoso.

Você está no Brasil apresentando o filme, mas também integrando o júri da Mostra. Como tem sido esta experiência?
Ali Asgari: Vir ao Brasil sempre foi um sonho para mim porque, além da cultura, da arte e da história que vocês têm, eu sempre tive muito interesse pelas pessoas daqui. Tenho muitos amigos brasileiros, e vejo vocês como pessoas de coração generoso. Por isso, tinha tanta vontade de conhecer o país e a cultura.
Além disso, fazer parte do júri é uma experiência que eu adoro. Sempre que sou convidado para participar de um júri, eu aceito, porque acho muito importante assistir aos filmes por um ângulo diferente, não apenas como espectador, mas como jurado. O processo de julgamento é realmente interessante para mim, também enquanto cineasta. Assim, você compreende como os filmes são apreciados dentro de um júri, e começa a entender melhor a dinâmica dos festivais. Desta forma, eu consigo aproveitar melhor os festivais onde vou, sem pensar tanto nos prêmios e coisas desse tipo.

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