Foto: Michelle Moreira / Divulgação.
Foto: Michelle Moreira / Divulgação.

59º Festival de Brasília começa com apelo à democracia e homenagem a Julia Lemmertz

Na noite de 11 de setembro, foi dada a largada para a edição 2026 do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O festival de cinema mais antigo do país organizou sua cerimônia de abertura no Cine Brasília, onde se escutaram os tradicionais discursos políticos – sobretudo, em pleno ano eleitoral.

A Secretária do Audiovisual, Joelma Oliveira, teve uma fala potente nos palcos. Sem mencionar qualquer opositor, nem reforçar as ações do governo Lula, ela lembrou que “Não tem cinema brasileiro se não houver democracia brasileira”, parafraseando Paulo Emílio Salles Gomes. Em seguida, insistiu na importância da continuidade destas ações culturais — em discreta alusão ao recente cancelamento do Festival de Brasília, devido a um impasse com o governo do Estado.

Em contrapartida, os representantes da ABCV (Associação Brasileira de Cinema e Vídeo) foram mais incisivos em seu pronunciamento. Relembraram que a 59ª edição chegou a ser oficialmente anulada, devido à recusa do governo de Celina Leão (PP) em liberar verbas pré-aprovadas e firmadas contratualmente. Entretanto, devido à pressão popular e da imprensa, a governadora recuou, autorizando o repasse da quantia acordada.

Por isso, multiplicaram-se os gritos de “Fora, Celina” pela plateia, duplicados durante vinhetas do governo do Estado. Vale ressaltar que este tipo de manifestação é comum no Festival de Brasília, sempre aberto a uma bem-vinda manifestação de dissensos políticos e debate de ideias. Anos anteriores já viram manifestações muito mais virulentas, sem despertarem ameaça de censura ou cancelamento por parte das autoridades locais.

A grande homenageada da noite, Julia Lemmertz, ecoou o grito pela liberdade de expressão da arte e dos artistas. “A gente está no meio de um furacão”, relembrou a atriz que recebeu um Candango em 1986, pelo papel em A Cor do Seu Destino, de Jorge Durán. Mas, segundo ela, “somos uma raça única, corajosa”, e “sem medo de sonhar”.

Nas primeiras exibições da 59ª edição, a curadoria efetuou uma interessante escolha de filmes. Primeiro, apresentou ao público um curta-metragem de 1964, que resgata o conceito originário da capital. Brasília: Planejamento Urbano, de Fernando Coni Campos, se aproxima de uma reportagem pontuando as reflexões sobre o espaço público, aplicados a uma cidade recente.

Em seguida, entretanto, este imaginário profundamente local se expandiu à América Latina. O festival brasileiro demonstrou uma compreensão ampla da identidade nacional, focada na juventude guarani-kaiowá, nos imigrantes e nos povos em deslocamento. A Pele Morta, de Denise Moraes e Bruno Fatumbi Torres, se concentra em três personagens atravessando o Brasil rumo à fronteira, em busca de oportunidades.

No caminho, a língua portuguesa se mistura ao espanhol e ao guarani — tanto a língua dos paraguaios, quanto dos indígenas brasileiros. Sem esperanças fáceis nem soluções milagrosas, o drama mantém uma esperança discreta por meio do encontro entre as diferenças. Leia a crítica.

No dia 12 de setembro, começam as mostras competitivas do 59º Festival de Brasília, com o longa-metragem Ana, en Passant, de Fernanda Salgado, e os curtas-metragens Mariposa, de Alexandre Américo e Pedro Vitor, e Vejo Você De Repente, de Aída da Costa.

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