Apenas Coisas Boas (2025)

Infinito enquanto dure

título original (ano)
Apenas Coisas Boas (2025)
país
Brasil
gênero
Romance, Drama
duração
108 minutos
direção
Daniel Nolasco
elenco
Lucas Drummond, Fernando Libonati, Liev Carlos, Renata Carvalho, Igor Leoni, Guilherme Théo, Norval Berbari, Lizz Miranda
visto em
14º Olhar de Cinema (2025)

Desde as primeiras imagens, Apenas Coisas Boas apela a imaginários consagrados do cinema de gênero e da masculinidade. Marcelo (Liev Carlos) dirige sua motocicleta pelas estradas de Goiás, usando óculos escuros e uma pesada jaqueta de couro, que não necessariamente condiz com o traje habitual da quente cidade brasileira. No entanto, o figurino se justifica ao lado das menções a Tom of Finland num posto de gasolina, e aos cartazes homoeróticos na loja de conveniência. Como se percebe, não nos encontramos num universo naturalista. 

A procura por iconografias persiste. As camisas justíssimas do fazendeiro Antônio (Lucas Drummond) tampouco assimilam o realismo à brasileira — o filme claramente busca um imaginário norte-americano de virilidade. Isso justifica, por extensão, o sangue claramente falso, o arco-íris ao fundo da cena de perseguição, e a galeria de arquétipos que, nas mãos de um diretor menos cuidadoso, talvez virasse uma representação do Village People (o motoqueiro, o caubói, o caminhoneiro, etc.).

Ora, Daniel Nolasco possui grande conhecimento tanto deste espaço onde nasceu e vive, quanto da estética do cinema queer norte-americano, e dos artifícios habituais do cinema de gênero. Vento Seco (2020) e O Cavalo de Pedro (2023) já demonstravam um cinéfilo no domínio de suas referências, capaz de incorporá-las organicamente às necessidades da trama ao invés de acumular citações. Não retrata exatamente o Brasil como o conhecemos, nem recorre a um resgate direto da matriz norte-americana: o goiano concebe um espaço imaginário onde reina o desejo. Ali, os homens fazem sexo e se matam; se amam e se afastam.

Apenas Coisas Boas parte de um mundo acessível e universal para, então, mergulhar em seu casulo particular, onde questiona se houve morte, se houve separação, se há amor.

Isso significa que o mundo externo não vem interferir com o imperativo da libido. Nunca se cogita levar Marcelo, gravemente ferido, ao hospital. Apesar de alguns assassinatos brutais, a polícia jamais aparece no campo. Antônio prepara queijo e leite para compradores invisíveis. Logo, os personagens acertam as contas ente si, entre afetos e desafetos. Para Nolasco, é mais importante representar a lambida sensual numa ferida aberta, e o olhar de desejo diante do amante no banho, do que as obrigatoriedades da vida cotidiana. Aqui, o real existe enquanto pano de fundo (sobretudo, na primeira metade), permanecendo entre parênteses, para acrescentar uma discreta camada de significado — porém, sem se sobrepor à trama.

Esteticamente, Apenas Coisas Boas encontra maneiras plasticamente deslumbrantes de representar o tesão. Os habituais zoom-ins do diretor de fotografia Larry Machado expressam esta vontade de se aproximar do outro e da cena escondida, penetrando aqueles corpos. Raríssimos filmes brasileiros contemporâneos ainda utilizam o zoom de maneira tão expressiva e elegante. Privilegiam-se as construções simétricas, arquitetônicas, nas quais o espaço possui tanta importância quanto os indivíduos. Assim, compreendemos o peso da solidão, a impossibilidade de fuga, a sensação de dias imutáveis. As paisagens transparecem a psicologia dos personagens.

Tamanho esmero na plasticidade se torna ainda mais importante devido às numerosas cenas de nudez, com ocasionais representações de sexo. O bom gosto do conservadorismo costuma associar o sexo a algo sujo, sombrio, indigno de belezas e contemplação. Ora, este longa-metragem filma com igual romantismo um abraço no campo e um sexo oral. Ambos transmitem amor, afeto, desejo. O cineasta desconstrói tanto o peso espetacular da nudez quanto o valor de choque do sexo, retratando-os com preciosa banalidade. Talvez o aspecto mais incômodo para a maior parte do público provenha justamente da bem-vinda representação amoral (ao invés de imoral) do sexo. Adultos que se amam, transam — simples assim. Se consideramos este ato comum na vida de um casal, por que não seria digno ocupar nossos filmes, tanto quanto o beijo ou as juras de amor eterno? Por que um boquete não poderia ser romântico?

