A Liberdade de Fierro (2024)

O homem sem desejo

título original (ano)
La Libertad de Fierro (2024)
país
México, Canadá, Grécia
linguagem
Documentário
duração
96 minutos
direção
Santiago Esteinou
visto em
30º Festival É Tudo Verdade (2025)

César Fierro foi preso por um crime que não cometeu. O mexicano permaneceu 41 anos numa prisão no Texas, sendo os últimos 20 deles, em confinamento numa solitária. Recebeu mais de uma dezena de vezes o anúncio da data de sua execução, temendo pela chegada do momento fatídico. Devido à situação no corredor da morte, nunca recebeu ofertas de cursos ou propostas de ressocialização. Pelo contrário, foi torturado inúmeras vezes pelos guardas, que o deixavam nu, com o ar condicionado fortíssimo durante o inverno, e o impediam de dormir. Dividiu a cela com baratas, ratos e formigas. 

Aos 63 anos, devido a muita pressão por parte de organizações dos direitos humanos, ele é solto. O diretor Santiago Esteinou se coloca na posição de testemunha deste processo, mas também de amigo próximo. Encontra um apartamento temporário ao homem, compra um telefone celular, e o ajuda a compreender as novas tecnologias (Fierro nem mesmo sabe como ligar a televisão). Em paralelo, impede o sujeito deprimido de beber álcool e permanecer sozinho dentro de casa, em virtude do frágil estado de saúde mental.

Teria sido fácil, até óbvio, abordar este episódio através da denúncia virulenta contra um sistema judiciário falido. É absurdo que o protagonista tenha perdido parte considerável de sua vida sofrendo um tratamento indigno. Foi dispensado, então, sem nenhuma forma de compensação (simbólica ou efetiva) pelo grotesco erro judicial. Haveria espaço para tomar o caso de Fierro como exemplo das derivas da lei, marcada pela mentalidade punitivista e vingadora. Os laços com o raciocínio persecutório da extrema-direita seriam evidentes.

Embora tenha finalmente deixado os muros de Polunsky, Fierro carrega uma parte do cárcere consigo. A soltura do prisioneiro não implica necessariamente numa melhoria de vida.

Mesmo assim, o cineasta opta por um caminho melancólico, intimista. Evita entrar nas circunstâncias do processo legal — nunca conhecemos ao certo as acusações contra o ex-prisioneiro, nem os indícios que o levaram a ser erroneamente considerado o autor do crime. Esteinou prefere, junto de seu personagem, deixar o passado para trás, avaliando qual perspectiva se anuncia para o homem que não socializa há décadas. Ele perdeu contato com a política lá fora, e se distanciou de todos os familiares e amigos. De volta à cidade de origem, descobre um local abandonado, triste, onde poucas pessoas se lembram de quem ele é.

Fierro tem medo de sair do quarto, e não sabe como se sustentará financeiramente. É avisado pelo diretor a respeito de seu caráter depressivo, algo que o surpreende. Sente-se melhor no topo do prédio onde se encontra, ironicamente cercado por grades. Aparenta estar em perpétuo estado de espera, ainda que não saiba exatamente o objeto desta procura. Jamais demonstra raiva particular por seus algozes, tampouco lamenta a própria situação — o personagem e os diretores evitam qualquer rastro de piedade. 

O sujeito está finalmente solto, porém, ignora o que fazer de sua vida. Não tem para onde ir, ou com quem interagir. Embora tenha finalmente deixado os muros de Polunsky, ainda carrega uma parte do cárcere consigo. Esta é a principal tese do documentário mexicano: a soltura do prisioneiro não implica necessariamente numa melhoria de vida. Jamais produz alívio, euforia, tampouco a sensação de ter o mundo diante de si. O anti-herói confessa, um pouco envergonhado, que sente falta dos dias de presídio. Havia se acostumado com aquela vida, por pior que fosse. Em sociedade, sente-se perdido.

O filme acompanha esta tímida vitória de Fierro por meio de imagens nubladas, embranquecidas, desanimadoras. Quando o homem caminha pela natureza, insiste em enquadrá-lo em grandes espaços vazios, destinados a representar seu estado de espírito. A postura de Esteinou poderia ser questionada, devido ao intenso grau de intervencionismo na história registrada — em diversos momentos, tal condicionamento beira a ficção. O cineasta leva Fierro para acamparem na floresta. Conversa com ele ao lado da fogueira. Em outras palavras, promove as interações que pretende filmar, e que, se dependessem do protagonista, jamais ocorreriam.

Entretanto, o diretor se esquiva da aparência de manipulação graças à sinceridade como expõe seu processo. Quando Fierro reencontra uma prima, que o cumprimenta de longe e nem sequer abre o portão ao parente distante, a equipe pergunta diversas vezes se o homem prefere que desliguem a câmera. Ele responde que não. Seguem adiante, legitimados pela autorização renovada. A imagem captura o sujeito dormindo na cama, tomando banho em seu próprio chuveiro. Os gestos seriam exploradores, caso não possuíssem significado especial para o personagem que tantas vezes dormiu no chão. “Vai ser um filme muito chato”, preocupa-se Fierro.

“Estou acostumado a fazer o que me dizem. Eles decidiam tudo por mim”, o homem confessa, cabisbaixo, a respeito dos carcereiros. Agora, entregue a si próprio, desconhece a maneira de controlar um destino pouco promissor. Estimulado pela equipe, ele conclui um curso rápido de padeiro, mas desiste do primeiro emprego que encontra. Não consegue enfrentar o olhar alheio. Muitas coisas precisam ser reparadas dentro de Fierro antes que ele esteja pronto para enfrentar esta amarga liberdade. O filme se conclui no tom agridoce de um sujeito que, tendo finalmente conquistado o que sempre queria, não sabe o que fazer com tal presente. Se dias e noites eram dedicados ao único objetivo da liberdade, uma vez conquistada, o que lhe resta a querer? A desejar? Fierro encara o abismo.

A Liberdade de Fierro (2024)
8
Nota 8/10

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