Flora & Airto: O Som Revolucionário (2026)

Artistas do tempo presente

título original (ano)
Flora e Airto: O Som Revolucionário (2026)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
96 minutos
direção
Jom Tob Azulay
visto em
59º Festival de Brasília (2026)

Flora Purim e Airto Moreira se preparam para a gravação de um novo álbum. Reúnem-se no estúdio, discutem os arranjos, sugerem alterações na harmonia. Treinam a voz, repensam as letras. Esta seria uma prática banal, caso o projeto em questão não envolvesse de dois artistas octogenários. Durante as filmagens, ela tinha 82 anos, e ele, 83. Embarcaram na proposta de reinterpretar as próprias canções, além de letras alheias, com uma seriedade notável: “Eu não estou apenas cantando. Estou sentindo o peso da responsabilidade”, afirma a cantora. Por isso, solicitam mudanças, fazem ajustes, cantam de novo e de novo. Purim se lembra da música pela qual foram indicados ao Grammy, e deseja reproduzir algo à altura de si própria.

É bastante comum, em documentários a respeito de artistas consagrados e maduros, que o escopo se volte ao passado glorioso — em particular, por serem realizados post mortem. Por isso, revestem-se de um tom de homenagem, ressaltando os maiores momentos, coletando elogios de personalidades de peso, e relembrando os principais álbuns e apresentações. Nestes casos, o cinema brasileiro se habituou a um papel memorialista, destinado ao público contemporâneo (presumido ignorante sobre o tema) assim como a um espectador futuro e amnésico, que poderá consultar, nesta obra de arte, informações de cunho fatual. Filma-se para os arquivos, mas sobretudo para superar, simbolicamente, a morte.

A principal qualidade reside na decisão de se concentrar, exclusivamente, no tempo presente. Mas é uma pena que a obra se inicie com seu segmento mais fraco.

Por este motivo, a principal qualidade do longa-metragem dirigido por Jom Tob Azulay reside na decisão de se concentrar, exclusivamente, no tempo presente. Nem mesmo materiais de arquivo são utilizados para comparar o trabalho artístico da dupla hoje com aquele efetuado nos anos 1970, por exemplo. Qualquer menção ao passado decorre de falas espontâneas dos protagonistas — Flora rememora a experiência na trilha sonora de Apocalypse Now, junto a Francis Ford Coppola —, no entanto, os criadores jamais oferecem trechos referenciais a tais lembranças. Deduzimos quem estas pessoas foram pelo que são — ou seja, pelo imenso respeito em relação a ambos por parte de Ricardo Bacelar e André Rass; pelo cuidado com a saúde debilitada dos dois; pela disposição em escutarem e acatarem os pedidos deles.

Em paralelo, acompanhamos a dupla em pleno ato de criação. Eles não apenas recordam as canções de antigamente, mas as reinventam. O diretor reserva espaço considerável ao acaso, testemunhando os instrumentos improvisados de Airto, e os vocalizes inesperados de Flora. São percebidos, portanto, enquanto artistas em atividade, ao invés de guardiões da memória de juventude. Certo, a voz envelheceu, e a disposição não é a mesma. Em contrapartida, o prazer da música permanece, assim como o altíssimo grau de exigência de ambos. Ela se cansa, e pede uma pausa, compreendendo que, depois de algumas horas em pé no estúdio, não cantaria da melhor forma possível. O cinema se leva a sério, tanto quanto a música o faz. Existe certo grau de reverência, simultânea ao despojamento destas conversas amigáveis entre profissionais de alto nível.

Assim, o filme cresce cena após cena. Conforme conhecemos melhor os objetivos de cada um, e desvendamos a complexa personalidade dos protagonistas, entendemos o risco percebido por todos numa empreitada de tamanha ambição. A montagem de Vinícius Nascimento preserva imagens cada vez mais longas, permitindo ao espectador assistir, em tempo real, a cada canção reinventada pelo grupo. A direção de fotografia de Luis Abramo concentra-se no rosto de Flora, em registros progressivamente estáticos e atentos. Os ensaios para a releitura de Carinhoso são preciosos, culminando num clímax-desfecho de formidável potência cinematográfica. O filme sabe exatamente quando terminar — num ponto alto, comovente e deslumbrante, como se encerrasse o show após sua melhor canção.

Diante de tantas qualidades, é uma pena que a obra se inicie com seu segmento mais fraco. Os dez primeiros minutos são, sem sombra de dúvida, os piores de toda a experiência — muito aquém em termos de foco, qualidade de som e de fotografia. Desde a chegada da dupla no aeroporto, até a entrada no estúdio, a direção e a fotografia se mostram perdidas. A imagem treme excessivamente, sem preparação prévia para abarcar movimentações espontâneas. Teima em fazer o foco, em saber para onde olhar, e onde se concentrar. Vira-se abruptamente de um lado para o outro, chamando tanta atenção à própria instabilidade que retira os holofotes da música à qual pretendia se consagrar. Em paralelo, num primeiro instante, André Rass aparenta ser o verdadeiro protagonista e condutor da narrativa.

Esta má primeira impressão diverge tanto da qualidade encontrada a seguir, que surpreende que tenha sobrevivido ao corte final. Na sequência de abertura, menciona-se a fama de Flora e Airto, embora o ponto de vista de terceiros seja imediatamente dispensado pelo restante da narrativa. Mostra-se ambos no Retiro dos Artistas, sem nenhuma contextualização de como foram viver ali, ou de como se sentem no local. Esta importante informação será esquecida logo após. O segmento inicial parece pertencer a um filme totalmente distinto daquele capaz de contemplação e rigor estético, descoberto pelo público nos minutos restantes. 

Outros segmentos levantam questionamentos, devido à ausência de contextualização — em particular, a importância da religião espírita para Airto. O trecho soa deslocado, sem nenhuma conexão frutífera com sua música, nem com o projeto realizado naquele instante. O título também gera curiosidade, visto que o aspecto revolucionário deste som nunca é explorado pelo filme — afinal, não há revolução sem estudo do regime em vigor, prestes a ser revolucionado. Exceto por tais arestas, a experiência de descobrir a dupla criando, conversando e se colocando em atividade, ao vivo, proporciona um belo momento ao espectador. Azulay encontra um ângulo improvável, e muito mais interessante do que a habitual rememoração linear e cronológica de uma carreira de sucesso. 

Flora & Airto: O Som Revolucionário (2026)
6
Nota 6/10

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