Mostra de Cinema de Fama busca crescimento e consolidação de projetos culturais

Entre os dias 27 e 30 de agosto, a 9ª Mostra de Cinema de Fama apresentou mais de uma centena de curtas-metragens aos moradores e frequentadores da cidade mineira, em sessões ao ar livre, ao lado do Lago de Furnas.

Além das exibições e premiações (que recompensaram filmes como Ponto e Vírgula e A Menina que Queria Ser Pedra), o evento foi marcado por debates sobre Pontos de Cultura e os rumos dos curtas-metragens no Brasil. No eixo pedagógico, o ator Alexandre Barillari comandou uma oficina que realizou, em poucos dias, um curta-metragem reinterpretando Romeu e Julieta, intitulado Verona no Mar de Minas, estrelado por jovens da região.

A edição ainda trouxe homenagens ao ator Werner Schünemann, atual residente de Fama, e à professora Tia Naná. Em conversa com o Meio Amargo, a diretora e idealizadora da Mostra de Fama, Aryanne Ribeiro, faz um balanço do evento em 2026:

A nona edição trouxe um curta-metragem realizado com crianças e jovens locais. Como enxerga a importância desse projeto?
Aryanne Ribeiro: Essa é mais uma virada de chave neste processo para envolver a cidade com a Mostra. Sempre buscamos meios para uma participação mais forte da comunidade. Além disso, a gente costuma fazer um trabalho direcionado às escolas. Por isso, a gente apostou nesse formato, trazendo o Alexandre Barillari, que já tem experiência no formato de oficinas.
Além disso, o curta-metragem traz um tema muito forte na memória, devido a tantas adaptações de Romeu e Julieta. A gente apostou que isso teria um efeito mais profundo na comunidade. Só que, para a nossa surpresa, o resultado foi ainda maior. Além do envolvimento de todos, o filme reverberou com muita força. Isso ficou claro na participação da cidade, e na presença de tantas pessoas para a exibição de Verona no Mar de Minas.

O ator Alexandre Barillari durante a oficina para o curta-metragem Verona no Mar de Minas. Foto: Divulgação.
O ator Alexandre Barillari durante a oficina para o curta-metragem Verona no Mar de Minas. Foto: Divulgação.

Pretende manter este programa de formação para a 10ª edição, já confirmada?
Aryanne Ribeiro: A gente tem programas de formação todos os anos. No ano passado, infelizmente, isso não aconteceu por falta de recursos. Mas nos anos anteriores, a gente sempre teve formação. Inclusive, temos um grupo de estudos envolvendo pessoas de Alfenas e região, além dos próprios moradores de Fama. Crianças, jovens e idosos participaram porque agora, no caso de Romeu Julieta, as famílias precisaram ser representadas. Então, isso fortaleceu muito o processo.
De fato, agora a nossa proposta não é só uma oficina, mas fazer filmes com temas que movimentem o imaginário e envolvam a cidade.

Como percebe o impacto direto da Mostra na cidade de Fama e nos municípios vizinhos?
Aryanne Ribeiro: Bom, a gente quase não tem a oportunidade de ver curtas-metragens, né? Muito menos os filmes brasileiros. Isso acontece com poucos filmes selecionados ao Oscar, por exemplo, mas no caso do curta-metragem, a gente não tem praticamente nenhuma recepção no circuito tradicional. Então o festival proporciona esta tela de exibição, além dos encontros e discussões.
A gente teve um painel sobre distribuição de curtas-metragens, por exemplo. Acredito que a gente precisa, cada vez mais, discutir e trazer à tona a questão das telas de exibição para filmes brasileiros e curtas-metragens.

Pensando especificamente na Mostra Mineira, você enxerga uma mudança (numérica e de qualidade) nos filmes inscritos?
Aryanne Ribeiro: A gente tem muitos filmes inscritos na região, e isso sempre se manteve. Não temos uma quantidade expressiva de novos realizadores, mas existem aqueles que continuam realizando há alguns anos — eles têm mantido a quantidade e qualidade da produção.
Mesmo assim, a gente teve desta vez mais filmes inscritos de Belo Horizonte e Ouro Preto. Só de Ouro Preto, esse ano, foram quatro filmes inscritos, por conta da Lei Paulo Gustavo. A gente ainda está colhendo os frutos dessa política.

