Verão da Lata (2026)

Jeitinho brasileiro

título original (ano)
Verão da Lata (2026)
país
Brasil
Gênero
Comédia, Policial
duração
82 minutos
direção
Santiago Dellape
elenco
Babu Santana, Samantha Schmütz, Alane Dias, Igor Jansen, Rafael Saraiva, Humberto Martins, Leandro Firmino, Gabriela Correa, Polly Marinho
visto em
59º Festival de Brasília (2026)

Verão da Lata constitui um projeto raro dentro da cinematografia cômica brasileira. Quando se acredita que a única forma de fazer humor decorre dos trejeitos físicos, do histrionismo e das piadas em diálogo — sobretudo, ridicularizando as classes populares —, este projeto nos relembra o potencial do humor de situação, associado à chacota das autoridades. Ao invés de rirmos dos desprivilegiados, voltamos o escárnio à ineficácia da polícia, e à corrupção dos ricos, nesta fábula a respeito do dia em que milhares de latas com maconha surgiram nas praias brasileiras. Entre 1987 e 1988, um navio despejou sua mercadoria proibida para fugir à vigilância, mas o conteúdo foi descoberto (e consumido) pelos banhistas locais.

A partir dos fatos, o diretor Santiago Dellape, que também assina o roteiro, ao lado de Davi Mattos e Renato Fagundes, abraça a comédia de erros. Investe, em paralelo, em outros subgêneros típicos do humor: a farsa, o buddy movie, o filme de férias e, sobretudo, a trama de dois policiais radicalmente diferentes, obrigado a trabalhar juntos — até se descobrirem amigos durante o percurso. Sandra (Samantha Schmütz) tenta sustentar uma imagem de durona, que não convence mais ninguém, enquanto Brasa (Babu Santana) nunca foi levado a sério na corporação, e jamais recebeu um caso importante. Ela procura levar alguma vantagem nesta história, enquanto ele deseja se provar digno. Entre a malícia e a ingenuidade, surge uma forma de desmascarar os crimes da própria polícia.

Dellape dispensa o heroísmo e a virtude, preferindo a carnavalização destas figuras falhas, tortas, pequenas, improváveis.

Nasce, assim, um stoner movie brasileiro — projeto a respeito da maconha, retirando seu aspecto moral e se divertindo com a cultura da erva. Isso equivale a utilizar um sem-número de trocadilhos (“Baseado em baseados reais”, afirma o letreiro inicial), o reggae de Bob Marley na trilha sonora, e muitas piadas com olhos vermelhos, larica, risos involuntários, e assim por diante. De repente, a malandra e o mané cheiram involuntariamente todo o produto apreendido, ostentando certa confusão mental ao chefe. A esposa insatisfeita (Polly Marinho) relaxa com a maconha, ao passo que pequenos comerciantes se tornam empresários vendendo passeios à rota das latas. Partindo de um delito inicial, os criadores imaginam crimes em série, rindo de nossa própria desorganização e senso de absurdo.

Ao espectador, resta uma mínima, porém bem-vinda, subversão de gênero. Agora, a mulher representa a força e a liderança, enquanto o homem é frágil emocionalmente, incapaz de se impor. Ao invés de sexualizar apenas o corpo feminino (na figura de Alane Dias), efetua semelhante exposição do corpo masculino (de Igor Jansen). Em termos de representação racial, permite o protagonismo de dois atores negros, numa jornada onde a raça e o racismo não são imediatamente postos em conflito. Em paralelo, surpreende positivamente graças à possibilidade de os personagens negros, desacreditados a princípio (no que se incluem Leandro Firmino e Gabriela Correa), se darem bem face aos mandantes brancos e autoritários (ilustrados por Humberto Martins).

Outro aspecto de destaque reside na possibilidade do humor derivado do contexto. Samantha Schmütz possui recursos mais que suficientes para ampla variedade de interpretações, que as comédias populares nem sempre lhe oferecem. Aqui, ela encarna uma figura comum num contexto insano (ao invés da figura insana num contexto comum), o que lhe priva de gritos, caras e bocas, ou dos subterfúgios simplificadores de comicidade. Ela encarna com nuances sua policial improvável, permitindo o respiro e a contemplação. Restam a Babu Santana as inevitáveis piadas escatológicas (peido, arroto e vômito em decorrência de uma lasanha à bolonhesa), embora, passado este instante pontual, ele possa explorar com evidente ternura alguns motivos nada habituais à comédia (a saúde ocular e a dificuldade do aperto de mãos).

Logo, em curtíssimo duração, a narrativa apresenta o episódio verídico na forma de uma brincadeira coletiva. Ridiculariza tanto o sotaque carioquês quanto o inglês embromation de Rafael Saraiva. Tira sarro do policial sisudo e da policial esperta, da dona de casa e dos irmãos. Ri de tudo e de todos, numa ode ao jeitinho brasileiro, e à nossa capacidade de fazer chacota de nossos próprios males. Há uma brasilidade tão esperta, em sua crônica, quanto conformista, nessa crença de que, no Brasil, tudo acaba em pizza, nada vai pra frente, somos bagunçados de fato, e assim por diante. Festeja-se o mesmo Brasil que, no fundo, se descreve como incorrigível — ama-se o país não apesar de seus problemas estruturais, mas por causa deles. Fazemos de nossa tragédia a nossa inesperada força coletiva.

Talvez o resultado não seja particularmente incisivo na recriação dos fatos, apesar do uso de reportagens da época, — para atestar que tamanha improbabilidade realmente ocorreu. Mesmo assim, Dellape e sua equipe nunca visam uma recriação fiel e solene dos acontecimentos. Preferem utilizá-lo enquanto ponto de partida para este humor irreverente, uma espécie de faz de conta onde os atores podem interpretar tipos (o policial bonzinho, a policial astuta, o gringo, o vilão) apenas para satirizar os códigos de cada personagem. O filme não se leva a sério enquanto discurso, embora apresente um trabalho bastante respeitável de fotografia, som e efeitos visuais. 

Uma última raridade de Verão da Lata encontra-se precisamente no porte da produção: um projeto de R$ 13 milhões, segundo o próprio cineasta, para uma comédia tão singela em sua visão de mundo; e o evidente comprometimento de atores, diretores de fotografia, de som e da equipe de montagem, para um episódio de diversão tão ligeira. Ele funciona em seu otimismo do acaso: os protagonistas obtêm sucesso apesar de sua incompetência, vencendo o sistema numa sucessão improvável de equívocos de todas as partes. São heróis de coisa nenhuma, vitoriosos de um caso que lhes escapa. Até na conclusão, Dellape dispensa o heroísmo e a virtude, preferindo a carnavalização destas figuras falhas, tortas, pequenas, improváveis. Em especial, nunca as ridiculariza, preferindo nos convidar a rir com elas, ao invés de rirmos delas. 

Verão da Lata (2026)
6
Nota 6/10

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