
O adolescente Tommy (Anson Boon) é descrito pelo filme como a pior pessoa do mundo. Violento, grosseiro, incivilizado, machista, incontrolável. Ele bebe, usa drogas, maltrata mulheres, ataca pedestres pelo simples prazer de fazê-lo. Está sempre gritando, empurrando, provocando. O cineasta Jan Komasa insiste em retratá-lo em traços animalescos — razão pela qual, ao ser sequestrado e mantido num porão, o garoto se encontrará preso ao teto por uma corrente de ferro. Mesmo assim, ele insulta, cospe, berra. Promete uma vingança violenta quando se soltar. Trata-se, sem muita distância, do imaginário do leão selvagem confinado numa jaula.
Para a nossa surpresa, os sequestradores fogem ao comportamento esperado de crueldade explícita. O pai Chris (Stephen Graham) possui um palavreado calmo e educado. Declara o desejo de acalmar a fera, educá-la, e lhe dar carinho. Oferece (à distância, para não ser atacado) comida de qualidade, livros valiosos, além def programas inspiradores num VHS. A mãe Kathryn (Andrea Riseborough) também conversa com ele como quem falaria a um querido filhinho que se comportou mal. Até o pequeno Jonathan (Kit Rakusen) o trata como irmão mais velho, torcendo para brincarem juntos. Representam, assim, uma família tradicional, estruturada, disposta a oferecer afeto ao menino perdido. Mas por que pensaram em sequestrar Tommy, e por que ele em especial? Por que logo agora? O roteiro nunca se preocupa em excesso com estas motivações fundamentais, pincelando meros esboços de respostas.
O dispositivo se presta ao terror e ao suspense psicológico, entretanto, Komasa o registra na condição de um drama. A tortura, neste filme, se torna uma prática positiva.
Bom Garoto nos leva a compreender o lado dos familiares. Mais do que isso, convida-nos a torcer por eles. Afinal, com o passar dos dias e das semanas, Tommy se acalma. Ele compreende que a única chance de escapar ao cativeiro seria jogar as regras da casa. Por isso, conversa pacificamente, senta-se, começa a ler. Todos o felicitam por esta transformação digna de um despertar religioso — em muitos aspectos, o roteiro nos lembra as histórias de queda-e-ascensão, típicas das narrativas neopentecostais. Afinal, quanto maior o pecado, maior a redenção, correto? Desenha-se, estranhamente, uma família feliz formada por papai, mamãe, filho pequeno e novo filho (sequestrado e preso a uma corrente).
Esta premissa poderia dar origem a filmes radicalmente diferentes. Partindo do roteiro de Bartek Bartosik e Naqqash Khalid, o cineasta polonês teria elementos para abordar esta “normalidade” do sequestro enquanto algo grosseiro, como talvez Michael Haneke o fizesse. Poderia revelar, aos poucos, o aspecto asqueroso de uma família disposta a um crime tão brutal. O dispositivo se presta ao terror, e ao suspense psicológico, com facilidade. Entretanto, Komasa o registra na condição de um drama. Ele aparenta acreditar, sinceramente, que o menino está detido (contra a sua vontade) por uma boa razão. E, apesar da violência do procedimento, o gesto radical vale a pena, vistos os resultados em sua conduta. Logo, o sequestro pode ser desculpado. Os fins, neste caso, justificam os meios.
Aí reside o problema moral mais grave deste filme. Ele não apenas aborda a naturalização da violência por parte dos personagens, mas ele próprio naturaliza os gestos dos familiares. A conclusão, chocante em seu cinismo, confirma a tese de que Chris e Kathryn seriam pessoas de bem, que agiram de maneira impulsiva, talvez equivocada, porém, munidas de ótimas intenções. Isso é o que realmente conta, na perspectiva do autor. As atitudes posteriores de Tommy se prestariam a leituras psicológicas (a síndrome de Estocolmo, em particular), embora tal problematização jamais seja elaborada pelo discurso do filme. Para Komasa, este foi um sequestro gentil. Se você realmente desejar o melhor a uma pessoa difícil, e conseguir domesticá-la, não haveria real problema no caminho escolhido a tal pacificação.
Em paralelo, o roteiro nos lembra que existem outras formas de violência na sociedade. Encontra, na figura de uma imigrante ilegal, uma ferramenta de manipulação (e possível escapatória) a Tommy. Ora, a mulher será vítima de outras formas bárbaras de crimes sociais, e então, sumirá da narrativa. O longa-metragem nunca se importa de fato com Rina (Monika Frajczyk), que parecia, num primeiro momento, constituir a co-protagonista desta trama. A obra desperta a impressão de que adora colocar seus personagens em situações de abuso, sem demonstrar, em contrapartida, qualquer interesse em acompanhá-los a seguir. Quando Rina sai da casa, ela não diz mais respeito ao discurso, que lava as suas mãos quanto à tragédia anunciada. Qualquer possível empatia com a mulher estrangeira e perseguida desaparece.


A estética contribui a tamanho desconforto. Komasa filma o rapaz acorrentado assistindo a filmes, brincando com o “irmãozinho”, sem atribuir a tais instantes nenhuma forma de distanciamento crítico. (Novamente, teria sido aceitável que os personagens banalizassem este ato, mas o filme não poderia aderir à perspectiva dele, caso desejasse emitir qualquer reflexão crítica a respeito). A trama facilita o dispositivo de tortura — subitamente, surgem novos trilhos, cada vez mais complexos, para que a besta-fera, parcialmente acalmada, possa alcançar espaços inéditos da casa. O procedimento nunca vacila, nem apresenta falhas. Até a prisão resulta numa idealização do controle alheio por parte da direção — nenhuma polícia incomoda, nem vizinhos chegam para atrapalhar. O cineasta pretende deixar caminho livre aos sequestradores.
Assim, Bom Garoto se converte num filme perverso — algo muito diferente de um filme sobre a perversidade alheia. Ele adere, de maneira perturbadora, ao ponto de vista de seus agressores. Sugere, em primeiro lugar, que a dor sentida por eles, em função a um luto, desculpa a gravidade de seus atos. Insinua, num segundo momento, que a incivilidade do rapaz legitima a condução tão violenta por parte dos “pais”. Conclui, por fim, que havia amor envolvido, que todos se compreenderam, e que a experiência valeu a pena. Mesmo os mais asquerosos filmes de torture porn esclarecem que os maus-tratos representam práticas condenáveis — e a intensidade da filmagem equivaleria à desumanidade do ato. Para Komasa, em contrapartida, trata-se de um pequeno deslize. Há males que vêm para bem, aparentemente. Assim, o demônio se purifica e encontra o caminho da sociedade. A tortura, neste filme, se torna uma prática positiva.




