Pequenas Tragédias (2026)

Reinvente seus traumas

título original (ano)
Pequenas Tragédias (2026)
país
Brasil
gênero
Drama, Comédia
duração
119 minutos
direção
Daniel Nolasco
elenco
Guilherme Théo, Geovaldo Souza, Lucas Drummond, Aivan, Marcelo Camargo, Ronaldo Martins, Karvalio, Serge Bear
visto em
59º Festival de Brasília (2026)

O diretor Daniel Nolasco nasceu em Catalão, Goiás. Sempre amou esta cidade, que filmou inúmeras vezes em seus longas-metragens, contribuindo a suprir a lacuna de representatividade goiana no cinema nacional. Mesmo assim, o afeto se combina com o olhar crítico, posto que o cineasta é um homem gay, oriundo de uma cidade conservadora e homofóbica. Foi vítima de agressões mais ou menos veladas, além de testemunhar inúmeras violências contra amigos. Deste misto de amor e ódio, carinho e ressentimento, surge Pequenas Tragédias, álbum de retratos assumidamente deturpado pela memória afetiva. 

Ao invés de meramente retomar os episódios verídicos que aconteceram a si próprio, e às demais figuras queer da cidade, o autor os reinventa. Aplica um filtro colorido, artificial e um tanto humorístico aos eventos. Afinal, Nolasco tem pautado sua cinematografia recente pelas máscaras teatrais da tragédia e comédia, condicionando suas obras pela alternância de felicidades (“Apenas Coisas Boas”, dizia o título da obra anterior) e tristezas (as Pequenas Tragédias deste projeto). O criador descreve este trabalho enquanto uma comédia, apesar de ser um filme triste. Afinal, rimos das circunstâncias absurdas, e do ponto de vista libidinoso oferecido a situações não necessariamente eróticas a priori.

Nolasco compreende que tanto o prazer quanto o pesar se fazem mais fortes na ausência. Constrói, portanto, uma ode às preliminares — a antessala do sexo e da morte.

Isso porque uma das principais ferramentas para reler suas dores reside no fetiche. O musculoso policial militar que interpela o personagem à beira da estrada veste um uniforme de couro. O antigo desafeto em um supermercado é trocado por um “ator gostoso, só pelo prazer visual”, já que o original, nas palavras do narrador, era feio. Cada ator é convidado a vestir calças ou bermudas sem cueca, de modo a deixar o pênis marcado no tecido. A câmera se foca com insistência nos volumes de sungas e calças jeans — inclusive, dos agressores e perseguidores. 

Logo, o caminho para retomar estes traumas por uma perspectiva saudável consiste na erotização do outro. Por esta perspectiva fictícia, Nolasco passa a controlar aqueles que controlaram a situação verídica. Transforma-os no que gostaria que fossem: homens fortes, gays, nus ou seminus, oferecidos ao olhar desejante. Assim, o domínio que os agroboys exerciam sobre os catalanos gays brutalmente agredidos se converte na servilidade destas figuras dentro do dispositivo fictício. O autor poderia simplesmente denunciá-los, lamentar os fatos, alertar contra perigos, exigir punições. Ora, ele prefere sua reparação simbólica, abandonando qualquer postura de passividade ou conformismo. Prefere, portanto, remodelar a imagem e o valor de seus algozes, convertidos em modelos de uma fábula erótica.

Esta estratégia nunca significa a adesão às atitudes dos sujeitos truculentos, pelo contrário. O longa-metragem não demonstra tesão na violência, mas na ilusão de modificar o passado (os abusos cometidos a terceiros). Neste releitura, não há uma única cena de agressão explícita — nem de sexo. Os corpos nus, e os pênis ocasionalmente eretos, deixam ao espectador a tarefa de completar as ações com seu próprio arsenal de prazeres projetados. Sugere-se todo o potencial sexual e mortuário destes indivíduos superpotentes. Entretanto, concretizar o sexo, ou o assassinato, equivaleria a optar por um única representação possível, uma “versão oficial dos fatos”. Em outras palavras, o real mataria a ilusão. Nolasco prefere que seu interlocutor imagine tanto os pontapés desferidos contra uma vítima, no meio da rua, quanto a pegação entre dois sujeitos num banheirão.

