
Este longa-metragem parte do pressuposto habitual da fantasia, ou seja, um surpreendente chamado à aventura. A francesa Ana (Jéssica Pierina) recebe, numa carta deixada pela falecida avó, uma chave, junto à indicação de um apartamento cuja existência ignorava. Ela viaja até o imóvel em Belo Horizonte, apenas para encontrar outra mulher morando ali. Apesar do estranhamento inicial, decide permanecer alguns dias com a locatária. Elas aprendem a conviver, enquanto compartilham suas dores e inseguranças. A improbabilidade deste acontecimento nos direciona ao realismo mágico, acentuado pelo fato de, afinal, ambas constituírem a mesma mulher.
Ana e Alice são interpretadas pela mesma atriz. Possuem traços bastante próximos, imediatamente reconhecidos por um amigo, que as confunde com irmãs gêmeas. Assim, representam dois lados de uma única identidade. Elas manifestam a vontade de ficar, mas também aquela de partir; a vida no Brasil e na França; o apego aos ancestrais e a experiência de um eterno presente. Afinal, Alice (mesmo nome da locatária e da avó falecida, é claro) parou de ver os amigos, neste instante melancólico de sua gravidez. Em consequência, a dupla também representa materializações de cuidado materno, seja enquanto mãe e filha, ou avó e neta.
A diretora Fernanda Salgado estabelece um laço intercontinental de afeto entre mulheres negras. A narrativa se abre e se encerra por meio da metáfora dos mapas.
Desta maneira, a diretora Fernanda Salgado estabelece um laço intercontinental de afeto entre mulheres negras. Mesmo à distância, e antes do primeiro contato, já estavam ligadas. Assim, passam a apoiar uma à outra. A narrativa se abre e se encerra por meio da metáfora dos mapas, estabelecendo percursos que nos unem ao invés de nos afastarem. “Você também é um mapa no espaço e no tempo”, a mãe ensina à filha pequena, em off. Ironicamente, a francesa se encontra num apartamento de Minas Gerais, convivendo com uma desconhecida que, no fundo, conhece bem até demais. A noção de uma cartografia afetiva atravessa todo o olhar da cineasta brasileira, atualmente residindo no Canadá.
Os melhores instantes de Ana, en Passant derivam das liberdades da animação. A diretora e sua equipe criativa exploram diversos formatos e linguagens: a animação a partir da captação em live action, o formato do recorta-e-cola, da imagem “rasgada”, pintada, desenhada. As criadoras adoram interferir no meio quando apresentam, por exemplo, uma mulher em contato com os rios, cujo corpo se enche de água. A maçã da animação, uma vez descolada da feira, revela um fundo de papelão. Existe uma inesperada materialidade, um senso analógico interessante a partir do traço de aparência desenhada, à mão, encontrando-se com as ferramentas digitais.
Ao mesmo tempo, os personagens são claramente derivados dos traços de seus intérpretes — é fácil reconhecer não apenas a voz de Zezé Motta e Carlos Francisco, mas sua fisionomia aplicada aos personagens interpretados. O longa-metragem ao mesmo tempo adora o real e o extrapola — nunca o nega, nem foge dele. Ultrapassando a fantasia habitual (repleta de voos, transformações e incongruências), a cineasta prefere um leve deslocamento do mundo possível, ainda com os pés fincados na plausibilidade — vide o imbróglio do apartamento herdado. Por isso, abraça uma nostalgia, propensa aos tempos mortos e olhares perdidos. Salgado adota o avesso da euforia neste encontro entre duas metades.
Em consequência, recusa a trilha sonora e o pressuposto do encantamento, tão facilmente associados à estética da animação. Prefere as conversas esticadas, os planos longos, e as ações que não necessariamente se convertem em conflitos, nem fazem a trama avançar. A priori, as duas mulheres não possuem tarefas a desempenhar, nem prazos ou obrigações. Podem passar os dias apreciando a companha alheia — Alice, por atravessar uma gravidez de risco que a prende em casa, e Ana, por ter se deslocado em função da descoberta do imóvel. A narrativa inclusive soa um pouco arrastada no terço central, antes de uma conclusão um tanto abrupta. Parece claro que a cineasta se interessava muito mais pelo caminho traçado por suas heroínas do que pelo lugar onde chegariam ao final.


O aspecto etéreo da mise en scène também se encontra com certa rigidez das interações, traduzidas em diálogos que nem sempre reproduzem a linguagem oral. Apesar do prazer de reproduzir o cotidiano, as falas estão repletas de primeiras pessoas do plural (“Nós estávamos nos preparando para estrear o espetáculo”), subjuntivos (“Vamos ficar felizes se pudermos fazer isso por você”) e futuros do presente (“Tudo ficará bem, certo?”), que engessam um pouco o procedimento. Estranha-se, igualmente, que a francesa nativa fale sua própria língua natal com sotaque estrangeiro — ou seja, sem domínio real do francês. Isso sem falar em diálogos meramente explicativos, quando os personagens simplesmente contam um ao outro coisas que ambos conhecem, em longas frases, apenas para informar o espectador: “Você estava preocupado comigo ou culpado pelo que disse na última vez que nos vimos?”.
Apesar das possibilidades da animação de se sujar, de explorar o absurdo, o impensável, e até abordar violências com distanciamento próprio à linguagem, Salgado prefere um tom polido, educado, comportado. Ela se afasta do real (via traços animados) apenas para se aproximar deles novamente. Mesmo assim, neste pudor e contenção, consegue representar muito bem a psique de duas mulheres negras. O roteiro abraça as personagens com evidente ternura, além de respeito por tudo aquilo que não conseguem verbalizar por conta própria. Ao invés de observar o mundo pelos olhos de Ana, ou de Alice (qual das duas?), prefere admirar os acontecimentos com relativa distância, evitando a tentação de explicá-los. Ao final, não conheceremos por completo todos os movimentos internos de uma e outra. Mesmo assim, saberemos que este feliz acaso — ou destino — servirá a aproximar duas personagens que precisam deste encontro para obterem uma inesperada forma de completude.




