Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas (2026)

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título original (ano)
Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas (2026)
país
Brasil
linguagem
Experimental
duração
108 minutos
Direção
Carlos Adriano
visto em
59º Festival de Brasília (2026)

Descrever Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas enquanto adaptação cinematográfica de Em Busca do Tempo Perdido talvez constitua um exagero. O diretor Carlos Adriano está muito mais interessado na ideia de adaptar a obra-prima de Marcel Proust do que em fazê-lo de fato. Ele prefere dar um passo atrás e se perguntar: seria possível? De que forma? Com quais ferramentas? Em que medida isso confrontaria a percepção do próprio escritor, que não confiava na linguagem audiovisual para tal propósito? Ou, pelo contrário, toda adaptação constituiria uma traição e fricção, razão pela qual testar o pressuposto do autor seria não apenas legítimo, mas desejável?

Logo, o projeto experimental decorre de inúmeras pulsões. Representa uma evidente homenagem ao escritor, mas também uma provocação. Pode ser lido na forma de diálogo, dueto, mas uma disputa. Serve de valorização à literatura e, em paralelo, uma investigação de seus limites enquanto representação do real. O cineasta sempre foi um aficcionado pela palavra escrita, interessando-se por seu significado tanto quanto por sua aparência. Por isso, transpõe palavras, conceitos e citações ao próprio registro dos materiais de arquivo, ocupando a tela, cobrindo-a, marcando-a. Este não é um filme sobre as palavras, mas elaborado com elas, aproveitadas na condição de matéria-prima.

Carlos Adriano abraça o descontrole, a liberdade próxima do fluxo, do devaneio, do sonho. Retira a intelectualidade de seu espaço de reverência para “contaminá-la” com pixels, ruídos e pedaços de manuscritos.

O autor recorre aos tradicionais grafismos de Jean-Luc Godard, citado explicitamente no terço final. Acredita que a palavra possua um valor e função para além da semântica. De fato, é impossível ao espectador refletir acerca de tantos conceitos e ideias despejados com grande velocidade sobre a tela (às vezes, simultaneamente, em duas partes do mesmo enquadramento). As citações são descontextualizadas, e a seguir, reaproximadas, despertando sentidos inéditos, para as quais nunca haviam sido concebidas. Somos atropelados pelo turbilhão de estímulos visuais, sonoros e literários. Dificilmente Adriano esperaria que seu interlocutor esmiuçasse todas as propostas. Elas aparentam constituir meio e finalidade — uma retórica do gesto, uma crença na imagem-palavra, ou ainda, na palavra enquanto imagem

Ao mesmo tempo, a narrativa se estrutura em torno de capítulos (ornados por subtítulos igualmente poéticos-herméticos), demonstrando uma extensa pesquisa visual do cineasta a partir dos temas da memória e do tempo. Em se tratando de um longa-metragem extenso, composto unicamente de registros prévios, criados por terceiros, o resultado transparece um volume espantoso de fragmentos levantados por meio de sólida pesquisa acadêmica. Dos primeiros anos do cinema aos mais recentes, da película desgastada às captações digitais, passando pelo jornalismo e registros não-concebidos inicialmente para a finalidade artística, Adriano dispõe-se a abraçar todas as captações que, de maneira mais ou menos frontal, confrontaram-se às reminiscências e rememorações.

Enquanto isso, efetua aproximações pessoais, às vezes graciosas, mesmo lúdicas ou cômicas. A Madeleine de Proust se equipara à personagem Madeleine de Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock. A prostatectomia (procedimento de retirada da próstata) se converte em proustatectomia. A montagem incorpora a repetição, a falha, o glitch, o abstrato. Granula-se, funde-se, sobrepõe-se. A imagem gera desconfortos voluntários ao se combinar com ruídos altos, ou narrações inesperadas (ou ambos ao mesmo tempo). Ao invés de construir seu Em Busca do Tempo Perdido, o diretor prefere desconstruí-lo, tal qual o curioso que desmonta um relógio para compreender o funcionamento de suas engrenagens. O prazer se mostra menos vaidoso (provar sua capacidade de se confrontar a um clássico “inadaptável”) do que em relê-lo por outra perspectiva, expandindo os sentidos originais do escritor. 

Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas não se resume, entretanto, aos procedimentos experimentais em si. É interessante notar a disposição de Adriano em recuperar anedotas pessoais, a exemplo do testemunho de Jean Cocteau a respeito da personalidade carente e intempestiva de Proust. O poeta inclusive se diverte com a capacidade do escritor em rir da própria caligrafia ilegível. O personagem interessa tanto quanto a sua obra, razão pela qual os manuscritos retornam com frequência na montagem — um dos poucos itens frequentes, costurando a narrativa na totalidade. Por isso, investe-se no retrato do autor por trás do extenso livro, publicado entre 1913 e 1927. O espectador em busca de alguma indicialidade, ávido por informações precisas a respeito dos livros e de seu criador, também encontrará uma discreta disposição pedagógica por trás do ímpeto autoral de pintar com as imagens (alheias).

Para uma parcela do público, este trabalho corre o risco de soar hermético demais, confuso, inacessível — possibilidades certamente previstas e aceitas pelo cineasta. A exemplo dos curtas-metragens de Adriano, aproxima-se do desconforto do name-dropping, ou seja, a tendência a citar e referenciar o máximo de filósofos e artistas possíveis, no menor espaço de tempo. De fato, o longa-metragem não se priva de evocar praticamente todos os grandes nomes da intelectualidade moderna e contemporânea, além de artistas que já se debruçaram a respeito dos temas centrais de Em Busca do Tempo Perdido e publicaram suas reflexões próprias. São citados no status de autores admiráveis, mas também como tolkens, capazes de atribuir valor ao resultado em virtude de sua simples menção. (Em outras palavras, os autores se convertem em marcas, grifes).

Mesmo assim, a obra nunca se contenta com a mera enunciação de pensamentos de Marcel Proust, Jean-Luc Godard, Gilles Deleuze, Fernando Pessoa, Guimarães Rosa, Walter Benjamin, James Joyce, etc. Devora-os, tritura-os, até convertê-los em matéria de imagem — argamassa para a sua própria criação autoral. Nota-se um vigor sem precedentes nesta disposição em abraçar os autores por seus pensamentos, seus nomes, suas obras, e pelos contatos que possam estabelecer uns com os outros. Adriano faz prova de uma verve compulsiva na maneira como expande significados e campos de ação ao invés de restringi-los para melhor controlá-los em seu estudo. 

Pelo contrário, prefere o descontrole, a liberdade próxima do fluxo, do devaneio, do sonho. Retira a intelectualidade de seu espaço de reverência para “contaminá-la” com pixels, ruídos, pedaços de manuscritos. Evita a polidez habitual da representação histórica, acreditando que os séculos possam se encontrar, que os cinemas de antes e de hoje sejam associáveis, e que toda forma de produção seja passível de incorporação à receita — inclusive, reportagens acerca da limpeza étnica na Palestina, tema que tem dominado a produção cinematográfica do cineasta. Nesta horizontalidade de registros e pensamentos, e neste respeito equivalente a todos os autores, cineastas e produtores audiovisuais, reside uma generosidade ímpar por parte do cineasta. Assim, ele demonstra que, melhor do que adaptar servilmente o trabalho de Proust, pode desmontá-lo e remontá-lo, encontrando brechas inesperadas de olhar e de leitura.

Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas (2026)
8
Nota 8/10

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