Enzo (2025)

Romance de classes

título original (ano)
Enzo (2025)
país
França, Itália, Bélgica
gênero
Drama
duração
102 minutos
direção
Robin Campillo
elenco
Eloy Pohu, Pierfrancesco Favino, Élodie Bouchez, Maksym Slivinskyi, Nathan Japy, Vladislav Holyk, Malou Khebizi
visto em
Cinemas

Enzo (Eloy Pohu) cresceu em uma família rica. O adolescente vive numa mansão confortável, com piscina, no sul da França. Graças ao apoio incondicional da família, ele teria a possibilidade de seguir qualquer curso, e abraçar qualquer oportunidade de trabalho que quisesse. Entretanto, o jovem possui um temperamento morno. Não manifesta interesse por nenhuma atividade. Além disso, abandonou os estudos porque “não se adapta ao ensino tradicional”, nas palavras do pai Paolo (Pierfrancesco Favino). Ele será descrito, ao longo da trama, como “lerdo” e “inútil”. Enquanto o irmão mais velho ingressa numa prestigiosa universidade, Enzo não busca nada para si. 

Em provável resposta a este senso de inadequação, ele aceita o trabalho de aprendiz de pedreiro numa construção. (Quer maneira melhor de provocar os pais?). Aos seus olhos, este ofício constitui uma distração desempenhada sem real comprometimento. Enquanto isso, Enzo se cerca de homens mais velhos que precisam deste emprego, alguns deles, imigrantes traumatizados pela guerra. Assim, ele conhece Vlad (Maksym Slivinskyi), operário ucraniano que se recusa a voltar ao país de origem para combater os russos. Face a este sujeito ostensivamente heterossexual, do tipo que mostra fotos sensuais da namorada aos colegas (além de “vídeos picantes”), Enzo descobre sua atração por homens.

Enzo e Vlad se tornam pupilo e mestre; empregado e patrão; o cidadão e o imigrante; a Europa privilegiada versus a Europa em guerra.

Inicialmente, este longa-metragem deveria ser dirigido por Laurent Cantet. Entretanto, com seu falecimento em 2024, o projeto passou às mãos do colaborador próximo, e co-roteirista, Robin Campillo. Aqui, o cineasta tem a delicada tarefa de despertar a empatia do espectador por um menino mimado, inconsequente, mal-agradecido, entediado. Se as donzelas ricas da literatura de antigamente, tais quais Madame Bovary e Anna Karenina, ganhassem uma versão masculina e contemporânea, elas se traduziriam em Enzo. Este dândi fora de sua época se rebela sem saber exatamente contra o quê, atacando violentamente os pais carinhosos e progressistas, o irmão gentil, assim como os colegas acolhedores no canteiro de obras. 

Sugere-se que esta seria a raiva de si mesmo — uma homofobia internalizada. Ora, as tramas doces e inocentes a respeito de meninos se descobrindo gays haviam praticamente desaparecido do cinema. Sempre pareceram, aos estudiosos do cinema dos anos 1990 e 2000, como infantilizadas, piedosas. Me Chame pelo Seu Nome romantizou a fórmula, ornando a paixão com um cenário paradisíaco, pais acolhedores de esquerda, e amor correspondido até o possível — o outro, mais velho e masculino, é sempre pretensamente hétero. Agora, o longa-metragem francês segue um caminho semelhante, estimando que o primeiro amor justificaria todo o egoísmo de um personagem um tanto desagradável. 

Logo, Campillo aplica um sentimento universal a um contexto bastante particular, de gritante disparidade de classes. Um garoto riquíssimo; um trabalhador paupérrimo. Enzo ainda é virgem, inexperiente, desajeitado. Já Vlad corresponde ao protótipo do trabalhador braçal, embrutecido e musculoso, associado com frequência ao sexo — inclusive, fazendo piadas com a vontade de comer a mãe rica do menino. Encontramo-nos diante de imaginários exacerbados da desigualdade: o imigrante corresponde seria puro corpo, porque pura necessidade, vivendo no instante (o que justificaria seu instinto sexual quase selvagem). Já o menino seria mais feminino, sensível (ele desenha muito bem), adocicado pela permissividade burguesa. 