Assim, a primeira parte transborda de carinho e amor, mergulhando sem meios-termos no melodrama. A cerca de um terço da trama, os amantes já se conheceram, se apaixonaram, enfrentaram oponentes raivosos e encontraram sua maneira de permanecer unidos. Na maioria dos projetos, isso ocuparia a totalidade do roteiro. O que resta, então, à aventura de Antônio e Marcelo? Ora, esta obra é dividida em duas metades bastante distintas, assim como fez Juliana Rojas em As Boas Maneiras (2017) e Cidade; Campo (2024), por exemplo. A segunda parte apresenta uma geografia distinta, em outra época, com novas referências de cinema e gênero. A experiência se transforma por completo.

Esta guinada abrupta pode despertar uma perda da adesão, ou mesmo certa decepção — justamente porque a parte inicial provocava efeito tão encantador, com suas regras próprias. Saltando ao futuro, Antônio passa a ser interpretado por Fernando Libonati, numa maneira mais reclusa, interiorizada, de olhos semicerrados e expressões indefiníveis. Agora, lidamos com um mistério, uma investigação policial, o humor garantido pela empregada doméstica invasiva (Renata Carvalho) e o cachorro cego, além da sedução do assistente musculoso. É muito difícil enxergar neste núcleo a paixão de antigamente, ou ainda a contemplação dos sentimentos. Nolasco troca o idílio amoroso pelo cinismo das relações contemporâneas.

Este apontamento pode sustentar certo romantismo à moda antiga, é claro. Aos poucos, a narrativa sugere que a morte torna uma existência eterna (nos moldes clássicos de Romeu e Julieta), enquanto a realidade desgasta os laços existentes. Em outras palavras, a morte une as pessoas, enquanto a vida nos afasta. Mesmo assim, o roteiro começa a multiplicar os pontos de fuga, as pistas falsas e outros elementos de impacto moderado: os arranhões na porta, as manchas no copo, a suspeita de envenenamento, a dúvida quanto à identidade real do parceiro. Em paralelo, como tolerar um protagonista capaz de abandonar um cachorro idoso? Trata-se provavelmente da única falha de caráter imperdoável à sensibilidade do século XXI, capaz de unir direita e esquerda, conservadores e progressistas: nas ficções, mate pessoas e esquarteje inimigos, mas não ouse maltratar um cachorro gentil. 

Antônio se torna um personagem opaco. Não sabemos mais o que pensa, sente ou deseja — logo este homem que, pouco tempo atrás, era pura exterioridade e iniciativa. As sofisticadas composições de imagem se fazem mais pragmáticas, funcionais, de modo que nem mesmo a escapada rumo a uma pegação noturna transmite furor. Afinal, o corpo entregue aos passantes soa desconectado, despossuído — um homem que não está mais lá. Não ajuda o fato que algumas falas são prejudicadas pela dicção de parte do elenco, caso em que as legendas em inglês auxiliaram na compreensão. Apenas Coisas Boas parte de um mundo profundamente acessível e universal para, então, mergulhar em seu casulo particular, onde questiona a todo instante se houve morte, se houve separação, se há amor.

No final, Nolasco prefere nem filmar o mundo realista, nem concretizar um universo fabular novo, mas evocar acontecimentos que se recusa a representar em imagens. Os sons de uma mensagem telefônica evocam acontecimentos potentes, repletos de valor (caso tenham acontecido de fato). Pode-se falar do projeto mais metafísico de seu realizador, que abandona o recurso imediato ao mundo palpável e carnal (o couro de Mr. Leather, a materialização da História em O Cavalo de Pedro, as festas fetichistas de Vento Seco) rumo à representação de algo invisível — uma ideia, uma possibilidade, uma alusão. O cinema queer brasileiro costuma se pautar pela materialidade imediata dos corpos e afetos, em resposta à invisibilidade dos indivíduos LGBTQIA+. Surge, portanto, a necessidade de mostrar as coisas como elas são, escancarando, aproximando, revelando. Em contrapartida, o diretor busca um intermédio no qual ainda preserve o mistério — a subjetividade queer enquanto conceito abstrato.

Apenas Coisas Boas (2025)
7
Nota 7/10

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