Ritas (2025)

Querida rebelde

título original (ano)
Ritas (2025)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
83 minutos
direção
Oswaldo Santana
visto em
30º Festival É Tudo Verdade (2025)

Um documentário sobre Rita Lee soa como uma tarefa, ao mesmo tempo, bastante fácil e difícil de fazer. “Fácil” (entre muitas aspas, porque nenhum filme brasileiro é simples de concretizar) pelo fato de a cantora ter sido marcada por várias décadas de imagens fortes, frases de efeito, e momentos de destaque, tanto cômicos quanto dramáticos. Ela se filmou e concedeu inúmeras entrevistas, nas quais se apresentava com uma sinceridade ímpar. Abordava sem qualquer pudor seus amores e desamores, suas conquistas e rancores.

Difícil porque, justamente, este acervo inesgotável de registros pessoais e sobre os palcos poderia conduzir à armadilha da espetacularização da artista. É muito fácil tratá-la como “louca”, “excêntrica”, “inclassificável” e outras perspectivas que não escondem a condescendência por trás do suposto carinho. O diretor Oswaldo Santana precisaria escolher entre se focar na persona Rita Lee (que a própria mulher descrevia como uma personagem) e na sua criadora, por trás do cabelo cor de fogo e do sorriso fácil. A máscara ou o rosto atrás da máscara?

Ritas tenta seguir com uma perna em cada caminho. Compreende que a protagonista não poderia ser descrita no simples formato dos talking heads, intercalando entrevistas de celebridades com material de arquivo. Por isso, investe nas animações e colagens em efeito caleidoscópio, enquanto efetua idas e vindas no tempo, costurando o vídeo caseiro da cantora idosa com entrevistas da jovem Rita. Trata-se de uma combinação leve, ágil e agradável de assistir.

O cineasta escolhe bem o seu foco, preferindo que Rita Lee explique a si mesma e domine completamente o ponto de vista. Ritas absorve o caráter sincrético da mulher e consegue honrá-la a contento.

Isso não significa, em contrapartida, uma opção pela radicalidade estética. Costuma se pedir que a direção procure se equiparar ao nível de ousadia do artista retratado — consegue imaginar uma linguagem careta para uma figura arrojada como Rita Lee? Ora, o autor acata algumas intervenções relevantes, porém discretas, em pós-produção. Mesmo assim, preocupa-se em manter o resultado bastante acessível ao público médio. O filme nutre evidentes ambições de funcionar bem junto ao espectador amplo, que se deslocaria às salas escuras mais por Rita Lee do que pelo cinema em si. 

Assim, para um projeto com tamanha ambição de ser palpável, o resultado se mostra bastante competente. Os principais passos no percurso da cantora são elencados sem a preocupação da cronologia ou das relações de causa e consequência. A expulsão dos Mutantes será interpretada como um mistério, posto que a protagonista o via desta maneira. A participação no Tutti Frutti também ganha uma menção rápida, enquanto as canções de maior sucesso surgem de maneira mais ou menos esparsa: Lança Perfume, Doce Vampiro, Agora Só Falta Você, Ovelha Negra, Mania de Você

Mesmo assim, o cineasta escolhe bem o seu foco, preferindo que a cantora explique a si mesma e domine completamente o ponto de vista. Em consequência, a mise en scène despreza por completo a relação com os fãs, com empresários, e mesmo a composição das músicas. Estas últimas são citadas a posteriori, quando estão prontas, e já constituem um sucesso na carreira de Rita Lee. As letras nunca aparentam possuir uma relação pessoal com a mulher, nem com um momento específico de sua vida pessoal. Santana foge ao olhar determinista, assim como aos psicologismos simples. Ignora-se como a artista criou todas estas canções (da letra à orquestração) — e ao filme, isso pouco importa.

Em contrapartida, a montagem privilegia o amor pelo marido, pelos filhos, pela experiência durante shows. Rita Lee se torna digna de identificação graças à maneira franca de abordar temas sobre os quais muitas pessoas se calariam (“Diga não às drogas, mas seja educado, diga não, obrigado”). Menciona sua aparência, seu desejo sexual, sua voz pequena, assim como a admiração/inveja do vozeirão de Elis Regina. Agradece sinceramente ao apoio de Gilberto Gil e Caetano Veloso, enquanto admira João Bosco por dividir o palco com ela. O filme capta bem este misto particular entre confiança e humildade, entre a garota em busca de aprovação e a mulher segura e provocadora.

Até por isso, o longa-metragem dispensa a vocação a elogiar incessantemente Rita Lee (assim com diversos documentários o fazem): a própria artista possuía uma consciência brutalmente honesta de suas limitações ou falhas. Santana e sua equipe não a admiram apenas pela música, mas enquanto ícone cultural, símbolo feminista, e porta-voz de uma geração muito específica da música brasileira, na esteira tão generosa quanto opressora do Tropicalismo. O cineasta admira a protagonista por suas contradições infinitas, razão pela qual a hagiografia seria incompatível com uma personalidade múltipla e contraditória. “Nunca fui um bom exemplo, mas sou gente boa”. “Sendo mulher, eu escancaro os tabus, mas não revelo os mistérios”, ela afirma. 

É louvável que nem o autor, nem a própria Rita, tentem se resumir ou explicar. Pelo ponto de vista dos criadores, ela foi uma mulher que, entre outras coisas, por acaso, fez todas aquelas canções famosas e terminou excomungada da Igreja. Em contrapartida, a artista jamais é definida como fruto de suas ações, ou sintoma de sua época. Ela soa como um elétron livre, medida de sua própria qualidade, referência para si própria tanto quanto Nossa Senhora Aparecida e David Bowie. Ritas absorve o caráter sincrético da mulher e, embora ainda seja relativamente comportado para uma figura tão explosiva, consegue honrá-la a contento.

Ritas (2025)
7
Nota 7/10

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