O problema deste antagonismo próximo da caricatura reside na fetichização da alteridade. Ainda acrescentam-se outras relações de dominação que aprofundam o erotismo: Enzo e Vlad se tornam pupilo e mestre; empregado e patrão; o cidadão e o imigrante; a Europa privilegiada versus a Europa em guerra. “Ele me come, e eu o amo”, o herói afirma, embora esteja apenas fantasiando a respeito de um ato sexual não concretizado. Tudo nesta configuração beira o deleite do faz de conta, a sensualidade de uma brincadeira erótica: Enzo finge precisar do trabalho de pedreiro, ao passo que Vlad traz o garoto para perto de si, embora não tenha intenção real de corresponder ao desejo dele. Quem detém o poder, afinal, entre eles?

O roteiro vai além, introduzindo comparações questionáveis. Apaixonado pela ideia de conhecer Kiev com Vlad, o menino francês começa a desenhar soldados e se encantar com a perspectiva do combate em terras distantes. Enquanto o estrangeiro retorna ao país bombardeado por Putin, o protagonista visita um sítio arqueológico na Itália com os pais. “Aqui tem ruínas também”, afirma Vlad, num romantismo de profundo mau gosto do roteiro. Enquanto o menino nada numa praia paradisíaca com os amigos, sem nenhuma obrigação, o pai o observa e se desespera: “Ele está se afogando na nossa frente”. As metáforas possuem uma literalidade risível. 

Em suma, estes personagens transparecem a boa consciência de uma Europa branca, bem pensante, que se apieda pela dor dos outros, embora jamais se esforce para conhecê-los de fato. Isso porque, para eles, o verdadeiro conflito seria não prestar o concurso para o prestigioso Liceu Henri IV, e desistir do passeio de mergulho pré-agendado. Em caso de dores de amor, Enzo poderá passar um ano em Nova York para pensar melhor sobre seu futuro. Resta a curiosa impressão de que a trama se posiciona junto ao personagem menos interessante desta jornada. Vlad seria uma figura mais complexa, ou mesmo os pais, interpretados pelos únicos atores verdadeiramente bons — caso dos ótimos Élodie Bouchez e Pierfrancesco Favino, que eclipsam os adolescentes em cada cena.

Além disso, Campillo hesita entre abraçar uma estética dura e física, possibilitada pela paisagem de tijolos, e mergulhar num mundo sonhado. A saída da festa à noite, com suas luzes profundamente coloridas, se combina com a madrugada em que o rapaz sonha sob as estrelas, à luz do amanhecer. Trata-se de um idílio, um escapismo, uma fantasia. Mesmo a observação da guerra na Ucrânia se limita ao desejo gay, retirando quase totalmente as implicações políticas dos fatos. Compreende-se que o menino tenha devaneios, e se perca nesta embriaguez sentimental. No entanto, o filme o acompanha, inclusive em sequências grosseiras envolvendo uma arma e uma piscina, ou nos clichês mais desgastados do romance (a briga transformada em abraço).

A direção jamais se distancia a ponto de criticá-lo, nem analisar friamente as ilusões e excessos do jovem rebelde. Coloca-se sempre, inequivocamente, em sua defesa, numa postura menos empática do que condescendente, eticamente problemática ao converter as dores reais de ucranianos, pedreiros e pais aflitos na argamassa de um pequeno delírio amoroso. Por isso, o resultado gera tamanho desconforto: devemos realmente nos compadecer pelo adolescente chantagista e privilegiado, estimando que seria ele quem sofre, de fato, neste contexto? Devemos todos nos identificar com o pobre menino rico?

Enzo (2025)
5
Nota 5/10

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