Todo o Sentimento (2026)

Alegoria inoperante

título original (ano)
Todo o Sentimento (2026)
país
Brasil
gênero
Drama, Romance
duração
86 minutos
direção
Ary Rosa, Glenda Nicácio
elenco
Aldri Anunciação, Lucas Leto, Jackson Costa, Arlete Dias, Frank Menezes, Alan Miranda, Wall Diaz
visto em
59º Festival de Brasília (2026)

No Brasil de 2027, instaurou-se um governo totalitário. Nesta versão alternativa da História, a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 obteve sucesso, culminando numa ditadura evangélica. Todo o Sentimento imagina, neste contexto distópico, a vida de dois homens gays: Henrique (Aldri Anunciação), ex-cineasta cadeirante, e Gustavo (Lucas Leto), o cuidador que surge para ajudá-lo. Apesar da resistência do primeiro, ele acata a companhia deste funcionário pro bono que lhe permite suportar melhor a tirania. Ao longo dos dias, a dupla se preocupa com palavras proibidas (a exemplo de “arco-íris”) e com a leitura de romances rejeitados. Na televisão, assistem a programas alarmantes reforçando a moral e os bons costumes. Ocasionalmente, enfrentam ataques homofóbicos de invasores. 

Através desta trama, os diretores Ary Rosa e Glenda Nicácio buscam estabelecer uma alegoria dos ventos que continuam ameaçando o país. Acreditam que, por meio da denúncia, podem espalhar uma mensagem pró-democracia, aberta a qualquer orientação sexual, profissão ou modo de vida. Abaixo a tirania, viva a liberdade! A resistência se faz, vejam só, por meio do amor romântico — a partir do momento que o garoto, trabalhado no sorriso malicioso, adentra o casarão colonial, é evidente o que acontecerá aos protagonistas durante o restante da jornada. Abaixo o ódio, viva o amor! Alguém haveria de contestar uma manifestação tão bem-intencionada quanto esta?

Todo o Sentimento não deixa nenhum trabalho de elaboração ao interlocutor. Os criadores escolhem abordar uma distopia, porém, sem retratar a sociedade afetada.

O problema reside na construção da alegoria. A principal função (e qualidade) desta ferramenta encontra-se na capacidade de se afastar do real para melhor comentá-lo. Contrariamente ao realismo social, a ficção alegórica pode imaginar mundos distantes que representem este; regras improváveis que aludam às nossas restrições diárias; violências desconhecidas que remetam àquelas conhecidas. Este trabalho de associação, e ressignificação de contextos, é essencial à alegoria e ao diálogo com o espectador. Afinal, distopias (e algumas raras utopias) alegóricas convidam o espectador a decifrar seus sentidos, aproximando-os do cotidiano ao seu redor. Neste processo semântico e artístico repousa a força da alegoria.

Ora, Todo o Sentimento não deixa nenhum trabalho de elaboração ao interlocutor. Menciona fatos, locais e pessoas exatos: os atos do 8 de janeiro, os pastores Silas e Edir, a Lei Rouanet. Neste universo paralelo, pautado pelo slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, as garotas veste rosa, e os meninos vestem azul. O passado colonial é o mesmo, e a proximidade da nossa data vigente (apenas alguns meses de distância de 2026) tampouco sugere qualquer transformação notável. Ora, devemos acreditar que os cidadãos aceitaram passivamente a implementação deste regime? Não se organizam clandestinamente, nem planejam qualquer forma de retaliação? Jamais saberemos. Os criadores escolhem abordar uma distopia, porém, sem retratar a sociedade afetada. Henrique vive sozinho no casarão. Aparentemente, não recebe funcionários de limpeza, de jardinagem, nem as compras do supermercado. Vive numa bolha autossuficiente, e a narrativa o acompanha nesta clausura voluntária.

O roteiro insinua, sem muito sucesso, alguns sinais da opressão do governo. Gustavo decide ler um livro proibido dentro de casa, gerando desconforto no anfitrião. Eles pronunciam a palavra “cu”, e logo depois, temem alguma retaliação. Mas afinal, quem está escutando a dupla? Existe algum policiamento? Escutas, drones, vigilância digital? O que os impede de, uma vez no interior do lar, em uma região aparentemente isolada, levar uma rotina de prazeres e realizações (sexuais, artísticas, pessoais)? Novo mistério. Agressores surgem literalmente de lugar nenhum — tanto uma criança ariana quanto um zumbi homofóbico —, e a violenta resposta dos moradores jamais provoca represálias por parte do governo supostamente tirânico. Em seguida, após uma longa tirada a respeito da palavra “cu”, nenhum agente irrompe porta adentro. A prisão de ambos soa, em primeiro lugar, de ordem mental.

