Os Fantasmas Gentis (2026)

Pequenos encantos

título original (ano)
Os Fantasmas Gentis (2026)
país
Brasil
gênero
Drama
duração
120 minutos
direção
Caetano Gotardo
elenco
Andrea Marquee, Vinicius Meloni, Makena de Paula, Thaia Perez, Mauricio Flórez, Andreas Mendes, Dirce Thomaz, Layla Ruiz
visto em
59º Festival de Brasília (2026)

Inês (Andrea Marquee) adora assistir a competições de surfe na televisão. Ela aprecia, em particular, a espera dos competidores até a chegada da próxima onda. Hélio (Vinícius Meloni), estudioso dos pássaros, tem predileção pelo urutau, ave que muitos consideram feia, e cujo canto desemboca numa melodia triste. Inês se deslumbra ao descobrir, através de uma ligação  telefônica equivocada, a existência de outra mulher com seu mesmo nome. Hélio surpreende-se que um médico especializado no combate à dor possa, ele próprio, infligir dor a terceiros. Juntos, eles refletem: a metamorfose seria fisicamente dolorosa aos animais?

Os Fantasmas Gentis é composto de instantes de encantamento. Estas epifanias são visíveis apenas aos personagens solitários, além do espectador cúmplice — porém, para o resto do mundo, nada relevante acaba de acontecer. Somos nós que constatamos a profunda expressão de esplendor do rapaz, ao presenciar Inês cantando no karaokê pela primeira vez; ou ainda o rosto da mulher, perdidamente apaixonada, depois de uma noite de sexo. Testemunhamos aqueles fragmentos de uma revolução interna, quanto a psique e as entranhas estremecem, embora o rosto finja normalidade. O contraste entre os corpos comportados e os sentimentos turbulentos constitui a matéria-prima do novo projeto dirigido por Caetano Gotardo.

Numa realidade levemente suspensa, Gotardo constrói seu grande espetáculo das minúsculas coisas. Todo símbolo desta jornada retorna duas, três vezes, acrescentado de valor e significado.

Como de costume nos trabalhos deste cineasta, poeta e dramaturgo, o prazer da palavra falada se torna tão grande quanto aquele das imagens. O diretor adora conferir ao elenco longuíssimos diálogos, eloquentes e bem estruturados, a serem desempenhados em plano-sequência — ou seja, sem um único corte. Para uma narrativa de 120 minutos, há poucas cenas, posto que cada encontro a dois se desenvolve longamente antes de passar à interação seguinte. Assim, as curtas engasgadas dos atores soam como tropeços perfeitamente naturais diante de um texto tão longo que, entretanto, jamais se cola na íntegra ao registro oral. Estamos um pequeno grau acima do naturalismo, visto que, apesar da desenvoltura impecável dos dois intérpretes, a clareza excessiva de suas falas, e a oratória profissional dos personagens, separam estas reuniões de uma noite casual entre amantes.

De fato, Gotardo mostra apreço por um cinema do controle. Os planos são rigidamente compostos — fixos, imóveis —; as falas transparecem o refinamento da escritura de muitos tratamentos; e nenhuma dinâmica externa vem abalar a conversa que constitui o foco de cada cena. Este não é um espaço de improviso, e sim, de precisão. Caso tamanha ingerência no meio se aplicasse a um grande tema (denúncias políticas, mazelas sociais, etc.), talvez resultasse numa pompa excessiva, ou um senso de autoimportância. O grande diferencial desta abordagem reside na aplicação do rebuscado arsenal às pequenezas cotidianas. Inês não gosta de chá de hortelã, cujo gosto lhe remete a pasta de dente. Ela se afeiçoa por uma cliente do banco devido ao gosto por biscoitinhos de cebola. Em casa, as duas declaram seu amor às toalhas de crochê.

Há muitas belezas, e muitos afetos circulando pelos espaços mais banais — a sala da casa de classe média, o karaokê comum dos colegas da empresa, o bar onde existe um canto particularmente tranquilo. Gotardo se mostra um exímio cronista, no sentido de observar estes minúsculos índices do dia a dia, que nos passam despercebidos, atribuindo a cada um deles uma magia, um valor especial. Será que o filho da protagonista se interessa por comida coreana apenas por causa das séries? – indaga-se a mãe. Até elementos possivelmente alarmantes ao resto da sociedade (a descoberta da homoafetividade de um personagem, a mulher que abre mão da guarda do filho) são tratados com uma tranquilidade avessa a julgamentos morais, partindo de um pressuposto de empatia. Os amigos-amantes-colegas (o que são, afinal, Inês e Heitor?) seguem tomando chá, ou provando um vinho. 

Tamanha horizontalidade entre os personagens e os espaços se reflete na maneira muito particular de enquadrar objetos centrais à trama. O sofá vermelho de Inês funciona, na verdade, como um divã: sempre que alguém se senta ali, começa a confessar segredos não-elaborados nem mesmo pelo próprio indivíduo. Este palco de insights será filmado por todos os ângulos possíveis: de frente, do lado de um, do lado do outro, de costas, em posição 3/4 para ele e para ela. As duas figuras ocupam um palco 360º, cuja presença de cores (o vermelho do tecido, a mancha amarelada do lustre ao fundo) demarca as orientações espaciais. Inês e o filho leem um conto fantástico a respeito do urutau (um indício do que virá a seguir), porém, o texto em si é ocultado do espectador. Ela se comunica com o ex-marido via chamada de vídeo, porém o sujeito jamais responde, e tampouco o vemos. Ele existe de fato?

Assim, numa realidade levemente suspensa, Gotardo constrói seu grande espetáculo das minúsculas coisas. Deixa que os personagens comentem, involuntariamente, seus pressupostos de mise en scène: “Acho importante falar sobre essas coisas sem importância”, “Deviam mostrar o todo tempo a espera. Eu gosto”, “Eu acho que nunca ouvi alguém dizendo isso dessa maneira”. Isso reflete, sem dúvida, a tendência do dispositivo a estranhar o banal. Para ele, especial de verdade é o pássaro feio que ninguém vê, porque se confunde com a cor do tronco das árvores, e a grande cantora que entoa uma música só, recusando-se a se apresentar pelo resto da noite. Há cortesias (o crochê de presente), mal entendidos (o encontro com a possível Teresa no banco), embaraços (as piadas de Hélio, que não funcionam). Neste percurso, nota-se uma infinita ternura por um e por outro, não apesar de seus erros, mas graças a eles. 

Por fim, em Os Fantasmas Gentis, os criadores se dedicam ao raríssimo efeito que cresce junto ao espectador, progressiva e microscopicamente, cena a cena, até explodir na deslumbrante conclusão. Todo símbolo desta jornada repleta de metáforas retorna duas, três vezes, acrescentado de valor e significado: o canto da heroína, as visitas de Hélio, o urutau, o biscoito, a metamorfose. A cada ressurgimento, estas miudezas se transformam em algo cômico, trágico, apavorante (da garrafa de vinho com rótulo de pássaros, à confissão do amor por um terceiro). Aquilo que soava ínfimo a princípio (um único plano, uma mesma conversa, os personagens repetidos) converte-se numa epopeia íntima. Inês e Hélio também se transformam, de diversas formas, ao longo desta viagem. Para Carla, Margarida e os demais amigos, nada ocorreu de fato. Entretanto, para a dupla e para os espectadores, fez-se um arrebatamento. 

Os Fantasmas Gentis (2026)
10
Nota 10/10

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