
Júnior (Caio Manhente) é obcecado pela ideia de tomar posse do Fusca de seu avô, porque, segundo ele, “dá pra entender muito sobre uma pessoa pelo carro”. Nunca se descobre, entretanto, de onde surge esta paixão, já que o rapaz não presta atenção em mais nenhum veículo ao longo da trama, e nem mesmo sabe onde se encontra o motor. Entretanto, para o diretor Emiliano Ruschel e o roteirista Bill Labonia, este é o herói tradicional, cuja jornada estará completa somente quando conseguir um carro, conquistar a garota mais bonita da trama, vencer uma briga com o chefe abusivo e restaurar a paz entre o pai e o avô. Tradição, família e propriedade.
Aliás, o protagonista soa um tanto… indefinido. Devido à dificuldade de dirigir a palavra à sua pretendente, e à disposição da mãe (Cléo Pires) em conversar com ele, pela primeira vez, sobre masturbação, acreditamos nos encontrar diante de um pré-adolescente. No entanto, ele trabalha num restaurante, e está prestes a se mudar de casa (para onde mesmo, e por quê? Não importa tanto ao roteiro). Junto do melhor amigo Rico (Isaías Silva), este lavador de pratos se declara pobre (“Não tem xoxota pra gente. A gente é pobre e virgem”), embora viva num casa grande e confortável do Rio de Janeiro.
O Velho Fusca incomoda pela maneira leve, descompromissada e inconsequente com que empurra os reais conflitos para debaixo do tapete.
A construção de personagens incomoda bastante devido à descrição estereotipada dos papéis de gênero. As mulheres estão todas intensamente maquiadas, seja para ficar em casa, seja para trabalhar na cozinha de um restaurante. A mãe coberta de pulseiras e apetrechos é estranhamente descrita como “hippie”, enquanto a amada Laila (Giovanna Chaves) se queixa de ser apreciada unicamente pela aparência — a mesma à qual o filme insiste em aprisioná-la. Mesmo assim, o texto pretende mostrar que estas mulheres são fortes e combativas — não por sua independência ou autonomia, deixe-se claro. Elas seguem objetificadas pelo namorado-patrão, e parecem confortáveis diante da opressão. No entanto, elas lutam boxe (logo na casa ao lado do avô, que conveniente!), o que parece bastar aos criadores enquanto sinônimo de força.
A situação não melhora com a construção dos personagens masculinos. O avô (Tonico Pereira) é um sujeito grosseiro, desbocado, homofóbico — algo que o filme considera hilário. Não se critica o fato de apresentar pessoas com tais características em si, afinal, os preconceitos podem ser expostos para finalidade de crítica social. Entretanto, O Velho Fusca se diverte demais com o senhor agressivo para criticá-lo de fato. Por isso, exagera no tom de piadas como “Segura meu pau”, quando o homem menciona sua bengala, e “Tenha culhão de pedir que nem homem”. O filme permite que o personagem dê um banho de homofobia recreativa, e não apenas ele. Os diálogos estão repletos de piadas a respeito de “ser namoradinha na cadeia”, culminando no desfecho de ambições existenciais, aconselhando o espectador a “viver de verdade… sem frescura”. Nada muito inclusivo, embora o discurso acredite sê-lo.
Aliás, o machismo domina as interações. Ele está presente, por exemplo, na limitação do papel da mãe, restrita a botar panos quentes nas brigas masculinas, e a fazer sanduíche com geléia importada. Aparece, igualmente, na aspirante a namorada, que brinca com o tema da virgindade após um nocaute em Júnior no treino de boxe: “Você foi meu primeiro”, ao que o garoto responde: “Fico honrado de ter sido o seu primeiro”. A misoginia se expande ao terreno análogo da homofobia, devido à aversão a tudo que representa a feminilidade — inclusive nos homens. Em consequência, chega-se à caracterização estereotipada do casal gay, cujas poucas falas dizem respeito à quantidade expressiva de objetos floridos e com as cores do arco-íris dentro de casa. Mesmo assim, estima-se que os homens precisem reatar com os pais agressores, porque a família sempre vem em primeiro lugar — o ponto de vista jamais esconde seu conservadorismo.
Talvez O Velho Fusca pudesse representar uma paródia destas construções familiares, uma ruptura com as convenções. No entanto, os criadores acreditam transmitir uma mensagem profunda a respeito da união entre as diferenças. Algumas frases, elaboradas com intuito emotivo e pedagógico, despertaram risos de escárnio durante a sessão de imprensa: “Nunca subestime o poder da homofobia”, “A verdade é que adultos não existem. Adulto é uma criança que cresceu”, “O que realmente importa é o que está debaixo do capô”, ou seja, o que se tem por dentro. A mão pesada transparece, paralelamente, nas construções explicativas (“Eu sou o alfa desse bando, e você não vai querer brigar comigo”) e no caráter redundante das canções na trilha sonora (“Quem desse eu pudesse parar o tempo”, afirma uma letra, durante o envelhecimento e a morte; “Eu quero Rio de Janeiro”, em frente às incontáveis paisagens genéricas da cidade).
A propósito de trilha sonora, a música não se interrompe nunca. Jamais. Talvez se contem nos dedos de uma mão os minutos isentos de trilha, seja por medo do silêncio, seja por acreditar na necessidade da melodia para pontuar a alegria dos momentos felizes, e a melancolia dos instantes tristes. Não se considera um espectador particularmente inteligente, capaz de deduzir os evidentes sentimentos de cada interação sem uma ajuda da direção. A construção estética resulta bastante simples, focando-se em plano e contraplano, nos rostos centralizados na imagem, com a paisagem carioca ao fundo, o máximo de vezes possível — uma tentativa instaurar a fórceps o feel good movie. Por isso, a avalanche de soluções mágicas: uma fuga milagrosa do hospital, o funcionamento repentino do carro enquanto um personagem se apaga, e a conciliação abrupta no final, quando todos os problemas se resolvem.


Os exageros e absurdos transmitem a aparência de pouco cuidado, por parte da produção: o que fazem várias pilhas de caixa de papelão no meio da avenida? Como, de repente, o amigo lavador de pratos ressurge como mecânico? Enquanto isso, a UTI jamais se assemelha a um setor realista do hospital, e a noção de “pratos sujos” no restaurante se limita a pilhas de pratos onde a direção de arte passou o dedo com molho de tomate no fundo da louça, e deixou um pouco escorrer pela beirada da pilha. A direção de arte nunca viu um prato sujo de verdade? Ou o único prato servido neste restaurante é molho de tomate? As construções desleixadas poderiam continuar, indefinidamente, incluindo os patrões cuja função única seria de tocar os personagens de volta ao trabalho, além das falhas de continuidade na maquiagem.
Entretanto, o que realmente perturba em O Velho Fusca é a maneira leve, descompromissada e inconsequente com que empurra os reais conflitos para debaixo do tapete. Homofobia? Imagina, é só coisa da geração passada (embora os mecânicos jovens sejam igualmente preconceituosos). Objetificação da mulher? Bobagem, é só questão de conquistá-la, e logo a mulher boxeadora se acalma. Conflito geracional, violência doméstica, expulsão de casa? Esqueça tudo isso, são águas passadas. Afinal, ele ainda é pai. Ao final, paira o desconforto de ver atores tão bons, a exemplo de Tonico Pereira e Christian Malheiros, reduzidos a caricaturas nocivas, além da certeza de que minimizar violências estruturais em nome do amor familiar incondicional não representa o ponto de vista mais progressista do mundo.




