
Certo dia, os vasos sanitários de um prédio começam a atacar seus moradores. A ideia, por si só, soa insana, chocante, criativa. Quem pensaria desenvolver um longa-metragem a partir de uma privada assassina? Na linha das comédias de terror B, como O Ataque dos Tomates Assassinos (1978) e A Camisinha Assassina (1996), o filme brasileiro imagina seu próprio objeto inanimado, capaz de semear o pânico. Então, diante do ineditismo da proposta, tem caminho livre para imaginar as reviravoltas que lhe convierem — qualquer justificativa pode se aplicar a algo absurdo a priori, posto que a lógica, a ponderação e a coerência foram descartados desde o princípio.
Mesmo assim, os diretores Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner optam por uma construção surpreendentemente comedida. Os cineastas partem do luto (um motivo frequente no terror) da mãe traumatizada pela perda do filho pequeno, num acidente envolvendo a ruptura da cerâmica de um vaso sanitário. A cena é explícita, porém velocíssima, quase um pequeno flash. Não possui, em si, objetivo declarado de chocar, nem provocar nojo. Nos anos seguintes, Malu (Martha Nowill) convive com o receio de usar privadas, que lhe remetem à tragédia. Ela perde o controle de Gênesis (Benjamín), sue filhe não-binárie, transbordando de rebeldia e exigindo atenção. Esta mãe deprimida sofre no próprio corpo (o intestino preso) as consequências diretas da dores psíquicas. Às crianças pequenas, ela explica que “tudo na vida dói”, e a narrativa se esforça em prová-lo.
Um longa-metragem que pretende homenagear o cinema B através dos elegantes recursos do cinema A. Ao menos, ganhamos nossa própria comédia trash, nosso exploitation nacional.
Assim, numa conjunção improvável de ingredientes (vômito, sangue e um dente de criança sacrificada), desperta-se uma maldição insuspeita. Ora, por que todos os sanitários daquele edifício começam a atacar seus frequentadores? Por que o efeito não se espalha à vizinhança? Inicialmente, podemos suspeitar de uma vingança deliberada dos vasos sanitários contra infratores das normas (o garotinho pula onde não deve; a vizinha idosa rouba itens do banheiro alheio). Depois, entretanto, descobrimos que os objetos atacam a todos, democraticamente. O roteiro jamais se aprofunda no modus operandi do monstro que, às vezes, quebra os corpos antes de engoli-los, porém, em outras ocasiões, conserva-os numa gosma fluida, de onde ainda podem se comunicar. Ocasionalmente, o sangue mancha um banheiro inteiro, mas em situações distintas, os corpos simplesmente desaparecem sem deixar traços.
Nem mesmo as motivações ou transformações do adversário interessam aos criadores. Como exatamente nasce este fenômeno? Já havia acontecido antes? Por que exigiria estes elementos precisos à sua detonação? Por que às vezes a privada permanece parada, sugando magneticamente os corpos em seu interior, entretanto, depois se move, e bate intencionalmente a tampa contra a cabeça de um personagem? Logo, é difícil nos indignar contra este vilão desprovido de origem e de destino; de métodos e de ambições. As mortes ocorrem de modo aleatório, impedindo que os personagens compreendam o fenômeno e se reúnam para combatê-lo, como de costume em aventuras do gênero. A jornada se abre e se encerra em plena constatação do fenômeno.
Ao espectador, resta a longa promessa de uma carnificina silenciosa. Um personagem desaparece; outro sofre um pequeno ataque, e então some de cena. Ninguém dá pela falta de um coadjuvante essencial, nem acredita na evidência de um fenômeno sobrenatural. (Outro hábito, no horror, diz respeito à punição pela ingenuidade ou ignorância. Posto que desprezaram sinais óbvios de perigo, precisam pagar por isso). Vinagre e Gewdner seguem tateando o caminho do gênero, entre conceber personagens comuns cercados por um mundo incomum (Malu, Bernardo) e coadjuvantes incomuns inseridos num universo igualmente incomum (a vidente que lê catarro e fezes, a vizinha excêntrica). Às vezes, aparentam criticar uma pós-modernidade caótica, e próxima de nós (os chás de revelação, a cultura dos influenciadores digitais), mas em outras ocasiões, prefere códigos abruptos e inverossímeis (a aparição do sorveteiro ao final, as roupas e o comportamento dos policiais).
Mas talvez a principal indefinição de mise en scène diga respeito ao modo de produção do trash. A tradição deste cinema de exploitation, voltado às reações corpóreas (nojo, medo, excitação) e ao mau gosto assumido, se constrói através de uma produção igualmente trash. Em outras palavras, a estética do improviso, do faça-você-mesmo, das soluções caseiras para indicar sangue e mortes. Parte do interesse pelos tomates, camisinhas, elevadores, sofás e carros assassinos residia na sua fisicalidade, no aspecto analógico empregado para sugerir a magia — em outras palavras, no recurso ao real para aludir ao irreal.
Ora, em Privadas de Suas Vidas, esta materialidade fundamental se perde. Em primeiro lugar, devido ao uso polido, profissional e ostensivo de efeitos visuais. Há pequenas bolhas de sangue voando pelos ares, feixes luminosos atravessando o edifício, construções plausíveis de vísceras e fluidos. A fotografia em 16mm provavelmente visa aludir aos filmes B de antigamente, entretanto, aplica-se a uma contemporaneidade (o mundo dos celulares e influencers) distante das referências de base. A fotografia de Daniel Venosa é tão preciosista, em seu contraste extremo e saturação acentuada, que nunca soa, justamente, trash. A nojeira, o lixo, o tosco, o revoltante, são filmados por meio de uma linguagem nada asquerosa. São endinheirados, competentes e comportados demais para o desejo de honrar uma tradição do mau gosto enquanto meio e finalidade.


Chegando ao clímax, quando inúmeras subtramas se mesclam (o chá de revelação, o intestino preso, o sofrimento de Gênesis, o adeus do zelador, a corrente perdida, os maus-tratos a crianças com deficiência), encontra-se, enfim, o nível de exagero esperado de tal premissa. As fezes se convertem em espetáculo — um show que contamina a todos, tomando seus corpos e apodrecendo o ambiente. Esta era a intensidade e delírio esperados, de certa forma, na totalidade da obra — um convite ao risco, à provocação, à ousadia. Por mais que a segurança de uma grande produção ajude neste instante, ele ainda se entrega aos absurdos (a quantidade de fluidos e líquidos) condizente com o escopo prometido desde o princípio.
Ao final, resta a ironia de um longa-metragem que pretende homenagear o cinema B através dos elegantes recursos do cinema A. Ora, as comédias de terror de antigamente soavam toscas pelos orçamentos limitadíssimos, mas também porque assumiam a precariedade enquanto motivo de orgulho. Este não é o caso do belo e estetizante Privadas de Suas Vidas. Ele conta com excelentes atuações (a desenvoltura habitual de Martha Nowill, o trabalho de composição de Olivia Torres) ocupando uma narrativa com certo receio de chocar de verdade — pelo menos, até o clímax e a conclusão. Ora, quando se escolhe desenvolver um projeto a respeito de privadas assassinas, que se explore todo potencial da premissa raríssima no cinema brasileiro. Ao menos, ganhamos nossa própria comédia trash, nosso exploitation nacional, nossa paródia do pavor social ligado ao gênero e à sexualidade. Enquanto pesquisa pessoal, e disposição dos criadores a se colocarem em caminhos nunca antes traçados, o resultado se revela empolgante quanto aos próximos passos que tamanha inventividade pode gerar.




