Adeus, Brasília (2026)

O personagem e sua representação

título original (ano)
Adeus, Brasília (2026)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
90 minutos
direção
Moacir Macedo
visto em
59º Festival de Brasília (2026)

Em primeiro lugar, é necessário estabelecer uma distinção fundamental entre Vladimir Carvalho e o filme sobre Vladimir Carvalho. O artista paraibano, que construiu toda a sua carreira audiovisual em Brasília, é um dos grandes nomes do cinema nacional. Foi autor de obras seminais do documentário, como O País de São Saruê (1971), O Evangelho Segundo Teotônio (1984), Conterrâneos Velhos de Guerra (1991) e Rock Brasília: Era de Ouro (2011). Sempre foi conhecido pelo posicionamento político humanista, além da eloquência na defesa de seus temas e obras.

Por este motivo, centrar Adeus, Brasília inteiramente numa conversa com o diretor se prova uma boa escolha. O diretor Moacir Macedo propõe uma conversa de fôlego com o autor, focada em sua experiência na capital do Brasil. Sem vaidades, o protagonista narra desde a sua chegada à cidade até a aproximação com a UnB, entrelaçando os relatos com as experiências nos seus filmes mais famosos. É impressionante encontrar um artista tão generoso — não se nota nenhuma vaidade por parte de Carvalho ao discursar acerca de si próprio. O diretor prefere recordações fatuais, anedotas, e uma crônica bastante pessoal da capital recém-criada.

É precioso escutar as falas de Vladimir Carvalho. Mas no que diz respeito ao filme, enquanto obra autônoma, há deficiências graves, a começar pelo som.

Logo, é precioso ao espectador escutar as falas do protagonista. Ele transmite belas reflexões, assim como demonstra um olhar astuto ao desenvolvimento do cinema e de Brasília, em paralelo. Demonstra clara consciência de sua finitude (de fato, o diretor viria a falecer pouco depois deste projeto, em 2024), preocupando-se com o destino que seria dado a tantos materiais e equipamentos cinematográficos acumulados em sua casa. Qualquer oportunidade de conhecer a vida e obra de Vladimir Carvalho é válida, e o filme proporciona tal encontro. Para muitas pessoas, na saída do Cine Brasília, isso bastava. Os problemas de imagem e som seriam meramente “técnicos” e, portanto, secundários. Aí entra a discordância, assim como a necessidade de abordar o filme sobre Vladimir Carvalho.

Isso porque o tema e o protagonista existem fora do filme, antes dele, e para além dele. Os autores deste documentário, de 2026, não criaram seu tema, nem podem se estimar responsáveis pela profunda eloquência e inteligência de seu entrevistado — este mérito cabe ao próprio Carvalho. Certo, provém de Macedo e sua equipe o estímulo para que o diretor discorra. Entretanto, o que a obra contemporânea produziu, por conta própria, são a imagem, o som, a montagem, o ritmo, o discurso. Em outras palavras, responsabilizam-se pela estética destinada a representar, precisamente, um autor reconhecido pelo rigor de linguagem. 

Espera-se, portanto, o mínimo de adequação desta homenagem aos pressupostos ideológicos do biografado. Posto que se retrata uma pessoa amada, certamente se oferece a ela um belo filme — polido, elegante, profissional, e digno da grandeza de seu personagem, correto? Aí residem os problemas, muito mais flagrantes do que a mera disposição em escutar um ícone do cinema. No que diz respeito ao filme, enquanto obra autônoma, há deficiências graves, a começar pelo som. Questiona-se se havia qualquer aparelho para a captação específica das falas de Vladimir Carvalho, tamanho é o eco nos depoimentos. Ele estaria microfonado? Haveria um boom ao redor? Não parece. A qualidade do som se mostra típica das captações diretamente da câmera.

Assim, a obra inteiramente falada sofre com um trabalho sonoro aquém do mínimo esperado de um projeto profissional — sobretudo, levando em consideração a atual facilidade de obter, pelo menos, um lapela para registrar conversas do gênero. Quando Carvalho se levanta e começa a descrever fotografias de pessoas queridas, a captação se torna ainda pior. Na sequência em que apresenta cartazes de seus filmes, escuta-se o trânsito da rua com maior intensidade do que o palavreado do protagonista. Ora, o sujeito se encontra, na ampla maioria da experiência, sentado, num ambiente único, onde o som seria facilmente controlado por parte da equipe. O que houve?

A fotografia enfrenta problemas semelhantes. A partir de um material de pouco dinamismo (uma única entrevista, com duas câmeras em ângulos similares), as cores se modificam bastante a cada tomada. Talvez isso se deva à mudança da luz mas, entre um corte e outro, Vladimir Carvalho aparece mais verde-amarelado, e depois, vermelho-azulado. As cores são lavadas, sem contraste, e ocasionalmente se perdem devido à luz superexposta. Em determinados instantes, mesmo diante do sujeito sentado, perde-se o foco. Quando ele se levanta e apresenta objetos (a moviola, em particular), a fotografia fica indecisa, sem saber ao certo onde se focar, com qual ângulo, e qual profundidade de campo.

A situação se complica nas cenas do velório, quando as cores cedem espaço ao preto e branco (um clichê dos segmentos in memorian), novamente, sem contraste, e com trabalho instável de câmera. O episódio de tamanha intimidade recebe um tratamento nada sutil: a imagem se aproxima bastante do rosto dos frequentadores ao lado do caixão, como se fossem planos subjetivos do cineasta falecido. O choro, o desconforto e a espontaneidade face à morte são captados com uma frontalidade e uma brutalidade contraproducentes. A presença da câmera neste local soa desconfortável, intrusiva. Pelo menos, se filmasse à distância, com mais respeito e pudor pelos participantes, demonstraria certa reverência ao diretor.

Já a decisão da montagem, de fragmentar o velório e espalhá-lo por toda a narrativa, desperta questionamentos de ordem ética e moral. É comum que documentários post-mortem dediquem um trecho para representar o falecimento de seus personagens. Mas Adeus, Brasília faz mais do que isso: ele prefere que a morte ocupe a totalidade da experiência. Vladimir Carvalho fala e, num corte, pessoas lamentam sua morte. Ele relembra os estudos, os filmes, os colegas, e — mais um corte — está deitado no caixão. A insistência neste fato, costurando a vida inteira do personagem pelo instante pontual de seu velório, superdimensiona a importância do ritual fúnebre, como se tivesse valor comparável a décadas de trabalho e reflexão cinematográfica. 

Ao final, resta a tradicional galeria comemorativa de fotos de Vladimir Carvalho (mais um clichê), sorridente, no formato de slides didáticos. O resultado é certamente longo demais, fruto de uma montagem excessivamente apegada a cenas e falas para efetuar concessões pensadas no ritmo da experiência. Sem dúvida, o encontro com o diretor é precioso, e motiva a ida à sala de cinema. Entretanto, a maneira como se retrata a vida (e, notadamente, a morte) de uma figura tão especial mereceria maior cuidado, justamente, de ordem cinematográfica. O documentário desperta a impressão de ser exibido ao espectador numa cópia ainda não finalizada, sem tratamento de cor, sem limpeza e aprimoramento do som, e sem um enxugamento na montagem. Afinal, Vladimir Carvalho é tão grandioso que mereceria um filme à altura.

Adeus, Brasília (2026)
3
Nota 3/10

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