Nem Todos Sabem (2026)

Retrato do santo

título original (ano)
Nem Todos Sabem (2026)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
83 minutos
direção
Edileuza Penha de Souza
visto em
59º Festival de Brasília (2026)

Para quem ainda não conhece o músico João Tomé, ele foi um “fenômeno musical”. Um homem “fora de série”, “exemplo de vida”, “uma pessoa iluminada”, que “derramava luz por onde passava”. Um “gênio”, um “craque”, uma “criatura inacreditável”. Além disso, era um “marido maravilhoso”, “bom pai e bom amigo”, “de uma coragem, de uma perfeição, de uma sensibilidade” ímpares. “João Tomé é amor, é perseverança”. “Um visionário”, dotado de “memória auditiva fantástica” e “ouvido absoluto”. Embora tocasse em bares, não gostava da folia como os outros. Era um santo, enfim. 

Entre as armadilhas possíveis de um documentário-homenagem, Nem Todos Sabem apela a uma das mais desgastadas: o condicionamento do olhar do espectador através de infinitos elogios, logo nos minutos iniciais. Na ânsia por louvar o protagonista, costuram-se apenas as falas mais romantizadas e hagiográficas. Mesmo as surras dadas nos filhos são interpretadas como sinal de um pai que se importava de verdade com a educação deles. E as crianças nem mesmo escapavam aos tapas, de tanto que amavam este homem perfeito! Ora, os criadores nem cogitam que o simples fato de dedicar uma obra inteira à vida de João Tomé represente uma ode ao homem e suas conquistas. Deste modo, a sucessão açucarada de virtudes torna-se retórica e redundante. Além disso, desperta a impressão de irrealidade — alguém conhece uma pessoa dotada unicamente de qualidades?

Nem Todos Sabem se conclui com uma mise en scène convencional, avessa a qualquer forma de risco. Confunde homenagem com idealização, e documento histórico com memória afetiva.

Em seguida, recorre aos familiares do músico para descreverem seu percurso pessoal: a perda da visão na infância, a adaptação à deficiência, a aptidão musical, o casamento, os filhos, a mudança para Brasília, a formação de um trio de deficientes visuais, etc. Surpreende que a diretora Edileuza Penha de Souza se interesse muito mais pelo percurso pessoal de João Tomé do que pela ascensão musical do mesmo. Escutamos poucas composições do prolífico artista, e jamais se analisa sua inserção no meio do choro e da bossa nova locais. Entretanto, seguimos com detalhes a dura aquisição de um apartamento na quadra 403, e a adaptação à primeira bengala dobrável da época.

Ainda mais curiosa é a escolha de utilizar pouquíssimas imagens do próprio homem no filme em sua honraria. Fotografias esporádicas do compositor surgem em tela, mas nenhum vídeo, ou fala do mesmo incorpora o material de arquivo. O mineiro nunca teria concedido entrevistas, conservadas até os dias de hoje? Apesar de tão preocupado com sua imagem, suas roupas e aparência, não possuía nenhum registro de si próprio? Diante desta ausência, o documentário multiplica as impressões em terceira pessoa, descrevendo-o da maneira mais linear, cronológica e explicativa possível. Ao invés de compreender João Tomé, o filme busca resumir suas principais ações, tal qual um verbete do Wikipédia.

Em paralelo, os entrevistados comunicam-se em uníssono. Apesar de serem muitos, transmitem uma versão idêntica dos fatos — nenhuma divergência ou atrito atribui qualquer forma de complexidade ao retrato. Já a montagem de Rodrigo Trindade estima ser capaz de provar as virtudes enunciadas por meio da repetição. Em outras palavras, se duas ou três pessoas dizem algo semelhante a respeito de João Tomé, logo, deve ser verdade. Por isso, um dos filhos lembra que o pai se recusou a tocar em rodoviárias em troca de esmolas. Um segundo, e um terceiro filho corroboram esta versão. Alguém sugere que ele nunca pedia ajuda aos demais, em função da deficiência visual. Duas ou três falas idênticas reforçam a informação. E assim por diante. 

A edição recorre a uma única ferramenta (o fade to black) para encerrar cada fala ou sucessão de fotografias não-tratadas, remetendo a uma apresentação de slides, ou uma criação via Powerpoint. A repetição se prolonga em instantes tais quais a menção à primeira valsa de João Tomé, “Amor de Mãe”, em duas cenas quase idênticas comandadas pela filha dele. É uma pena que o filme se contente com a linguagem tão acadêmica dos talking heads com rostos comportadamente acomodados no centro da imagem, resgatando lembranças meramente gentis e comemorativas. Nunca se recorre a uma dissociação criativa entre som e imagem, nem sobreposições, associações inesperadas, ou uma pesquisa aprofundada de material de arquivo. Contenta-se com as fotos mais evidentes (os personagens citam um lugar, e a direção nos mostra a fachada deste local), além de trechos de filmes a respeito da construção de Brasília.

Ao menos, o documentário apresenta um trabalho bastante eficiente de fotografia (de Cled Pereira e David Alves Mattos) e som (por parte de Herison Pedro). Ao contrário de tantos filmes independentes apresentados no 59º Festival de Brasília, com deficiências graves no tratamento de luz e na qualidade de som direto, este projeto brasiliense possui um som limpo, claro, além de um cuidado na iluminação e no tratamento de cores de cada entrevista. Nota-se o intuito de compor planos simples, porém eficazes (as filhas ao lado do piano, que atravessa parte do enquadramento) enquanto os filhos e filhas discorrem a respeito do pai no interior de suas casas, em locais pensados para uma iluminação adequada. Esta é uma forma de respeito ao personagem, e ao próprio cinema enquanto linguagem.

Mesmo assim, Nem Todos Sabem se conclui com uma mise en scène convencional, avessa a qualquer forma de risco. Para a vida de um músico, falta explorar suas composições, ampliando o uso desta sonoridade na narrativa. Ressente-se da contextualização mais ampla na sociedade e no grupo de artistas da época, para além da insinuação de que Brasília seria o epicentro da música clássica na América Latina. (A afirmação é plenamente justificável, entretanto, falta justificá-la). Terminamos cientes da existência deste homem maravilhoso, puro, gentil, perfeito. O projeto se baseia na ampla defesa do caráter de alguém que, até onde se saiba, não era atacado por ninguém. Confunde homenagem com idealização, e documento histórico com memória afetiva.

Nem Todos Sabem (2026)
4
Nota 4/10

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