Para equilibrar a tensão inerente a ambos os domínios (o crime homofóbico e o sexo em público), Pequenas Tragédias oferece uma generosa dose de humor e autoparódia. Guilherme Téo interpreta uma versão de Nolasco, surgindo abruptamente em instantes de fetiche para explicar ao espectador, presumido hétero e/ou inocente, o significado de cruising, por exemplo. O narrador desafetado (num tom de fala que remete bastante à voz condutora de Vinil Verde, de Kleber Mendonça Filho) relembra, em teor metalinguístico e confessional, as dificuldades da própria produção: a mentira de um ator a respeito de suas habilidades na motocicleta; a impossibilidade de mencionar o nome de um supermercado, por medo de um processo judicial; a promessa aos distribuidores de não concretizar nenhuma cena de sexo.

O fetiche da masculinidade, abordado com tanta seriedade em Vento Seco, e transformado em melodrama em Apenas Coisas Boas, retorna na condição de pastiche — praticamente uma carnivalização do imaginário gay. Entre cada capítulo, um sujeito musculoso expõe o corpo diante de telas multicoloridas. Ele recebe massagem com óleo, e funciona enquanto “respiro” ao drama. A montagem de Luciano Carneiro equilibra cada segmento melancólico com algum eufórico, diluindo a raiva e a indignação em um erotismo tão ostensivo que se faz leve, lúdico, divertido. A disposição a mirar tantos pacotes, incluindo do personagem abusador, desconstrói a perspectiva unicamente moral. De repente, o sujeito não significa apenas o agressor de gays, mas um pedaço de carne, tão ridicularizado quanto desejado, e exposto para nosso prazer imediato, gratuito. A revanche de Nolasco consiste em desvesti-los de sua subjetividade e ideologia — não há uma única menção às religiões, nem aos políticos locais, por exemplo.

Assim, o autor conquista um equilíbrio dificílimo para o cinema queer. Ele compõe uma obra repleta de nudez e desejo, apesar de leve, divertida, quase familiar, no sentido de lidar com temas e valores universais de amizade, carinho, afeto, pesar, empatia. Aborda uma realidade bastante segmentada (a vida LGBT de Catalão) de maneira ampla e acessível, pois repleta de falhas, desejos não concretizados, lembranças deturpadas, memórias fragmentadas. Em sua incompletude, suas vontades e planos, estes personagens remetem a qualquer espectador de classe média, independentemente de sua sexualidade ou cidade de origem. Os protagonistas “reais” estão marcados por ironias (o rapaz lindo de baixa autoestima; a chefe do supermercado constituindo o único suporte ao Nolasco fictício), espelhando a própria Catalão, também transformada em personagem (uma cidade que vende o progresso e a modernidade, enquanto preserva uma mentalidade conservadora).

Restarão na memória momentos belíssimos, fáceis de destacar devido ao caráter episódico da obra. O segmento envolvendo a travesti Monalisa, apresentando-se diante de um fundo azul, certamente proporciona uma das melhores (a melhor?) cena do cinema brasileiro em 2026. O desfecho, imaginando uma cidade vazia (em virtude de tantas migrações e exílios), porém assombrada pelo som de seus crimes impunes, aproxima-se do horror. As pequenas piadas sexuais, tão banais quanto sérias em suas intenções (o jogo de pega-vareta) traduzem a homofobia de um local onde os habitantes precisam encontrar subterfúgios lúdicos para serem quem são. Nolasco compreende que tanto o prazer quanto o pesar se fazem mais fortes na ausência. Constrói, portanto, uma ode às preliminares — a antessala do sexo e da morte. Diverte-se, lamenta e se enfurece na mesma medida. Deseja e parodia estes homens; deseja e parodia esta cidade. A ironia se espalha pelos ventos: estas tragédias nunca foram pequenas, afinal.

Pequenas Tragédias (2026)
10
Nota 10/10

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