
Tudo É Tempo iniciou sua trajetória junto ao público com uma sessão muito especial no 59º Festival de Brasília. Dificilmente se lembraria de outro documentário recente que tenha despertado a mesma quantidade de palmas, risos e interações durante a sessão. Enquanto se assistia aos quatro personagens, filmados durante 20 anos pelo cineasta Marcos Guttman, notava-se uma clara identificação com tantas falas inesperadas. Ao final, a plateia estava eufórica. Ocupava o saguão do Cine Brasília em meio a conversas acaloradas. As reações — presenciais e online, via plataformas — rapidamente indicavam a paixão por estas figuras. “O cinema de Eduardo Coutinho segue vivo!”, comemoraram alguns.
Este poder de comunicação não é nada desprezível — sobretudo para um documentário avesso aos “grandes temas” (as denúncias de ordem política) e à biografia de alguma celebridade notável. A obra despertou tamanho encanto a partir da passagem do tempo, das contradições cotidianas de gente comum, em meio a um país em transformações. Os defensores iniciais de Lula acabaram votando em Bolsonaro em 2018; o rapaz que inicia sua carreira política no PCdoB migra para o PSDB; a médica burguesa, fã de Serra e Alckmin, encerra sua participação louvando a agroecologia, e declarando o intuito de se tornar uma senhora revolucionária. São todos divertida e inesperadamente incoerentes. Será que nós mesmos, espectadores, também somos assim?
Tudo É Tempo soa como uma comemoração tragicômica da derrota das ideologias — tanto aquela dos participantes, quanto a dos próprios criadores.
Por este motivo, não se espantaria que o projeto alçasse voos consideráveis, conquistando prêmios importantes e motivando eventuais estudos acerca de seu olhar específico para o estado das coisas. Em contrapartida, o resultado também permite alguns questionamentos a respeito de sua feitura. Primeiro, enquanto sintoma desta curiosa tendência a transformar documentários independentes em seu próprio making of. Compreende-se que todo filme possua hipóteses, objetivos e métodos próprios. Entretanto, o ponto de atenção reside neste consenso de que a melhor maneira de comunicar tais pressupostos residiria numa voz off — preferencialmente, do próprio diretor ou diretora —, explicando como começou o filme, quais escolhas tomou, de que modo agiu, e onde pretendia chegar.
Na sessão anterior ao longa-metragem, o curta Cidão, de Alê Gama, utilizava recurso semelhante: “Esse filme é sobre um homem elegante, boêmio. Meu pai”. Dois dias antes, Vejo Você de Repente, de Aída da Costa, apostava nestas ferramentas. Agora, em Tudo É Tempo, Guttman dialoga diretamente com o público: “Conheci Cristiane em outubro de 2002”. Ele segue, pontuando suas intenções (“O meu objetivo era a acompanhar as transformações na vida das pessoas”), métodos (“Comecei a gravar com os personagens a cada fim de ano”) e acidentes de percurso (“Esse encontro deveria encerrar a gravação do documentário”). Entre as falas pedagógicas, surgem outras, visando uma contextualização ligeira e retórica (“Os ventos tinham mudado, e o Brasil estava dividido, polarizado”).
Por que esta linha de documentários sente tamanha necessidade de prestar contas ao espectador? Nunca acreditou que seu processo ficaria claro pelas próprias imagens e sons? Entre as inúmeras respostas possíveis, é plausível que a multiplicação destas ferramentas se deva à percepção geral de que nos encontramos em tempos de baixa atenção e capacidade de interpretação, razão pela qual o espectador menos capacitado precisaria de uma ajudinha do narrador-professor. Talvez o medo de ser mal compreendido, e de ter suas falas distorcidas (em tempos de cancelamento e polêmicas virulentas), justifique esta ferramenta suplementar de controle do discurso fílmico — e também de simplificação do mesmo. A popularização das filmagens com celulares e da autoimagem em geral também despertam esta impressão de que uma obra realmente sincera traz o diretor em frente às câmeras, conduzindo em paralelo a voz em off.
Por isso, Guttman decide aparecer em cena. Uma parte desta apreciação da passagem do tempo transparece no envelhecimento do quarteto central, em paralelo àquele do próprio diretor. Entre cada visita aos amigos, efetua perguntas amplas: “O que mudou?”, “Como é que você vê essas mudanças em você?”. Ele conta unicamente com aquilo que os personagens queiram dizer a respeito de si mesmos. Nunca investiga por conta própria, nem busca conclusões que não provenham da fala de terceiros. O que ele descobriria, caso filmasse um dia inteiro na casa de cada um? Caso filmasse a conversa deles com vizinhos e familiares? A jornada de trabalho, a ida ao supermercado? Não sabemos. O projeto se concentra na versão que os personagens desejam apresentar de si próprios.
Em consequência, as mudanças ideológicas dos quatro resultam absurdas e cômicas. Por que Fernando Pereira, que sempre apoiou Lula, declara-se eleitor de Bolsonaro adiante? Que motivos levaram a tal transformação? Como Carlos Ibrahin enxerga os paralelos entre o partido comunista e o partido social-democrata, para depois declarar voto em Lula? De que forma o anarquista Heber Cunha pode se provar descrente na política, embora manifeste opiniões tão firmes acerca do exílio enquanto forma de “turismo”? Rimos, em partes, porque não compreendemos estas pessoas. Rimos porque nos soam improváveis. Ao invés de esmiuçar os processos subjetivos que levam a tais guinadas, a narrativa prefere pontuar A e B, separadamente, dispensando a linha que conduz de um ponto a outro.


Também rimos, enfim, de nós mesmos. Há certo conformismo na decisão de encarar o absurdo de um país dividido enquanto princípio, meio e finalidade. Se o Brasil melhorou ou piorou (politicamente, socialmente, economicamente), na perspectiva de Guttman, não sabemos. Paira uma incômoda impressão de que nossa organização política é bagunçada mesmo, e as pessoas escolhem seus candidatos sem real convicção. Agem por instinto, por modismo, por cansaço. Tanto faz. Qual conclusão o autor retiraria de vinte anos de filmagens, para além da constatação óbvia de nossa complexidade? O ponto de partida equivale ao ponto de chegada: somos múltiplos, inconstantes, e encaramos a política com tamanho imediatismo que nem nos lembramos, alguns anos depois, em quem votamos nos pleitos anteriores. Além disso, o que nos levaria a pensar que estas quatro figuras seriam representativas dos ventos políticos nacionais em sua totalidade, como a obra parece sugerir?
Por fim, Tudo É Tempo soa como uma comemoração tragicômica da derrota das ideologias — tanto aquela dos participantes, quanto a dos próprios criadores. A extensa duração decorre menos de um objetivo preciso, a longo prazo, do que da falta de foco, por não saber onde deseja chegar, e nem quando parar. Continua-se pelo imperativo de seguir filmando, e pela vertente terapêutica do processo — Cristiane Rosa se emociona durante a despedida do filme, que acompanhou duas décadas de sua vida. Sim, o documentário revela personagens marcantes e engraçados — menos por si próprios, do que pela incoerência que a montagem insiste em atribuir aos quatro, em igual medida. Rimos do que desconhecemos, rimos do estranho e do exótico. Depois de vinte anos, ainda entendemos pouquíssimo do que faz este quarteto mudar tantas vezes de ideia, e compreendemos ainda menos as oscilações políticas brasileiras que, afinal, constituíam o objeto de estudo deste filme.




