Jankee (2025)

O olhar apaixonado

título original (ano)
Jankee (2025)
país
México, Argentina
linguagem
Documentário
duração
64 minutos
direção
Yamel Thompson
com
Yamel Thompson, Jans Carlos Valladares
visto em
20º CineBH (2026)

Entre tantos temas que motivam a elaboração de um documentário, poucos dizem respeito a uma paixão de juventude. Multiplicam-se os projetos a respeito de membros queridos da família, artistas renomados ou personalidades políticas marcantes. Entretanto, um garoto de 18 anos, ainda descobrindo a vida e a si próprio, raramente é alçado ao posto de protagonista. Ora, a diretora Yamel Thompson consagra seu primeiro longa-metragem a este encontro repentino. Ela, uma estudante mexicana de 23 anos, e ele, um morador local. A partir de um primeiro contato, começam a se ver sempre. Ele se descobre apaixonado — e ela, apaixonada por filmá-lo. Seria a mesma coisa?

Jankee (apelido de Jans Carlos Valladares) consente com a presença ininterrupta da câmera — condição para que a estrangeira permaneça ao seu lado. “Nunca perguntei se podia filmá-lo”, ela confessa. Mesmo assim, começa a retratá-lo dormindo na cama, e deitado em frente ao ventilador. Acompanha-o na pesca, assim como na diversão no mar. Concentra-se obsessivamente no rosto dele, e abre a porta do banheiro enquanto ele se encontra sob a ducha. Pede para filmá-lo tomando banho. Ele responde que não. Ela filma mesmo assim. Cria-se uma intimidade entre eles, mas também uma relação condicionada à intromissão do dispositivo. A cineasta deseja permanecer junto dele, à condição de produzir imagens desta união.

A cineasta deseja permanecer junto de Jankee, à condição de produzir imagens desta união. Aos poucos, começa a questionar os limites éticos da representação.

Aos poucos, a obra começa a questionar os limites éticos da representação. Thompson se dá conta — a posteriori, na verdade — do poder que dispõe sobre o rapaz. Ela, uma mulher um pouco mais velha, dotada de recursos financeiros, dispondo de conhecimentos de filmagem e materiais para tal, coloca-se à frente de um garoto pobre, solitário, admitando para a câmera que a ama. Jans faz coraçõezinhos com as mãos, e depois esconde o rosto de vergonha. Ele acorda e encontra o aparelho à sua frente. Dois anos depois, tatua a máquina da cineasta em seu braço, como lembrança deste episódio. De certa forma, ela domina esta interação, enquanto ele concorda em ser dominado. Contanto que haja consentimento entre ambas as partes, este contato desequilibrado se justifica?

Felizmente, a cineasta revela que Jans nunca se resume à total passividade. Aprende a explorar as regras da imagem, sugerindo interações e repetindo falas para as necessidade da câmera. Converte-se em personagem de si próprio, inclusive numa cena roteirizada por ambos. A mise en scène expõe sua ficcionalização enquanto sugere verdades de difícil falseamento: o corpo nu da jovem sob o chuveiro do cubano; o instante em que Jans consente em fazer sexo com ela diante da câmera, cuidadosamente posicionada para registrá-los. Especula-se, então, que o garoto possua certo prazer em ser visto, registrado como conquistador, galanteador e sexualmente ativo. A caracterização de pobre apaixonado lhe serve para se revestir de uma aura de ingenuidade que lhe convém. Talvez ele possua muito mais poder, neste jogo da sedução mediado pelo audiovisual, do que se supunha inicialmente.

Em consequência, o principal interesse do filme reside nesta complexa balança entre o filmante e o filmado. Esteticamente, encontramo-nos diante de um documentário caseiro, no sentido estrito do termo. Câmera na mão, tremendo de um lado ao outro, aproveitando a luz natural onde a encontra, e enquadrando seu objeto de interesse de forma improvisada. A excelente montagem de Melisa Liebenthal é a grande responsável por intercalar o tempo da urgência com certa melancolia, ou o peso do presente (as brigas e afagos do casal) com casos em que Jans se encontra distanciado do dispositivo. As cenas dos pombos (caso em que os machos seduzem e prendem as fêmeas) e da escapada matutina ao mar, sem convidar Yamel, revelam-se potentes em sua duração e inserção na narrativa. Para um percurso tão enxuto, de míseros 64 minutos, o resultado demonstra belo ritmo, fugindo à tentação de se arrastar até os 70 minutos padronizados do longa-metragem. A jornada sabe quando se encerrar, no melhor instante de todo o filme — aquele em que, pela primeira vez, a diretora e o jovem se encontram lado a lado, em pé de igualdade diante do dispositivo.

Dando um passo atrás, Jankee permite refletir as possibilidade de expandir a compreensão do documentário autobiográfico. Inúmeros projetos do gênero são realizados no cinema latinoamericano todos os anos, possivelmente devido à facilidade de obter e produzir imagens de si mesmo. No entanto, estes filmes soam, em sua maioria, egocêntricos ou vaidosos. Transparecem uma vontade acrítica de controle, além da tendência a mergulhar no funcionamento das redes sociais, e da autoimagem em tempos de Internet. Ora, o projeto mexicano-argentino rompe com tamanha autoindulgência. Pelo contrário, questiona a si próprio no direito de se apropriar da imagem alheia. Investiga o caráter erótico deste domínio, em paralelo ao princípio moral desta exposição. Este seria, em última instância, um filme a respeito da legitimidade de fazer filmes.

Dentro do CineBH, repleto de projetos de experimentação de linguagem (Hamaca Paraguaya, Ejercicios de Memoria) ou movidos por grandes temas (Si Vas para Chile, La Vida que Vendrá), a iniciativa de Yamel Thompson constitui uma bem-vinda exceção. Acena a possibilidade de utilizar o audiovisual para pensar acerca de si próprio, ao invés de erguer uma ode ao outro, ou um opus a si mesma. A diretora concentra-se, em primeiro lugar, no ato de registrar imagens e sons. Entende que, para expor a intimidade do garoto, precisa expor a si mesma. Admite seus erros na insistência em filmar, mesmo quando o outro protesta: “Você violou minha intimidade!”. Atribui parte dos deslizes ao destempero emocional, mas também à ambição de produzir mais imagens, e concluir seu filme da melhor forma possível. Afinal, o que seria mais importante possuir: o corpo de Jans, ou a imagem deste corpo? A experiência com ele, ou um filme decorrente deste processo? Jankee se situa nesta bem-vinda provocação.

Jankee (2025)
8
Nota 8/10

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