Assim, a dupla de diretores acredita na capacidade de representar o autoritarismo através de simples programas de televisão. Na tela, um sujeito grita desmedidamente (para a aflição de nossos ouvidos) os impropérios conservadores contra a pederastia e a autonomia do indivíduo. Mulheres de perucas loiras ensinam a divisão bíblica dos gêneros. De um Brasil Urgente ao novo programa da Xuxa, estes exageros histriônicos demonstram a indefinição da mise en scène em termos de tom: miras-se a esmo na crítica social, na fábula, na paródia, no pastiche, na caricatura. Compõem, novamente, representações óbvias de seus referenciais, apresentando nula reflexão a respeito do mesmos, para além do maniqueísmo na constatação dos fatos — direitos civis são bons, opressão é ruim.

No roteiro rocambolesco, os gêneros também se combinam de maneira atropelada, pouco coesa: drama, romance, comédia, suspense, terror. Nenhum personagem possui família, amigos, contatos com o mundo de fora. Convenientemente, bastam-se a si próprios, evidenciando a solução inocente do amor romântico enquanto resistência às ditaduras. Uma vez que os homens, enfim, se amam, o filme acaba. Está salvo o dia, o mundo, e ambos serão felizes, tal qual um conto de fadas. É insuficiente, em 2026, acreditar que a entrega repentina de um príncipe encantado em domicílio baste para representar os dilemas de uma sociedade opressora — sobretudo, no que diz respeito a homens gays, negros, deficientes, artistas, solitários. 

Em meio a tantas vontades desencontradas, o longa-metragem se enfraquece devido a escolhas estéticas e narrativas. Os diálogos são artificiais, alheios ao registro oral (vide a longa tirada da “brisa batendo no rosto” e o jogral erótico). Durante a noite, as cenas na varanda são aparentemente iluminadas somente por lâmpadas, que deixam o enquadramento excessivamente escuro. Isso prejudica tanto a percepção do espaço, quanto o trabalho dos atores. A cozinha também é escurecida durante o preparo do almoço da dupla, ao passo que os lentos zoom-ins no rosto dos personagens (tanto a dupla central quanto os agressores na TV, sem distinção) tampouco sugerem qualquer intensidade suplementar. Os instantes de intimidade transparecem o desconforto dos cineastas em filmar o sexo e a masturbação.

A situação se agrava quando, depois de tantos acontecimentos improváveis, Rosa e Nicácio decidem assumir que Todo o Sentimento constitui a continuação de Ilha (2018). (Este seria o coming out metalinguístico do filme, digamos). Revela-se a nova identidade de um personagem, que carrega consigo um verdadeiro dossiê a respeito do filme anterior dos cineastas, por motivo nenhum (exceto pela conveniência de alertar o espectador). O roteiro embarca, então, num segmento autocongratulatório raras vezes encontrado no cinema brasileiro. Os diretores descrevem Ilha enquanto obra revolucionária na vida dos personagens, capaz de despertar novos amores e determinar rumos profissionais inéditos. A vida de um personagem simplesmente se iluminou graças ao filme criado por eles mesmos. Ary Rosa ainda confere a si próprio uma ponta na trama, e insere a si mesmo no roteiro como o amigo ausente, responsável por unir os amantes. Haja autoestima.

Isso sem falar na representação contraproducente da deficiência. A presença de um ator não-deficiente no papel do cadeirante constitui um problema em si, mas os questionamentos vão além. A paraplegia de Henrique é retratada unicamente pelo viés da incapacidade e punição (simbólica e concreta) ao desejo de ser livre. Os autores possuem uma visão limitadíssima da sexualidade de PCDs, sugerindo adiante que o homem também pode conter um grau de preconceito, ao taxar o outro de “débil mental”. Ocasionalmente, nos sonhos, o sujeito preso à cadeira de rodas simplesmente se levanta e dança (em uma cena estereotipada e mal iluminada). Coroando o retrato ofensivo do tema, a deficiência é utilizada enquanto metáfora para um “cinema paralisado” — para o qual, evidentemente, os cineastas se oferecem como solução.

Ao final, restam insuficiências e excessos, absurdos e improbabilidades. Cada cena traz algum elemento destoante, inesperado, cômico em sua artificialidade: o vegano jantando uma única cenoura; o morno erotismo sob as cobertas; a compra do silêncio infantil mediante um hambúrguer; a velocidade do ataque zumbi; a insistência na metáfora do arco-íris; a súbita necessidade de ajuda no banho, para o sujeito que se banhava sozinho há tempos. Os atores são talentosos, e se esforçam genuinamente para atribuir alguma delicadeza à fábula tão bruta. Entretanto, eles precisam competir com incontáveis estímulos externos, que impedem o foco nos sentimentos mencionados pelo título. Em suma, o longa-metragem nem se afasta o suficiente do real para explorar as benesses da fantasia; nem inventa uma distopia criativa o bastante para comentar a realidade via distanciamento. Permanece na condição de uma alegoria inoperante.

Todo o Sentimento (2026)
3
Nota 3/10

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