Apresentação musical durante o encerramento da Mostra de Fama. Foto: Divulgação
Apresentação musical durante o encerramento da Mostra de Fama. Foto: Divulgação

As homenagens também trouxeram um público expressivo. Como chegaram a Werner Schünemann e Tia Naná?
Aryanne Ribeiro: Pois é, todo ano essa questão da homenagem é um desafio. Como escolher quem homenagear, entre tantos profissionais maravilhosos dentro do Brasil? Que caminhos a gente encontra para isso? O tema vem primeiro. Às vezes estes temas nos levam a lugares inesperados. Por exemplo, quando o Werner Schünemann se mudou aqui pra Fama, nosso tema já estava escolhido.
A gente vem numa crescente com a Mostra — várias pessoas que participaram acabaram voltando. Só então descobrimos que o Werner estava morando aqui, e todo mundo nos perguntava: “Ele vai ser homenageado?”. Foram várias pessoas, um verdadeiro fluxo. A partir desse movimento, a escolha foi natural. Todas as pessoas queriam que ele fosse homenageado, também pelo fato de ser um ator famoso morando aqui na cidade. Então, por que não homenagear uma pessoa de Fama em Fama?
Já a Tia Naná é totalmente especial, por tudo o que ela representa. A gente costuma fazer uma pesquisa pela cidade, perguntando quem eles acham que deveria ser homenageado, e qual relevância essa pessoa tem para eles. A Tia Naná era uma unanimidade, não só por ela, mas pela família dela, que fez as primeiras exibições do cinema na cidade — o pai dela estendia um pano para projetar filmes. Então existe esta relação direta com a arte, e um impacto determinante na cidade.

Outro aspecto importante na Mostra de Fama é a importância atribuída aos Pontos de Cultura. Por que priorizar debates a respeito na programação?
Aryanne Ribeiro: A gente está descobrindo esse caminho, até porque o Instituto Gesto é Ponto de Cultura, e poucos pontos de cultura realizam grandes festivais. Poucos deles se dedicam diretamente ao audiovisual — pelo menos, em Minas Gerais. Então a gente se aproveita dessa característica, no bom sentido de pensar os pontos de cultura enquanto rede organizada. A gente tem grandes projetos para polos do audiovisual, não em escala industrial, mas os polos de base comunitária, pensando o audiovisual mineiro em geral.
Além disso, os pontos de cultura já ajudam a disseminar o curta-metragem. Esse papel tem se reforçado com a primeira Lei Paulo Gustavo. Enquanto conselheira, eu propus que uma das aplicações fosse para salas de cinema, para pontos de cultura. As pessoas não entenderam muito bem a princípio, mas então eu lembrei que todo ponto de cultura pode ser exibidor. Então, a gente já tem o ponto pronto. Se não tem o ponto fixo, a gente consegue circular com os filmes. Mesmo sem sala de cinema, a gente tem pontos de cultura enquanto exibidores em potencial. Eles acabaram resgatando os cineclubes, por exemplo.

A diretora e idealizadora da Mostra de Fama, Aryanne Ribeiro. Foto: Divulgação.
A diretora e idealizadora da Mostra de Fama, Aryanne Ribeiro. Foto: Divulgação.

Quais são as metas para a 10ª edição? Alguma expansão ou mudança está prevista no formato da Mostra?
Aryanne Ribeiro: A gente percebeu que a Mostra está muito curta com quatro dias. Primeiro, pela janela de exibição, restrita ao período da noite. Segundo, porque a gente não pode estender muito as sessões, até pela questão das cadeiras dispostas ali, e pelo tempo ocupado por várias sessões. Então a gente tem muita vontade de criar um espaço mais confortável, e durar alguns dias a mais. Acho que pelo menos uns seis dias seria o ideal. Esta é a meta: estender a janela de exibição e expandir o número de filmes, além de aumentar o conforto para quem participa. Muitas ideias estão surgindo, a partir de diversas sugestões.
Também precisamos pensar em outro local para aumentar as sessões infantis, porque não pode ser apenas na praça — e a partir de 19h, já fica tarde para trazer as crianças. Temos pensado muito nisso tudo, além do mais complexo, que é a questão da viabilização orçamentária. De qualquer maneira, a data do próximo encontro já está definida: 19 a 22 de agosto de 2027.

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.